Amanda Arruda

E-mail: E-mail: amandaarruda2001@yahoo.com.br

 

Naquele quarto, onde todas as noites dormia um homem, havia um quadro pendurado na parede. Gioconda, também chamada de Monalisa, de Leonardo da Vinci. Alguns passos à frente da pintura, jazia um espelho por onde a mulher retratada vigiava a alma que era ali mostrada, à medida que algum indivíduo parava defronte àquele pedaço de coisa translúcida que desnudava o eu de todas as pessoas por completo.

O homem que ali repousava suas madrugadas de cansaço e dor tinha todos os seus atos mais sutis vigiados pelos olhos de Gioconda, desde o despertar até o próximo adormecer. Há muito tempo, aquilo era pesadelo. Contemplar-se ao espelho era a coisa mais assustadora que lhe podia ocorrer, porque a Gioconda o espiava por detrás das costas com um sorriso enigmático a trazer um misto de escárnio, zelo, tranquilidade e perturbação. Os sentimentos daquele homem variavam entre a paz e o incômodo, a coragem e o pavor, a segurança e o desespero. Eram oscilações das quais não dava conta de sentir. E naquele coração residia horror.

Não conseguia a preciosa paz que tanto lhe fazia falta. Não podia escrever um poema e lê-lo em alta voz, porque a Gioconda podia ouvir e gargalhar sarcástica das suas palavras que o faziam duvidar de si mesmo. Ele se perturbava porque ela desvendava tudo dele, mas ele não desvendava nada dela. Tornou-se zeloso de si e de suas atitudes mais simples, cada vez mais encarcerado dentro de si mesmo, pelo patético medo de sua alma desnudada por aquele rosto tão bobo e ao mesmo tempo tão sagaz que gargalhava o tal sorriso de marfim daquela música que um tal poeta escrevera um dia.

Tudo para ele era perseguição. Se ele exibia um riso, ela o fazia perguntar-se sobre o porquê. Se ele chorava, ela parecia escarnecer de seu pranto. Se ele falava, ela fingia prestar atenção não dando a menor relevância para o que dizia. Ela o fazia repensar três, quatro, cinco ou mil vezes cada ato seu, porque qualquer passo em falso, qualquer vírgula fora do lugar que lhe cabia, resultaria no desastre completo, na deturpação da semântica de sua vida.

Aquilo tudo nem era a pobre Gioconda. Era ele e sua cabeça totalmente paranoica. Ele tinha medo da arte. Todos o têm. Medo de arte, de sorrisos, de olhos e de vida. Medo de ser livre por estar acostumado a estar preso achando-se liberto, enquanto em realidade aquela pretensa liberdade era uma prisão, da qual a obra deseja nos livrar, mas nós rejeitamos por escolher nos manter escravos de nós mesmos. Medo patético. Medo monstruoso. Fazia muito tempo que não se via refletido no espelho porque tinha medo de ver da arte a sua recusa. Porque a Gioconda – perfeita como era – não podia permitir-se aprovar um pobre mortal repleto de ares grotescos e de uma alma nua num espelho. Tudo o que vinha de si, em sua cabeça, a Gioconda reprovava. Sim, certas coisas ela realmente repudiava, como propriamente dela ouvi dizer tais palavras. Mas quem seria tão imbecil de encontrar num apaixonado sorriso de marfim, o ar do sarcasmo e do deboche?

Infelizmente, a Gioconda não podia dizê-lo, por estar na maldição de ser para sempre presa e calada, cuja expressividade estava no olhar antropofágico a devorar a primeira alma que visse diante do nariz. Mas uma Gioconda encarcerada entre molduras é menor demérito do que um homem vivo preso dentro do próprio eu. Era preciso que fazê-lo enxergar. Até que um dia o enxergou e, em frente ao espelho, fitou o sorriso de Gioconda e reparou em quão bela, real e humana era ela. Viu em seus traços sutis e cheios de perfeição, algo tão puro e encantador no qual ele nunca reparara antes. Deu as costas ao espelho, fitou a bela mulher a fundo nos olhos e beijou-a no precioso sorriso de marfim, aventurando-se no brilho do verniz que ali eternizava uma beldade.

E dali em diante, o que faria o homem? Não mais temeria a arte. E fitando as paredes brancas do quarto, pensou que talvez pudesse se libertar tatuando num canto a cara lispectoriana de olhos tão desafiadores quanto os de Gioconda. A arte é arte pela paz e pelo conflito. Grande mãe e amante do ser humano.

(*) Amanda Arruda, 16, faz parte da nova geração de escritores de Biguaçu. Quem quiser adquirir o romance “A Heroína que virou Lenda”, entre em contato pelo fone (48) 9-9645-7045 ou pelo e-mail amandaarruda2001@yahoo.com.br.