Publicidade
Cartaz da palestra e lançamento de livro de Guilherme Flores e Rodrigo Gonçalves. (Foto Reprodução)

Uma coisa é traduzir versos da literatura grega clássica só baseando-se nas linhas escritas. Outra sutilmente bem diferente é traduzir os mesmos versos, mas baseando-se no ritmo da música.

Essa é a essência de pesquisas dos tradutores de línguas clássicas (leia-se grego e latim), Guilherme Gontijo Flores e Rodrigo Tadeu Gonçalves, ambos da UFPR (Universidade Federal do Paraná), que vieram a Florianópolis na véspera do feriado de 7 de Setembro (quarta, 06/09/2017) proferir uma palestra intitulada “Algo infiel corpo performance tradução”, no auditório Drummond do CCE (Centro de Comunicação e Expressão) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Na ocasião, os dois tradutores apresentaram o livro recém publicado de autoria deles com o mesmo título da palestra. O evento foi organizado pelo profº Gilles Jean Abes, do curso de Letras em Francês da UFSC e docente da disciplina “Estudos da Tradução”, cujo objetivo é justamente isso: discutir teoria, prática e os problemas da tradução.

 

EXEMPLO PRÁTICO

Imaginemos que o leitor fosse tradutor do latim e recebesse uma encomenda de uma editora para traduzir poemas de Horácio (65 a.C-8 a.C).  A tradução ao português seria feita de acordo com o texto original que aparece impresso.

Guilherme Gontijo Flores e Rodrigo Tadeu Gonçalves talvez sejam os únicos a chamarem a atenção para um detalhe que raríssimos (com honrosas exceções) deram-se conta: os poemas de Horácio eram declamados ao ritmo da lira, isto é, não foram compostos apenas pela escrita em si sem estar baseados a uma sequência rítmica.

Numa explicação prática: Guilherme e Rodrigo não se contentaram apenas em traduzir Horário e outros autores gregos e latinos apenas pelo texto impresso. Fizeram a tradução baseando-se no acompanhamento rítmico de lira ou outros instrumentos musicais.

O leitor está entendendo? Sim? Mais ou menos? Na realidade, para acompanhar a discussão é preciso ter estudado poesia e toda a teoria em torno dessa arte. Na faculdade de letras da UFSC, há uma disciplina intitulada “Introdução ao Texto Poético” em que o aluno é literalmente introduzido ao complexo mundo da poesia.

E quem cursou, sabe que a Ilíada e a Odisséia, sem contar a poesia grega clássica, toda quase sem exceção, foi composta ao ritmo de “lira”, como é chamada uma espécie de harpa. Tal como os atuais sertanejos nordestinos tocam o violão para declamar a poesia da literatura de cordel, os antigos gregos declamavam suas poesias ao ritmo da lira. Aliás, o termo “poesia lírica” vem justamente de lira.

 

TRADUÇÃO VIA RITMO

Mas qual a conclusão desse “papo”? Guilherme e Rodrigo “sacaram” (usando um verbo bem popular, mas que expressa com exatidão o que aconteceu) que traduzir a antiga poesia “lírica” grega e latina é preciso prestar atenção TAMBÉM ao acompanhamento rítmico.

O leitor “sacou”? O grande pecado da academia é a incapacidade de ser bem didática, saber explicar o complexo em palavras bem simples, talvez até infantis para que (por que não?) uma criança de 10 anos de idade consiga entender.

Aqui vai a explicação que os próprios autores não souberam explicar em palavras simples e “traduzíveis” a quem não fosse familiarizado ao tema. É verdade que não havia viv´alma na palestra que não fosse universitário e a maioria estudantes de pós-graduação em tradutologia.

A explicação é a seguinte: imaginemos um verso de um poema grego. No original, o dito verso tem 12 sílabas.

Ao traduzir para o português, palavra a palavra, o verso fica com 16 sílabas. Claro, as línguas são diferentes. Não poderia ser de outra forma.

Guilherme Flores e Rodrigo Gonçalves sabem que o poema original era declamado ao ritmo da lira e o ritmo era “tan tan tanrã rã rã…”

O verso no original grego de 12 sílabas encaixa perfeitamente, mas a tradução para o português com 16 sílabas já não encaixa. O que fazer?

O tradutor convencional não dá importância a isso. A tradução tem de ser registrar o que o verso está dizendo, não se importando com outros detalhes como rima, sonoridade do original etc e tal. Mas Guilherme e Rodrigo deram importância e o trabalho deles tem sido exatamente isso: não só traduzir, mas que o verso traduzido encaixe perfeitamente no ritmo da lira quando o poema original em grego foi declamado.

Agora o leitor entendeu qual é o “barato” de Guilherme e Rodrigo?

Quando ele falaram sobre “vocalidade interferindo na tradução”, estavam dizendo exatamente mais ou menos isso, mas na pomposa linguagem acadêmica que há muito está dissociada à linguagem simples e direta.

 

LIVRO

A palestra de ambos versou sobre os desafios da tradução não apenas restrita a descobrir o sentido exato das poesias originais em grego e latim, o que já é uma trabalheira do tamanho da China, mas descobrir o ritmo original.

O autor deste artigo não chegou a perguntar aos tradutores Guilherme e Rodrigo sobre como eles descobriram qual era o ritmo da lira usado em certos poemas específicos que eles citaram durante a palestra.

Não sendo músico, o autor deste artigo desconhece qual era a partitura usada pelos antigos gregos e latinos para registrar a melodia e o ritmo de suas músicas. Num determinado momento da palestra, um dos tradutores perguntou: “Horácio (antigo poeta romano) não recitava com lira?”

Quando ele fez tal pergunta, indiretamente estava dizendo que as poesias de Horário que chegaram até nossos dias não estavam também com as indicações de partitura (para sabermos o ritmo musical).

Ou seja, os tradutores trabalharam na suposição (99,9% de certeza de que estavam corretos) de que a poesia de Horário, de métrica perfeita e com vocalidade idem, realmente surgiu acompanhada de lira, como era o costume da época clássica.

As traduções que existem de Horário para as línguas ocidentais modernas (inglês, francês, português, alemão, espanhol etc) foram feitas sem que os tradutores tivessem preocupação também com a métrica musical.

E nessa brecha é que entraram Guilherme Flores e Rodrigo Gonçalves com o objetivo de traduzir Horácio e outros autores clássicos com a maior precisão possível (se é que isso é possível quando o assunto é tradução).

 

INSTRUMENTOS MUSICAIS

Um tradutor tradicional só precisa de um computador e dicionário (antes era apenas papel e caneta, sem citar os livros) para traduzir.

No caso de Guilherme Flores e Rodrigo Gonçalves, outros instrumentos de trabalho para traduzir são “instrumentos musicais”.

Sim, instrumentos musicais. Um deles comprou uma lira e aprendeu a tocá-la em seis meses.

A ideia não é apenas traduzir os versos, mas verificar se os mesmos encaixam no ritmo da música.

Eis a preocupação pela “vocalização”, isto é, não basta traduzir, mas que essa tradução se encaixe na música. Vale lembrar que se supõe que os versos originais foram declamados. “Não teria uma tradução diferente?”, indaga-se um dos tradutores.

E assim eles usaram cavaquinho para traduzir poesia medieval,  entre outros instrumentos musicais que experimentaram. A ideia é a “recriação poética” unindo vocalidade e performance.

Uma das indagações deles foi a seguinte: os romanos tiveram grande influência das artes gregas, inclusive na poesia.

Se a poesia grega é sabidamente composta com acompanhamento de lira, a poesia romana, inspirada na grega, também não tinha acompanhamento musical? Qual era a “afinação romana”? Será que esta na métrica clássica grega “dimitro jônica”?

E os autores contaram como fizeram tais experimentos, inclusive fazendo experiências meio “malucas” como traduzir um autor grego ao ritmo de Roberto Carlos. O foco é a “vocalidade” e esta produz traduções diferentes.

E o livro “Algo infiel corpo performance tradução”, que reúne inúmeros teóricos da poética, mesmo não seguindo o tradicional “começo”, “meio” e “fim”, busca explicar essa busca da “vocalidade”.

 

DESAFIO

Como tirar a poeira os clássicos greco-latinos e colocá-los para o grande público?

Buscando uma tradução diferente em que se tem o cuidado também de buscar a “vocalidade”, isto é, a declamação perfeita entre voz e ritmo musical.

ÁUDIOS

 

 

 

Publicidade