Cinco ou dez anos atrás, escrevi um artigo sugerindo: por que os agricultores de Biguaçu não tentam fabricar queijos diferentes, de maior qualidade e sofisticação?

Na época, mencionei o setor de queijos e laticínios de uma grande rede de supermercados na Grande Florianópolis. Lá eram vendidos queijos suíços, franceses, italianos, i.e, importados em geral. Tinha de tudo e dos mais variados preços. Pensei: por que a agricultura de Biguaçu não poderia fornecer esses queijos? Será que um queijo Gorgonzola fabricado em Biguaçu chegaria a um supermercado da Grande Florianópolis num preço absurdamente mais caro do que um importado da Europa? Ora, se um queijo vem lá da França, atravessa o Oceano Atlântico e é transportado via caminhão não sei quantos milhares de quilômetros até chegar à prateleira de um supermercado da Grande Florianópolis, será que um similiar “Made in Biguaçu”, feito a 20, 30 ou, no máximo, 40 quilômetros de distância, não chegaria mais barato?

Vale lembrar que o queijo artesanal de Biguaçu, se é que existe, é muito modesto. Uma ressalva: não estou falando do Papemborg, que é uma grande empresa com sede em Biguaçu, mas há muito não é mais uma fábrica artesanal. Prestem a atenção: estou falando de queijos sofisticados artesanais fabricados por pequenos agricultores priorizando a sofisticação e não a quantidade.

Por que estou escrevendo sobre isso? É que não faz muito tempo que o Diário Catarinense publicou uma reportagem sobre uma senhora chamada Elisabeth Schober, de Paulo Lopes, município situado ao sul de Palhoça.

A cidadã em questão abriu uma fábrica de queijos artesanais, às margens da BR-101. A empresa chama-se “Queijo com Sotaque”, onde são produzidos, em escala artesanal, 10 tipos de queijos cujas receitas ela trouxe da França, onde esteve na adolescência participando de um intercâmbio em fazendas naquele país.

Ela fabrica queijos tipo camembert, reblochon, brie, grana padano, entre outros. E a fábrica dela já vem fornecendo o produto a chefs de cozinha da Grande Florianópolis.

Qual o segredo? Ela aprendeu, estudou, pesquisou, experimentou, provou, misturou, foi atrás das receitas dos melhores queijos franceses, suíços e italianos. De tanto fuçar o assunto, ela aprendeu a manusear 100 tipos de fermentos para produzir quase que uma infinidade de queijos, um mais diferente e saboroso que o outro. E tudo isso em Paulo Lopes, o município mais POBRE da Grande Florianópolis. A fábrica dessa senhora apaixonada pelo assunto (pelo que se lê na breve matéria, ela tem paixão pelo produto) está gerando empregos numa região onde antes- se ninguém me desmentir- não havia qualquer tradição no assunto.

Por que essa fábrica não poderia estar no interior de Biguaçu? Aliás, o que impede algum agricultor de Biguaçu de pesquisar o assunto, aprender, experimentar e fabricar queijos de receitas francesas, suíças e italianas?

E não adianta achar que a senhora de Paulo Lopes faz queijos sofisticados porque “importa” ingredientes da Europa? Ora, o leite que ela usa não vem de vacas suíças, mas certamente das criadas na Grande Florianópolis ou no estado de Santa Catarina.

Será que o camembert, reblochon, brie e grana padano fabricados “Made in Paulo Lopes” têm o mesmo sabor dos similares da Europa? Pode ser que sim ou não. Digo isso ressaltando, quem sabe, eventuais diferenças de leite, pastagem, clima ou o que seja. Mas isso não importa. No mínimo, devem tão deliciosos quanto, se não for melhor. Quem disse que tudo que vem da Europa é melhor do que o fabricado aqui no Brasil?

Se é possível produzir queijos sofisticados em Paulo Lopes, por que não seria possível o mesmo no interior de Biguaçu, que é bem mais próximo da capital catarinense?

Sei que não é fácil ser inovador e dinâmico e, para gente simples, não é fácil pesquisar e buscar o novo, mas vale lembrar que um agricultor mais curioso faz uma diferença enorme, pois a diferença entre o sucesso e o fracasso não se mede em quilômetros, mas muitas vezes em meros centímetros. Uma ideia nova pode fazer uma diferença enorme e a geografia, muitas vezes, não faz tanta diferença assim.

Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

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