Hoje à tarde (terça, 11/06/2019), entre 14h às 18h, participarei do Iº Encontro de Políticas Linguísticas e Justiça Social, na sala Hassis, do bloco B do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Neste evento organizado pelo Grupo de Políticas Linguísticas Críticas, pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSC e pela professora Cristine Görski, irei lançar o livro “Língua Hunsrück: Introdução à História, Gramática e Cultura do Idioma alemão mais antigo do Brasil”, cuja impressão foi viabilizada com recursos do Edital Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura da FCC (Fundação Catarinense de Cultura), órgão do governo do estado de Santa Catarina.

Farei uma palestra de 20 minutos sobre minha obra e irei distribuí-la ao público presente. Vale lembrar que o livro não pode ser comercializado. Será distribuído gratuitamente já que foi financiado por dinheiro público.

Na minha apresentação rápida sobre minha pesquisa a respeito do alemão hunsrückisch, idioma ainda hoje falado em Biguaçu e Antônio Carlos, irei dar minha definição particular de “Política Linguística”, que, como o próprio nome indica, é a política de Estado (leia-se governos federais, estaduais e municipais) tem com relação a idiomas.

Sem conhecer as definições oficiais dessa disciplina, o conceito que vou dizer sem saber se alguém já falou algo parecido é o seguinte: “Política Linguística é o governo, seja federal, estadual ou municipal, reservar qualquer percentual menor do que 1% de seu orçamento para pagar salários a pessoas que trabalhem o horário comercial, de segunda a sexta, no resgate e documentação de idiomas minoritários existentes na jurisdição do poder pagador”.

O leitor entendeu? Tem dúvidas? Darei um exemplo para explicar como a ideia seria aplicada na prática.

Não vamos muito longe. Vamos para Biguaçu. Aqui no município, além do português, a língua majoritária, falam-se dois idiomas minoritários: um dialeto alemão chamado hunsrückisch e uma língua indígena, o guarani mbyá.

Com mais de 1.700 funcionários na folha de pagamento, a prefeitura de Biguaçu não investe um único centavo para custear pesquisas sobre esses idiomas com o objetivo de lançar manuais de alfabetização nessas línguas, dicionários, entre outras publicações.

O dialeto alemão hunsrückisch é falado há quase 200 anos na região de Biguaçu e NUNCA teve um registro escrito. Nunca foram publicados um dicionário, uma gramática, um manual de ensino do idioma ou uma cartilha de alfabetização nesta língua, entre outros registros.

Meu livro “Língua Hunsrück: Introdução à História, Gramática e Cultura do Idioma alemão mais antigo do Brasil” é o PRIMEIRO a ser lançado com uma gramática do idioma tal como é falado na região. Sim, pela primeira vez em 200 anos de presença na região, o “dialeto” ganha uma gramática impressa.

Sou jornalista autônomo e não disponho de tempo para ficar focado 100% do dia durante um ou dois anos para produzir a biblioteca básica necessária para resgatar a língua antes que o sr. Leonídio Zimmermann, 90, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Biguaçu e o MAIS FLUENTE conhecedor do hunsrückisch, que sempre brinca que nasceu cedo demais, não mais esteja entre nós.

A prefeitura de Biguaçu poderia ter uma POLÍTICA LINGUÍSTICA com o seguinte foco: doravante iria reservar um percentual mínimo, menor do que 1%, para pagar salários a uma pequena equipe para que esta pesquise e redija material necessário para difundir o idioma.

Qual o problema de contratar uma ou duas pessoas pagando salários a elas para que, de segunda a sexta, em horário comercial, possam dedicar-se à pesquisa dos idiomas minoritários?

Ao longo do tempo, essa pequena equipe iria elaborar o dicionário, a gramática, a cartilha de alfabetização, o livro didático de autoaprendizagem, a coletânea de textos e, numa fase posterior, organizar o ensino do idioma em escolas para os interessados.

Quanto custaria isso? Vamos aos números.

Entre 2015 a fevereiro de 2019, a prefeitura de Biguaçu gastou R$ 180 milhões na educação pública municipal. É dinheiro prá chuchu!!!, como se diz na gíria.

Bom! Digamos que seja estabelecido que um percentual de 0,25% seja utilizado para o programa de Política Linguística em Biguaçu. No total, 0,25% de R$ 180 milhões dão R$ 450 mil.

Dividimos esses R$ 450 mil por quatro anos (48 meses) e o resultado é R$ 9.375,00.

Pergunto: não é possível a prefeitura de Biguaçu destinar R$ 9.375,00 de seu orçamento com o objetivo de pagar UM FUNCIONÁRIO com um salário em torno de R$ 4 mil para ele ficar focado apenas na pesquisa do hunsrückisch?

Por que não pagar um funcionário para fazer esse trabalho? Os R$ 9,3 mil mensais vão abalar as finanças da prefeitura municipal de Biguaçu?

Dos R$ 9,3 mil, como dito antes, R$ 4 mil estariam reservados ao salário do servidor sendo que os outros R$ 4 mil estariam reservados para encargos trabalhistas do mesmo, se bem que no serviço público os cálculos são um pouco diferente, mas façamos esse arredondamento. Portanto, R$ 8 mil são reservados para o salário. Sobram R$ 1,3 mil.

Em 12 meses, o dinheiro que vai sobrar estará em torno R$ 15.600,00. Com R$ 9 mil, é possível imprimir um livro de 450 páginas em papel de alta qualidade e uma tiragem de mil exemplares. Se for em papel jornal, certamente o preço diminui para menos da metade.

Trocando em miúdos: com 0,25% do orçamento atual da secretaria de educação de Biguaçu, é possível pagar um pesquisador com um salário razoável e, ainda por cima, ter a verba necessária para publicar anualmente os livros necessários para o resgate do idioma.

Sim, a prefeitura, se resolver inaugurar uma Política Linguística, pagaria um funcionário o ano inteiro para pesquisar o idioma. No final do ano, ele teria de prestar contas de sua pesquisa através da publicação de livros ou na viabilização de outros projetos. Aqui uns exemplos:

 

Ano 01: publicação de dicionário hunsrückisch-português.

Ano 02: publicação do dicionário português-hunsrückisch.

Ano 03: gramática.

Ano 04: manual de alfabetização.

Ano 05: livro de autoaprendizagem do idioma.

Ano 06: produção do CD com a gravação das lições do livro de autoaprendizagem publicado no ano anterior.

Ano 07: coletânia de contos populares.

Ano 08: elaboração do site oficial do projeto para disponibilizar todo o material produzido ao longo dos anos.

Ano 09: promoção do curso de formação de professores bilíngues.

 

E assim vai. Todo o ano há uma meta a ser cumprida. Pode ser a publicação de um livro, a promoção de cursos, uma viagem para negociar intercâmbios, enfim, tudo relacionado na promoção do projeto. Não é possível ter uma meta por ano?

Com a pessoa certa e com esses 0,25% do orçamento (estamos falando de apenas 0,25% do orçamento, não mais do que isso!!!) é possível fazer um trabalho cultural SEM PRECENDENTES, de uma riqueza extraordinária e com potencial imenso para conseguir intercâmbio com a Alemanha, entre outras potencialidades.

É claro que dinheiro oscila. Às vezes, baixa o orçamento, em outras tem inflação, a grana encurta, aparecem despesas inesperadas, mas o que quero repetir é o seguinte: a prefeitura de Biguaçu NÃO VAI FALIR se fizer esse investimento porque não é dinheiro do outro mundo. O dinheiro existe e é só saber administrar bem.

Gente, estamos falando de R$ 9,3 mil por mês, o que dá R$ 450 mil em QUATRO ANOS e tudo isso equivalendo a 0,25% do orçamento total da secretaria de educação de Biguaçu, que gastou R$ 180 milhões entre 2015 ao início de 2019.

É verdade que a prefeitura de Biguaçu gastou R$ 180 milhões na educação municipal ao longo dos últimos quatro anos para que o município figurasse na última colocação do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) entre os 20 municípios da Grande Florianópolis. Não será 0,25% desse volume de recursos que irão inviabilizar a educação de Biguaçu e também espero que não venham com o argumento de que Política Linguística não é investimento em educação!

E por falar em dinheiro, é uma questão do que considera interessante ou não. Não faz muito tempo, questões de meses atrás, o prefeito de Biguaçu, Ramon Wollinger (PSD), queria gastar R$ 1 milhão (faltavam R$ 31 mil para R$ 1 milhão) em aluguel de BANHEIROS QUÍMICOS!!!

Caracas!!! Com esse dinheiro, dentro do limite de R$ 9,3 mil por mês, conforme o exemplo dado anteriormente, seria suficiente para custear OITO ANOS de investimentos em Política Linguística na cidade.

Para Ramon, gastar R$ 1 milhão em aluguel de patentes (detalhe: em apenas um ano) não tem problema algum. Agora para conceber uma inteligente política cultural inédita que tem tudo para render frutos, o prefeito Ramon não tem outra ideia brilhante a não ser pensar em alugar…”patentes químicas”!!! Que côza linda!!!

Encerro fazendo a seguinte pergunta: já imaginaram falar com a Embaixada da Alemanha com o objetivo de negociar bolsas de intercâmbio para estudantes biguaçuenses que moram numa cidade que vem investindo há anos seguidos numa Política Linguística em favor da revitalização de um dialeto alemão e os frutos desse trabalho tem sido a publicação de uma biblioteca sobre o tema???

Espero ter contribuído para visualizarem o potencial.

 

Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

Iº Encontro de Políticas Linguísticas e Justiça Social. (Foto Divulgação)

 

 

Capa Livro Língua Hunsrück- Autor Ozias Alves Jr. (Foto Divulgação)

 

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