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Era 1999 ou 2000 quando eu ia com minha esposa à casa do senhor João Damásio, situada na cidade de Tubarão, sul de Santa Catarina.

O pedreiro aposentado, João Damásio, viúvo que se casou em segunda núpcias com a idosa tia de minha esposa, dª Licinha (Alice Raul), era um grande contador de histórias.

Seu João tinha uma memória prodigiosa e lembrava-se de muitos detalhes, mesmo que de fatos ocorridos 50 ou 60 anos atrás.

Como jornalista, tenho como norma pessoal levar sempre uma máquina digital comigo (hoje no celular smart phone). Motivo: nunca se sabe se a notícia não pode aparecer na sua frente.

Mas em 2000, eu não tinha esse costume. Além do mais não havia máquinas digitais e não gostava de gravar fita cassete.

Foi com João Damásio que escutei, pela primeira vez, as histórias dos bugreiros. Fiquei fascinado com a história ao mesmo tempo horrorizado com aquela tragédia, uma mancha na história de Santa Catarina.

João conheceu dois dos bugreiros que atuaram no bando de Martinho Bugreiro. Ao redor de uma mesa de bar ou numa roda de amigos, os bugreiros relatavam as histórias e aventuras pelos sertões à caça dos índios.

Nunca gravei ou anotei os relatos de João Damásio, apesar de que era uma história interessantíssima para uma reportagem ou artigo.

Meu jornal chama-se „Biguaçu em Foco“ (www.jbfoco.com.br) e Tubarão é uma cidade situada a 247 quilômetros ao sul de Biguaçu. Portanto, não me interessei em publicar uma reportagem só porque meu jornal tinha como foco apenas a cidade de Biguaçu e Tubarão é uma cidade distante, bem fora da minha área de cobertura.

Eu só escrevia reportagens, artigos e matérias apenas de Biguaçu. Que besteira! Que bobagem! Que tolice! História boa não tem limites geográficos! Perdi a oportunidade de ter feito uma reportagem especial, super bem detalhada, quem sabe com inúmeros capítulos, reconstituíndo a história dos últimos bugreiros, segundo as memórias do falecido tio de minha esposa.

Arrependi-me absurdamente. João tinha uma memória realmente muito prodigiosa e contava uma infinidade de detalhes interessantíssimos. Citou o nome dos bugreiros que conheceu, contou até mesmo onde moravam os filhos ou os netos desses. Relatou-me histórias do famoso Martinho Bugreiro.

Não imaginei que um dia, 13 ou 14 anos depois, iria escrever um livro sobre o assunto e que a reportagem que deveria ter escrito na época agora faz falta a esta obra.

Por isso, como jornalista, essa experiência acabou dando-me uma lição: jornalista que é jornalista mesmo anda com máquina digital no bolso 24 horas por dia, inclusive em viagens de descanso.

Entre as histórias relatadas por João Damásio tendo como tema os „bugres“, foi a de uma família desses índios encontrada no sul de Santa Catarina. Li no livro de Silvio Coelho dos Santos que em 1949 foi encontrado pai, mãe e um filho e que os pais morreram de gripe não muito tempo depois desse encontro.

João Damásio Martins (1919-2001). (Foto: Ozias Alves Jr)
Família de xokleng encontrada no interior de Orleans, sul de Santa Catarina, em 1949. (Foto: Acervo Prof. Sílvio Coelho dos Santos)

Quando li isso, lembrei-me. Sim, João Damásio contou essa história. Aliás, ele mesmo foi testemunha ocular desse encontro. Contou-me João que um intérprete foi trazido do Paraná e que o jovem indígena relatou a este tradutor que era o único sobrevivente de uma família de 14 irmãos, todos mortos pelos bugreiros.

Infelizmente João Damásio faleceu em 2001. Se ainda estivesse vivo, iria procurá-lo para pedir que me contasse novamente a história para que eu pudesse ir atrás dos filhos ou netos dos bugreiros que vivem em Tubarão ou nas cidades circunvizinhas.

Infelizmente perdi a oportunidade. Restou-me uma lição: nunca se sabe se, num horário de descanso ou numa ida a um supermercado, não aparece uma boa história a sua frente para registrar. Por isso, é preciso sempre andar com a máquina digital a tiracolo. Eis a lição pessoal que tive.

Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

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