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O JBFoco postou neste sábado (31/03) duas matérias sobre as enchentes do final da manhã de hoje em vários pontos da cidade de Biguaçu. E isso atiçou o senso cômico dos biguaçuenses. Um dos leitores postou um vídeo lembrando da antiga marcinha de carnaval.

Outro filmou um cidadão anônimo que não teve dúvida: saiu de casa numa prancha especial cujo nome não sabemos, pois sua rua, no Jardim São Miguel, virou “afluente” do rio Biguaçu.

Outra pessoa pergunta, quando filmou a “cachoeira” que saiu do muro de uma escola no bairro Morro da Boa Vista, perímetro urbano, “onde está o prefeito?”

Um quarto leitor enviou um vídeo chamando-o de “Rally dos Sertões”, isto é, um carro passando pela avenida Pedro Ivo Campos, a principal do Jardim São Miguel, bairro Rio Caveiras, literalmente virou “barco” devido ao fato da rua ter virado um “piscinão de Ramos”.

A pergunta que não quer calar-se: afinal de contas, mesmo com o investimento pesado em macrodrenagem, as enchentes voltaram com tudo na cidade. Para que serviram, então, as obras da macrodrenagem?

É rir prá não chorar. Que o diga relembrar a antiga marchinha de carnaval cantada em Florianópolis e que tirava o maior sarro das enchentes em Biguaçu!

 

MARCHINHA

Sobre a marchinha de carnaval, a estrofe era: “Choveu, choveu, Biguaçu encheu / Choveu, choveu, choveu Biguaçu encheu / Quando chove em Biguaçu é de amargar, só sai de casa quem sabe nadar / Em Florianópolis está chuviscando, em Biguaçu já tem gente nadando.”

Num artigo no jornal A Notícia, datado de 29 de fevereiro de 2000, intitulada “Os Carnavais que a cidade cantou”, Aldírio Simões (in memoriam) observou: “(…) “Biguaçu Encheu”, de Nilton Ferreira, sobre as constantes enchentes naquele município.”

Sérgio da Costa Ramos, numa crônica de 21 de maio de 2010, estampada no site www.sc24horas.com.br, observou: “Choveu, choveu! Biguaçu encheu! era o monocórdico estribilho de uma marchinha de Carnaval dos anos 1960, chorando uma dessas desgraças aquáticas, que reaparecem de tempos em tempos.”

Quem foi Nilson Ferreira? Quem era, onde nasceu, quando compôs o sambinha e também quando a música foi lançada? Não se sabe.

Relendo um especial que o JBFoco publicou sobre o escritor Salim Miguel em 2006, encontrei a seguinte citação sobre a origem do versinho “choveu, choveu, Biguaçu encheu: “Atribuídos, com ou sem razão, ao seu Geraldino Azevedo (…).”

Quem foi Geraldino de Azevedo? Pai do ex-prefeito de Biguaçu entre 1977 a 1982, João Brasil de Azevedo (1927-2002). Geraldino Azevedo (1895-1947) era um popular poeta da cidade nas décadas de 1930 e 1940.

Na pesquisa, encontrei na página 260 do livro “15 anos: Academia de Letras de Biguaçu- 1996-2011”, um artigo de autoria de Orival Prazeres (Vá). Sobre o dito sambinha, em que ele observou: “Até em músicas carnavalescas nossa cidade era motivo de gozações: “choveu, choveu, Biguaçu encheu…”. Havíamos perdido nosso amor-próprio, nossa auto-estima, o orgulho de ser biguaçuense, de morar em Biguaçu.”

Se antes era motivo de gozação, o seresteiro Netinho Borba, falecido em 2001, tinha essa música em seu repertório com muito orgulho. Afinal de contas, as enchentes fizeram parte insistente na história do município.

Segundo um mapa francês de 1735, a região onde encontrava-se Biguaçu era assinalada com a inscrição “Marais”, “pântano” em francês.

As enchentes sempre foram periódicas. Em 1918, conforme o historiador Raulino Reitz (1919-1990), ocorreu a enchente que assoreou de vez o rio Biguaçu, impedindo a navegação por embarcações de maior calado. Com isso, a navegação de mercadorias ficou anulada.

Em 1920, o “Annuario Barriga Verde” informava, na página 32: “(o governador do Estado de Santa Catarina) (…) já determinou o melhoramento de vulto que é a canalização do rio (Biguaçu) á beira da villa, salvando assim os terrenos da margem direita que estavam sendo corroídos pelas enxurradas.”

Desconhecemos se essa obra chegou a ser concluída.

Em 1942, conforme conta Raulino em seu livro “Alto Biguaçu- Uma Narrativa Tetrarracial” (1988), houve chuvas torrenciais que deixaram as estradas do interior do município intransitáveis para carroças, o meio de transporte da época.

A solução para exportar a produção agrícola foi tentar mandá-la pelo assoreado rio Biguaçu. Eis então que Reitz contou, na página 405 de seu citado livro, como seu irmão Domingos Reitz, com criatividade, lançou 400 barris de cachaça no rio Biguaçu e mandou dois peões numa canoa para que os mesmos tirassem os galhos e outros obstáculos que impedissem que os barris ficassem obstruídos e, assim, não descessem até a foz pela corrente.

Na década de 1970, foi aberto um canal lateral nas margens do rio Biguaçu para diminuir a intensidade das enchentes. Foi sucedido, se bem que as enchentes não acabaram. No entanto, em alguns trechos da cidade, ficaram menos intensas.

Em novembro de 1991, a enchente em Biguaçu registrou não só a destruição do trecho da BR-101 sobre o rio Caveiras, o que deu grandes transtornos numa rodovia de grande fluxo de trânsito como também uma morte.

Não temos o levantamento completo, mas, de lembrança, na década de 1980, um garoto morreu ao cair dentro de uma vala durante uma enchente. Além dos prejuízos materiais, as enchentes em Biguaçu já provocaram inúmeras mortes direta e indiretamente.

Em 22 de fevereiro de 1994, Biguaçu foi assolada por uma enchente que provocou uma morte. Foi a do policial militar Célio de Oliveira, na época com 28 anos de idade, que residia no loteamento Jardim São Miguel, atualmente parte do bairro Rio Caveiras.

Aqui trecho da notícia publicada na edição mensal do JBFoco de março de 1994, pág. 07: “(…) morreu afogado na madrugada (…) quando tentava tirar objetos de sua casa que estava inundada devido ao transbordamento de uma vala próxima. Ele já tinha tirado seu filho de dois anos do imóvel quando, ao retornar para lá, acabou arrastado pela correnteza para um bueiro, onde ficou trancado. Isso era 5h30. Seu corpo só foi resgatado às 10h.”

Uma praça do loteamento Jardim São Miguel passou a chamar-se “Célio de Oliveira”.

Em 2011, o prefeito do mandato 2009-2012, José Castelo Deschamps (PP) conseguiu R$ 35 milhões do Governo Federal para obras de macrodrenagens, ou seja, pela primeira vez é que foram realizadas obras de grande vulto para se tentar dar escoamento às águas.

Apesar da obra de grande vulto e do grande volume de investimento, a obra não resolveu o problema da enchente em Biguaçu. Hoje (sábado, 31/03) foi um exemplo típico: a chuva foi forte, mas durou menos de meia hora. Foi o suficiente para provocar danos em quase todos os bairros da cidade.

 

VIDEO 01

Leitor lembrou da marchinha “Choveu, Choveu, Biguaçu encheu” para não chorar a enchente que a cidade de Biguaçu sofreu na manhã de sábado (31/08/2018). Mesmo com as obras da Macrodrenagem, Biguaçu encheu fazendo jus à gozação da antiga marchinha.

VÍDEO 02

Cena da “Cachoeira” que virou o muro de uma escola no bairro Morro da Boa Vista, perímetro urbano de Biguaçu (SC-BR), na manhã de sexta, 31/03/2018 quando a cidade sofreu uma enchente.

VÍDEO 03

Cena da avenida Pedro Ivo Campos, no Loteamento Jardim São Miguel, em Biguaçu (SC- Brasil), durante a enchente de sábado, 31 de março de 2018.

 

 VIDEO 04

Rua do Jardim São Miguel vira “afluente” do rio Biguaçu e cidadão sai de casa numa prancha a remo. 

De boax em Biguaçu. Vídeo: @luanpereira_

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