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Chamou-me a atenção a cobertura nos jornais de hoje (quinta, 21/09/2017) a respeito da morte de Carlos Alberto Silva, 74, conhecido popularmente como “Homem do Chifre”.

Trata-se de uma “figuraça” que andava pelas ruas do centro de Florianópolis com um megafone anunciando, às vezes aos berros, as ofertas especiais do comércio e papagueando piadas.

Se não bastasse andar geralmente com um par de chifres na cabeça (daí ser conhecido como “Homem do Chifre”), Carlos Alberto às vezes percorria a cidade vestido apenas com um escandaloso fio dental encravado nas nádegas. Enfim, um artista completo!

Mas o que realmente chamou-me a atenção? A resposta é: foram as reportagens em si. Eram pequenas, reduzidas, breves lembranças dos redatores. Pergunto: algum jornal de Florianópolis chegou algum dia a publicar uma reportagem completa sobre a vida de Carlos Alberto Silva? Chegaram a ter essa curiosidade?

Quando falo de reportagem, estou referindo-se a uma entrevista completa, quem sabe de uma página inteira de cabo a rabo, pois para uma boa história não importa espaço. Se tivessem feito uma reportagem sobre a vida de Carlos Alberto, esta teria de ser fundamentada em perguntas como de onde ele veio, nomes de seus pais, quantos irmãos teve, o que faziam, como foi a infância do entrevistado, onde estudou, quando chegou a Florianópolis, por onde passou, como veio a trabalhar com megafone, quais foram suas aventuras, se já foi casado, se tem filhos, onde estão, quais suas alegrias, suas tristezas, como vê a cidade, se já sofreu alguma discriminação, por quais “causos” engraçados passou etc, etc, etc.

Enfim, uma entrevista completa contando sua vida tentando extrair um perfil mais amplo de sua história de vida.

Se os jornais de Florianópolis tivessem feito isso, a cobertura de hoje (quinta, 21/09/2017) não teria sido tão “água ralinha” de algumas poucas linhas escritas às pressas, mais baseadas em vagas lembranças de andanças pelas ruas recordando a passagem dele, do que um verdadeiro histórico sobre a vida do personagem real. Talvez Carlos Alberto fosse mais do que um chifre na cabeça.

Por que falo isso? O jornal Biguaçu em Foco, de propriedade de minha família, é uma publicação dirigida a notícias da comarca de Biguaçu. Infelizmente nunca publiquei uma matéria sobre o “Homem do Chifre”. Nunca coincidiu eu ter ido a Florianópolis e ter encontrado Carlos Alberto e convencido-o a dar-me uma meia hora para conversar e contar sua história.

Mas quando era estudante do jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) entre 1988 a 1992, tive a oportunidade de entrevistar e publicar uma reportagem sobre a vida de um pintor de rua, um senhor natural de Santana do Livramento, fronteira entre Rio Grande do Sul e Uruguai, de sobrenome “Quarleri”. Ele ficava na rua Felipe Schmidt com seus quadros.

Conversa vai, conversa vem, ele, que tinha forte sotaque espanhol, pois passou boa parte de sua vida de artista de rua em Buenos Aires, Argentina, me contou a sua história, inclusive como veio parar no Paraguai na década de 1930 quando estourou a Guerra do Chaco.

O tempo passou, eu já havia formado-me na faculdade e um certo dia uma estudante de mestrado em linguística da UFSC veio procurar-me em busca justamente da dita reportagem publicada num jornal em que trabalhei em 1992. Como soube de minha matéria e como veio descobrir a minha pessoa, esqueci de perguntá-la na época.

Mas na ocasião, vim a saber a respeito do que se sucedeu com o pintor de rua Quarleri. Ele teve um derrame, acabou indo parar num asilo beneficente, perdeu boa parte da fala, mas a moça em questão interessou-se em fazer uma terapia para ajudá-lo a recuperar a fala e isso acabou virando seu tema de mestrado. Isso era 1994 ou 1995.

E ela queria encontrar a minha reportagem, pois ajudaria a entender melhor a história do pintor e a reavivar a memória dele. Ela alegou que era o único registro mais detalhado sobre a vida do artista.

Dei uma cópia da matéria a ela de bom grado. Anos mais tarde, soube que sr. Quarleri veio a falecer no asilo.

Quando comecei a editar o jornal Biguaçu em Foco a partir de agosto de 1993, passei a escrever, entre outros assuntos, matérias sobre o povo de Biguaçu e, na medida do possível, registrei a história de “figuraças folclóricas” da vida.

Uma delas foi o gari Jacó, por exemplo, super conhecido pelo povo de Biguaçu. A matéria não foi superficial. Pelo contrário. Contei a história dele com o máximo de detalhes possíveis. Não é por que é gari e gente simples do povo que Jacó não merece uma matéria ampla sobre a história de sua pessoa.

Dentro dessa linha, já entrevistei catadores de lixo, mendigos, hippies, gente que morava debaixo de pontes, pescadores da ponte sobre o rio Biguaçu, ex-vigia de escola que alegou que nunca viu nada na escuridão da madrugada sozinho dentro do local de trabalho e até pinguços populares de Biguaçu. O objetivo dessas entrevistas era conhecer o “povão”, suas histórias, seus problemas, suas alegrias, enfim, dei um espaço no jornal para que o povo de Biguaçu conhecesse o próprio povo da cidade, sem qualquer distinção de classe ou preconceito.

Mas essa não é a postura dos jornais da capital. Não estou criticando nem censurando e muito menos falando mal. Apesar estou comentando a respeito de uma constatação. Raramente os jornais de lá registram a história de algum “Mané” do povo com mais detalhes além de poucas linhas. É claro que jornal comunitário é mais próximo da cidade real do que um periódico de circulação estadual.

Mas, na minha experiência de jornalista comunitário, tem acontecido situações como a seguinte: o “Mané” folclórico morreu e eu não tenho dúvida: lá vou eu atrás de uma pasta onde guardo recortes das minhas reportagens biográficas das “personalidades” de Biguaçu e comarca.

No dia seguinte, publico no Biguaçu em Foco uma reportagem detalhada sobre a vida do morto porque um dia, anos antes, tive a preocupação de registrá-lo sem ficar reduzido a um registros “ralos”. Por isso, a impressão é que a reportagem é tudo menos “água ralinha”.

Não importa se o cidadão é um milionário, famoso ou figurão da República ou não passa de um “homem do povo”. Todos têm uma história para contar, muitas vezes tão interessante não importando classe e origem sociais.

E voltando ao Carlos Alberto Silva, o “Homem do Chifre”. Era um “Mané” pobre, andarilho, talvez vivesse às custas de um jeitinho aqui, outro acolá. No entanto, ganhou notoriedade e tanto foi que sua morte não passou em branco: foi divulgada pelos jornais e comentada por tanta gente nas redes sociais da internet.

Pena que sua verdadeira história de vida, que devia ser rica de detalhes, talvez até de superações, de alegrias ou decepções, provavelmente de luta constante contra a pobreza, não foi devidamente registrada. Se tivesse, seu “obituário” não teria sido tão “água ralinha”.

 

Homem do Chifre. (Foto Reprodução Internet)
Homem do Chifre. (Foto Reprodução Internet)
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