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Um livro que falta para a bibliografia do município de Biguaçu é justamente um dicionário dos nomes de rua da cidade. Entre as ruas, figura a “Sérgio Murilo Martins”, a que dá acesso ao bairro Janaína, em Biguaçu. O nome desta rua foi oficializado num decreto legislativo de 1988.

Há quem não saiba quem foi Sérgio Murilo Martins, um craque de Biguaçu em ascensão no futebol catarinense, que teve a vida abreviada num acidente na BR-101. Aqui uma história desse craque que deixou muita saudade.

Filho de Dauvilha Isabel Pereira Martins (Lalá) e Luiz José Martins (Lucas), Sérgio Murilo nasceu em 22 de agosto de 1963, em Florianópolis.

Sendo filho do seu Lucas, o futebol entrou cedo em sua vida. Em 1970, com quase oito anos de idade, “Lilo”, como era conhecido, apaixonara-se pelo futebol de Gerson, craque da seleção brasileira da Copa do México, cujas partidas eram transmitidas pela TV.

Conta Lucas que o filho, logo depois das partidas da seleção brasileira, ia para a frente de casa brincar com a bola. Na época, a família morava ao lado de onde hoje é o Açougue do Naim, entre o centro de Biguaçu e a rua Cônego Rodolfo Machado, que dá acesso ao bairro Fundos.

Conta Lucas que o filho jogava a bola para o alto e matava no peito, imitando Gerson. “Olha, Lalá. Esse ainda vai jogar na seleção brasileira”, dizia o pai pressentindo que Lilo iria longe no futebol.

Naquele ano de 1970, Lilo jogava, junto com seu irmão mais velho Zezé, no Cruzeirinho, um dos vários times infantis de Biguaçu da época.

O ano era 1972. Lilo encontra-se com nove anos de idade. Na época, o Figueirense começou a disputar o campeonato brasileiro e o famoso time treinava no campo do Biguaçu Atlético Clube (BAC). Sérgio Murilo simplesmente não saía de lá, literalmente encantado com o mundo do futebol.

Lucas não se lembra se era mesmo 1974, mas quando o Figueirense recém inaugurou seu estádio, o Orlando Scarpelli, levou Lilo para lá com o objetivo de tentar uma vaga para ele na escolinha de futebol daquele clube.

No entanto, o responsável da escola era um cidadão com o qual não bicava. “Se soubesse que eras tu, não teria trazido o meu filho para essa escolinha”, disse Lucas caindo fora do local.

Ainda bem. Afinal, Lucas e seus filhos são torcedores do Avaí e Lilo, se tivesse ingressado no Figueirense, estaria colocando seu talento a serviço do eterno inimigo do “Leão da Ilha”.

Em 1975, aos 12 anos de idade, Lilo ingressou no time mirim do Avaí. E assim começou sua trajetória dentro do clube.

O que o diferenciava dos outros era a dedicação. Sérgio Murilo treinava com afinco. Havia decidido tornar-se jogador de futebol.

Em 1979, aos 17 anos de idade, conseguiu ingressar na equipe principal. Pouco tempo depois, foi para o Grêmio, mas o Avaí não o liberou para jogar naquele clube.

Retornou para Santa Catarina e ficou desmotivado. Parou de treinar. Parecia que iria desistir da carreira de jogador de futebol.

No entanto, Anoraldo Borba, o “Tadéco”, o convidou para participar de um coletivo do Avaí. Lilo aceitou e o então técnico Emilson Peçanha gostou muito de seu futebol. Convidou-o e assim o entusiasmo retornou com força total.

Em 1981, Sérgio Murilo sagrou-se campeonato municipal de Biguaçu pelo BAC. Vale lembrar que na época ainda não havia a Licob (Liga de Futebol Amador da Comarca de Biguaçu). Em seguida, sagrou-se campeão do Juniores de Santa Catarina pelo Avaí.

Em 1982, foi escalado para a seleção catarinense que disputou o campeonato brasileiro de futebol júnior. Já no ano seguinte, em 1983, sagrou-se campeão estadual de futebol pelo Exército. Fazia parte da equipe do 63º Batalhão de Infantaria (BI).

Em 1984, sagrou-se campeão da Taça Santa Catarina pelo Avaí. Lilo fez o gol que levou à disputa de pênaltis, ocasião em que seu time conquistou o título.

Naquele início de 1984, Sérgio Murilo chamou a atenção da mídia para seu futebol e o Fluminense tinha avisado que estava com interesse em contratá-lo.

Sérgio Murilo ainda não era jogador profissional. Motivo: naquele ano de 1984 iriam ser realizadas as Olimpíadas de Los Angeles, nos EUA, e a regra era que os jogadores não poderiam ser profissionais, mas amadores. Portanto, Lilo só iria assinar contrato depois das olimpíadas.

No entanto, em 5 de março de 1984, por volta das 5h30, quando retornava de um baile de carnaval no sul do estado junto com um amigo, Alceo Aristides dos Santos (1963-1984), o carro onde estavam colidiu com um caminhão, no quilômetro 298 da  BR-101, na altura do município de Imbituba. Sérgio Murilo era o carona. Tanto ele quanto o motorista, Alceo Aristides dos Santos, não resistiram aos ferimentos.

É uma questão religiosa, mas para quem acredita no espiritismo, ao longo dos anos seguintes, o espírito de Sérgio Murilo teria enviado mais de 10 mensagens mediúnicas através de médiuns espíritas, para sua família. Lendo as cartas psicografadas, percebe-se nitidamente que ele tenta consolar seus pais, que não se conformam com a tragédia.

Ele aparece nos sonhos de sua mãe, dª Lalá, dizendo que está tudo bem e que se encontra num bom lugar.

Aqui umas das cartas: “Meu pai, minha mãe. Não se preocupem comigo. Preocupem-se sim com os compromissos da terra. Eu estou bem e com Deus. Tudo bem na hora certa e esta preocupação de todos é desnecessária, pois a vida resume-se na terra em nascer, viver e morrer- fisicamente é claro, pois só estão realmente mortos os espíritos que persistem na ignorância.

Temos o livre arbítrio e podemos optar pela vida, fugindo da ignorância. Por que persistir nas trevas da ignorância se podemos optar pela luz?

Eu tenho todo o amor possível pelos meus pais embora eles ainda não compreendam. Não vim antes porque não pude vir, porém hoje estou aqui na paz de Deus! Sérgio Murilo”.

BAC 1981- Sérgio Murilo, junto com seu irmão Zezé, ajudaram o BAC a sagrar-se campeão municipal de Biguaçu na ocasião.  (Foto: Acervo seu Lucas)

 

 

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