Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

 

Sul do Rio é um vilarejo situado na margem direita da foz do rio Tijucas onde os mais antigos contam a surpreendente história do espírito conhecido popularmente por “Bota Grande”.

Localidade onde se brinca a “Farra do Boi” em Tijucas, Sul do Rio possui uma população por volta de 100 famílias, maioria operários da cerâmica Portobello. Do povo antigo, restam alguns pescadores e lavradores, descendentes de açorianos e mestiços de portugueses com índios.

O comerciante e pescador Alcides Gonçalves da Costa, popular “Sidoca”, um dos mais antigos do Sul do Rio conta que, até os anos 50, aparecia um bizarro vulto de um homem bem alto, que vestia terno preto, gola branca e calçava uma “Bota Grande”. Daí o nome. O espírito aparecia na praia da foz do rio Tijucas de madrugada. Houve vezes que chegou a ser visto às 18:00h, ao entardecer.

Sidoca conta que já viu o “Bota Grande”. ” Uma vez eu e um irmão meu, Altair da Costa, estávamos pescando na praia da foz do rio (Tijucas) e o ‘Bota Grande’ apareceu. Ele ficou parado olhando para nós sem abrir a boca. Recolhemos a rede e corremos em disparada para casa”, relata o pescador.

Conforme Sidoca, o “Bota Grande” era frequentemente visto pelos pescadores do Sul do Rio até que desapareceu misteriosamente no começo dos anos 1960. ” Muita gente acha que o ‘Bota Grande’ é o espírito de um jesuíta que morreu há muito tempo aqui nas redondezas de Sul do Rio”, especula o pescador. O tal jesuíta pode ter sido alguns dos padres que catequizavam os índios carijós no século XVI ou XVII, antes dos ataques dos “bandeirantes”, aventureiros vindos de São Paulo que atacavam índios para levá-los como escravos rumo às plantações de cana-de-açúcar de São Vicente (SP) e nordeste brasileiro.

Seria o “Bota Grande” o espírito de um “padre” que os antigos do Sul do Rio acham que era “jesuíta”? Em Biguaçu, 30 quilômetros litoral abaixo de Tijucas, os pescadores da região de Praia João Rosa, em frente à ilha de Santa Catarina, contam também a história de um espírito de um padre que aparece na proa das embarcações durante as madrugadas.

” Aquele espírito do “Bota Grande” ou seja lá o que era aparecia, olhava para nós sem dizer um pio e, se a gente recuasse, caminhava em direção à pessoa. Não dava para aguentar. Tinha que fugir”, comenta Sidoca. O pescador conta também que, certo dia, um popular do Sul do Rio muito valente chamado Elisiário Vieira, acompanhado de um amigo, tentaram atacar de facão o “Bota Grande”. ” Eles eram muito corajosos. Andaram pela praia de madrugada até que viram o ‘Bota Grande’ de costas. Aproximaram dele de sopetão e, na hora de dar a facada, viram que era um amigo pescando”, conta o pescador. Indagado se o mistério do ‘Bota Grande’ estava solucionado com aquele episódio, Sidoca retrucou: ” O ‘Bota Grande’ desaparecia quanto menos se esperava como uma nuvem, que confundia quem visse ele”.

Meu avô materno Teodomiro Antônio Baixo, que faleceu em 2004 poucos antes antes de completar 100 anos de idade, também contava histórias do “Bota Grande”.

Nascido em 2 de novembro de 1904, em Sul do Rio, Teodomiro relatava que o espírito voava a um metro do chão e que se aproximava dos pescadores à noite. Teodomiro diz que inclusive ele e sua falecida esposa Maria Olívia já viram o misterioso espírito. “Uma vez, dois irmãos valentes, Válter e o Ariço Varella, colocaram facões na cintura para matar o Bota Grande que, para eles, era alguém disfarçado para meter medo no pessoal do Sul do Rio. Uma noite, eles avistaram o Bota Grande e atacaram. O facões atravessaram no Bota Grande sem acontecer nada a ele e o espírito desapareceu depois na frente dos dois irmãos”, relata Baixo.

O “Bota Grande” faz parte do riquíssimo folclore do vale do rio Tijucas a espera de pesquisadores. Tais histórias podem transformar-se em belos livros etnográficos tal como a obra de Franklin Cascaes. As pesquisas de Cascaes eternizaram a história do povo da Ilha de Santa Catarina, cujo folclore hoje já desapareceu em grande parte. O mesmo destino vem sendo o do folclore de Tijucas e região.

Grande parte das histórias dessa região carece de registro por escrito.

 

Fantasma do Bota Grande, que aparecia na foz do rio Tijucas no século passado. (Foto Google Images)

 

Teodomiro Antônio Baixo (1904-2004) foi testemunha da aparição do “Bota Grande”. (Foto Arquivo JBFoco)

https://chat.whatsapp.com/DzUCpmYip17KFtkEeyNpaD

Clique no link acima e receba gratuitamente notícias do JBFOCO regional. Nesse grupo não existe interação. Somente recebimento de matérias jornalísticas de Biguaçu, Antônio carlos, Governador Celso Ramos e região.