Marcos Caneta (*)

Profº, ex-vereador e ex-secretário de cultura de São José, além de ativista da Cultura Afro)

E-mail: marcoscaneta@bol.com.br.

Em seu artigo denominado Zumbi dos Palmares: a Releitura Necessária, datado de 10 de maio do ano em curso, o Senhor Ozias Alves Junior, abordou um tema extremamente polêmico e sem comprovação do ponto de vista histórico e científico.

Por vezes, ficamos a perguntar qual o real interesse de autores deste tipo de artigo e onde querem chegar com suas divagações literárias.

A primeira ideia de desconstrução deste artigo é a análise da economia da época, ou seja, se Zumbi dos Palmares era um escravo, de que forma o mesmo teria condições econômicas para comprar ou manter um grupo de escravos em Palmares?

A segunda questão é por qual motivo outros grupos étnicos que compunham o Quilombo dos Palmares permitiram tal disparate? Até porque pelo que consta no artigo acima, é que Zumbi só defendia seu grupo étnico. Sendo assim, obviamente que os “supostos escravos” seriam de outras etnias africanas que não se rebelaram.

No mesmo texto o Senhor Ozias cita que havia uma falta de armamento para se combater o exército colonial. Partindo do exposto, como Zumbi conseguiria administrar toda esta situação interna? Sem contar que o Quilombo dos Palmares também era formado, conforme prospecções arqueológicas e estudos do pesquisador Pedro Paulo Funari, por diversos grupos indígenas que ocupavam o mesmo espaço geográfico do Quilombo.

Por que então Zumbi também não era dono de escravos de etnia indígena? Eu não sei qual grau de capacidade intelectual do Senhor Ozias sobre este assunto, porque pela segunda vez em uma década, ele insiste em discorrer de forma empírica sobre tema referente à figura de Zumbi dos Palmares e seus feitos. E não os de Tiradentes, Duque de Caxias e Antonio Vieira.

Creio que o período de 10 anos é tempo suficiente para se estudar história colonial brasileira, fazer um mestrado e iniciar um doutorado na área, já que, pelo que me parece, o senhor Ozias gosta tanto de tratar sobre este assunto.

Nos meus estudos de mestrado e doutorado, ambos na Europa, nunca ouvi falar dos escritores José Murilo de Carvalho e Leandro Narloch. Assim como, desconheço seus estudos referentes ao período colonial brasileiro. No entanto, posso indicar ao Senhor Ozias as leituras de Joel Rufino dos Santos, Clóvis Moura, Kabenguele Munanga, Abdias Nascimento, Caio Prado Junior, Fernando Henrique Cardoso e, na atualidade, o meu livro denominado Lei Áurea: Abolição Inacabada? Os autores S. E. Castan e Sérgio de Oliveira são conhecidos revisionistas no Brasil por terem escrito os seguintes livros: Holocausto, Judeu ou Alemão? Nos Bastidores da Mentira do Século e Hitler: Culpado ou Inocente? Buscam desconstruir uma parte da história escrita por autores que tratam do tema do nazismo e holocausto judeu. Podemos credenciá-los como escritores que possuem verdade absoluta sobre o tema posto?

No ano de 2014, em meus estudos de doutorado na Europa percorri seis países, entre eles, a Polônia, para compreender in loco o fenômeno do holocausto em Auschiwitz e Birkenau, e senti fisicamente uma dor inesquecível.

Convivi com judeus de boa parte do mundo e vi a mesma dor em seus olhos, em particular, quando entrei na câmara de gás. Percebi naquele momento que o holocausto foi uma verdade.

Quando assisti o documentário: O Julgamento de Nuremberg, meus olhos não queriam acreditar no que estavam vendo. Os vídeos da época demonstram de que forma os judeus foram tratados pelos nazistas.

Subi a Serra da Barriga, na cidade de União de Palmares, no Estado de Alagoas, por duas vezes e comprovei o ativismo de Zumbi dos Palmares e o seu legado histórico junto a inúmeros outros homens e mulheres que lutaram bravamente contra a escravidão.

Guerra de Palmares. (Foto Google Images)

Talvez o Senhor Ozias não tenha a dimensão, no que se refere aos direitos humanos, do que foi a escravidão brasileira e do número de seres humanos que foram violentados, estuprados, tratados como animais, vendidos e considerados uma “coisa” por 370 anos. Obviamente que a história ainda terá muito que acrescentar a esse tema. Mas antes de se falar de Luiz Gama, precisamos saber quem foi Luiza Mahin e o que significou a Revolta dos Malês na Bahia no século XIX.

Como também, qual foi a proporção da Revolta dos Búzios e Revolta da Chibata. No tocante a Santa Catarina, é fundamental trazermos à luz da visibilidade a luta humana de Cruz e Souza e Antonieta de Barros.

Eu não sei se o Senhor Ozias ou os Senhores José Murilo e Leandro Narloch conhecem a Serra da Barriga, a história de uma rainha africana feita escrava no Brasil de nome Aqualtune e qual o seu papel histórico?

Como também, quais foram as bases bibliográficas para afirmarem este suposto comportamento contraditório de Zumbi dos Palmares que foi assassinado em 1695?

Em minha carreira acadêmica consegui perceber que para a sustentação de uma teoria se faz necessária uma análise profunda de quem escreve sobre o tema posto e quais suas fontes literárias.

Caso contrário, seria muito mais profícuo discorrer sobre assunto que domine, porque a diferença do intelectual para um reprodutor de ideias alheias é a sua capacidade de construir conhecimento.

Finalizo sustentando que tecer esses tipos de comentários na passagem dos 130 anos da abolição da escravatura é um desserviço a historiografia pan-africanista.

Quem sabe uma boa roda de Capoeira possa instrumentalizar o conhecimento do senhor Ozias nos temas de ancestralidade, espiritualidade, história e luta por liberdade.

 

(*) Professor Marcos Canetta Rufino

Mestre em Patrimônio Cultural

Doutorando em Quaternário, Materiais e Cultura

E-mail: marcoscaneta@bol.com.br.

 

 

COMENTÁRIO

 

Prezado grande amigo, profº Marcos Canetta Rufino. Tudo bom, querido?! Pois é, mermão! O tema “Zumbi dos Palmares” é uma fábrica de polêmicas.

Na realidade, independente do ponto de vista, temos de debater, pois é dessa discussão que se constrói o conhecimento.

Quero deixar bem claro que nada tenho contra Zumbi dos Palmares. Apenas que, como jornalista, procuro temas que possam gerar debate. Isso é tão verdade que, bastou publicar no site www.jbfoco.com.br o artigo aqui estampado para gerar a discussão, que acho muito importante.

Marcos. Um abraço ao grande amigo e sucesso sempre.

 

Zumbi dos Palmares: a Reeleitura Necessária

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