Mari Rieke

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Fábio Malini é ensaísta, professor e pesquisador sobre ciências de dados, redes sociais e Comunicação Política. Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (2000), É Mestre em Ciência da Informação pelo IBICT/CNPQ – ECO-UFRJ (2002). É Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007). É jornalista midialivrista, atuando em coletivos independentes de mídia e especializado em cobertura colaborativa, videolivestreaming e no desenvolvimento de plataformas focadas em comunicação política. É autor de dezenas de artigos sobre política e redes sociais. E escreveu, em co-autoria com Henrique Antoun (UFRJ), o livro A internet e a Rua (Sulinas, 2013). É professor do Departamento de Comunicação, na Universidade Federal do Espírito Santo, desde 2005. É Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Informação, Redes e Cibercultura (LABIC), na UFES.

Malini ao iniciar o artigo “Narrativas no Twitter: o fenômeno no Brasil e as suas implicações na produção da verdade”, observa que a partir de 1994, após ser apresentado ao mundo o projeto World Wide Web, a internet de raiz começa a mudar. Os usuários das comunidades virtuais se divertiam lendo mensagens de temas diferentes na tela do computador que tinha um fundo preto chapado. Eles mesmos podiam criar essas comunidades, desde que tivessem dinheiro para comprar um computador Pentium 386, baixassem o software Apitfire e aprendessem, através dos tutoriais, a criar seu próprio bullletin board system (bbs). Era uma espécie de “clube bbs” e os sócios pagavam uma taxa para se conectarem, onde o criador do clube era como um UOL, uma Terra, uma AOL. Mas com a nova internet, as bbs foram embora.

O autor recorda que com a chegada da  Web e a criação do site, a tela preta do DOS passou a ter um design colorido e os chats mais animados. Afirma que foi nesse mesmo ano que um estudante de jornalismo (Justin Hall) passou a escrever, em seu site, relatos de acontecimentos passados e presentes de sua vida particular. De maneira que, este estudante, conseguiu se manter presente de forma online, interligado com internautas que apreciavam o mesmo tema. O diário virtual começou com esse rapaz. Segundo o autor o termo blog só foi surgir em 1997, da junção das palavras log (que Justin inventou online) e Web (criada por Berners-Lee). Malini aponta que os blogueiros faziam uso do hipertexto, relatando de forma intimista uma informação e tinham como prática cultural filtrar o que havia de melhor no mundo de informações da internet.

Segundo o autor, essa cultura blogueira continuou crescendo e em 1999 nasceu o Blogger, um site em que o usuário só precisava se logar e escrever um texto com título e enviar. Também surgiu um programa de comentários para os blogs, desenvolvidos por hackers, que possibilitava que os internautas comentassem, repudiassem e republicassem os posts escritos.

Foram criados mais de cem milhões de blogs e o grande impacto foi os grupos editoriais e de comunicação perderem o monopólio da narração. Malini observa que, com a cultura da incorporação (embedding) e a da classificação (tagging) que chegaram com as mídias sociais (Youtube, Flickr, SoundCloud, Slideshare e outros vários dispositivos da Web 2.0) possibilitou que os blogs se cruzassem com todo tipo de linguagem. Os blogueiros poderiam postar (escrever) em rede, podendo interconectar seus post a outros conteúdos e sites e tornando-os ainda mais multimídia. Malini constata que o escritor-blogueiro apresenta uma maior visibilidade, a qual rompe o “paradígma da Olivetti”, daquele escritor isolado, escrevendo seu rascunho. E questiona se é possível criar o tempo todo, sem se isolar, quando existe essa interrelação cognitiva e afetiva, entre o escritor e o leitor e a necessidade de estar sempre criando novas histórias.

Segundo Malini, à cultura do embed, do widgets, streaming e mobilidade, presente nos blogs, foi acrescentado uma nova invenção, a do Tumblr e Twitter, a possibilidade de conhecer o público blogueiro, que antes era praticamente desconhecido. O público e o blogueiro viraram seguidores e o clusters foram transmutadas com o nome de perfis e ficou mais fácil curtir, comentar, republicar e responder as atualizações. As hashtags (transmutação das tags) possibilitam que relatos fragmentados se transformem em notícias gerais e comuns. Para Malini, um universo infinito de usuários quando estão usando o símbolo # no Twitter, numa conversação agrupada, estão participando de uma narrativa compartilhada, única e porém múltipla. A narrativa Compartilhada, para Malini, é o relato feito por vários sujeitos na internet que assumem o franco falar e no tempo real, que se identificam com a causa, compartilham aquele acontecimento na busca de audiência, procurando tornar público o fato que é vivido. Enquanto que na narrativa jornalística predomina o passado, a distância do fato narrado, repetição de uma só versão e autenticação dos fatos dentro de uma hierarquização de fontes. Segundo o autor essas narrativas compartilhadas provocam uma guerra pela atualização das notícias, enquanto que antes essa tarefa era dos jornais.

Neste mesmo artigo de Malini, na página 126, ele relembra as hashtags das eleições presidenciais de 2010, “quando as hashtags compartilham narrativas ideológicas”. Assim como na página 130, ele vai refletir sobre a #chuvaNoES: quando as hashtags compartilham narrrativas informativas. Por último, na página 136, Malini vai comentar sobre a hashtag: #calabocagavão. Ele conta que em 2 de março de 2010, durante um jogo das eliminatórias da Copa do Mundo entre Brasil e Irlanda, houve 20 tweets que mencionaram #calabocagalvao. Em abril, durante o tempo que Galvão Bueno narrou os jogos e as corridas de Fórmula 1 somaram-se 85 tweets com a hashtag  #calabocagalvao. Mas foi no dia 10 de junho de 2010, no Twitter, que foi repetida milhões de vezes pelos tuiteiros. Para os turista, que não sabiam do que se tratava, passaram a ideia de que era uma música inédita da cantora Lady Gaga; passado um tempo explicaram que era um remédio homeopático de nome: Silentium Galvanus; depois fizeram um cartaz traduzindo a hashtag como:   Save Galvão Birds. No dia 12 de junho, um usuário  fez um vídeo bem produzido e narrado em inglês passando a ideia de que a hashtag referia-se a uma campanha para salvar uma espécie de pássaro raro da Amazônia, de nome Galvão, “Save Galvão Birds Campaign”. Somente no dia 15 de junho que a mensagem foi desmentida a nível internacional pelo New York Times. A hashtag #CalaBocaGalvao trouxe para as narrativas compartilhadas a ironia e o humor, apontando a popularidade do Twitter no Brasil. Malini, pontua que a capacidade de narrar a história é não deixar que a mídia tradicional diga o que é acontecimento, mas que cada um pode fazer uma “nova história”, com internautas que antecedem as notícias jornalísticas e publicam informação em tempo real.

http://intercom.org.br/papers/nacionais/2010/resumos/R5-3057-1.pdf