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O leitor já ouviu falar de uma língua chamada wolof? Trata-se de um idioma falado no Senegal, na África.

Michael Franke, autor de “Wolof für den Senegal” (vol. 89), da Kauderwelsch, coleção de guias linguísticos de viagem mais popular da Alemanha, comentou no prefácio da obra na página 7: “Eine afrikanische Sprache lernen? Warum eigentlich nicht?” (trad.: aprender uma língua africana? Por que não?).

Essa pergunta feita por um alemão pode ser estendida para qualquer idioma nativo, seja indígena, aborígine ou de qualquer povo minoritário deste planeta.

E esta pergunta está sendo feita em Biguaçu, como ocorreu na última quarta-feira (17/07) quando professores e representantes da secretaria municipal de educação de Biguaçu estiveram na aldeia guarani mbyá de São Miguel, Biguaçu.

O objetivo da visita foi discutir como fazer a inclusão de informações sobre a cultura guarani no currículo das escolas de Biguaçu e, quem sabe, até mesmo frases básicas do mencionado idioma indígena.

O município de Biguaçu não tem aldeias indígenas? Por que nas escolas de Biguaçu (sejam municipais ou estaduais) não há menção ou a apresentação de mais detalhes sobre a história, a cultura e a realidade dos índios guaranis nos livros didáticos destinados aos estudantes biguaçuenses? Por que não existe uma apostila sobre o assunto? Por que não há um curso básico de idioma guarani mbyá sendo oferecido em alguma escola biguaçuense para interessados?

Para resolver essa distorção, está sendo feita essa discussão e o professor Caio de Cápua, pesquisador da religião dos índios guaranis de Biguaçu, foi convidado para a intermediação desse trabalho. O que pode e deve ser feito para modificar esse cenário? Este é o desafio.

 

Visita à aldeia guarani de São Miguel, Biguaçu. (Foto Divulgação)
Visita à aldeia guarani de São Miguel, Biguaçu. (Foto Divulgação)
Professores da rede pública de ensino de Biguaçu visitando a aldeia guarani de Biguaçu. (Foto Divulgação)
Professores da rede pública de ensino de Biguaçu visitando a aldeia guarani de Biguaçu. (Foto Divulgação)
Conversa após o encontro na escola indígena da aldeia guarani de Biguaçu. (Foto Divulgação)
Caio de Cápua foi convidado para ser o intermediator da discussão para a inclusão de cultura indígena nas escolas de Biguaçu. (Foto)

Parabéns ao professor Caio pela dedicação à causa. Confira mais alguns detalhes no seguinte vídeo:

 

MARCO HISTÓRICO NA RELAÇÃO DA ALDEIA GUARANI DE BIGUAÇU COM A SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO!

Posted by Caio Montenegro de Capua on Wednesday, July 17, 2019

 

 

O leitor já teve a oportunidade de assistir ao filme “Diários de Motocicleta” (2004)? Este filme conta a aventura do famoso Che Guevara (1928-1967) que, aos 24 anos de idade, junto com seu amigo da faculdade de medicina, fez uma viagem da Argentina até o Peru numa motocicleta (daí o título da película) no ano de 1952.

Numa das cenas do filme, o jovem Che, que pegou carona num caminhão no interior da Bolívia, escuta dois indígenas conversando no idioma nativo. Che faz um comentário interessantíssimo. Na Argentina, sua terra natal, sabe-se mais sobre as línguas e culturas dos gregos e romanos do que sobre os idiomas e a história dos povos nativos da América do Sul.

A propósito, na Bolívia, entre os inúmeros idiomas nativos, falam-se o quétchua e o aymara. São idiomas milenares, de riquíssima literatura, sem falar da cultura desses povos, um dos quais, o quétchua, herdeiro dos famosos incas.

No Brasil, não há um livro que ensine essas línguas e desconhece-se se há estudos sobre a literatura e a cultura desses povos em português para o público brasileiro.

Eis um pequeno exemplo da distorção que é generalizada na América, salvas raríssimas exceções que realmente são exceções. Aqui valoriza-se mais o europeu e despreza-se o nativo, algumas vezes com racismo, passando do desprezo e indiferença. Eis a verdade.

Pessoalmente tivemos uma experiência a respeito.  Em 2013, o editor deste jornal viajou à aldeia dos índios xokleng em José Boiteux, interior de Santa Catarina, com o objetivo de pesquisar para redigir seu livro “Parlons xokleng”, publicado em 2014 pela editora francesa L´Harmattan.

Um detalhe chamou a atenção do jornalista. Apesar de significativa parte da população de José Boiteux ser indígena, não há um departamento, uma divisão ou uma equipe da prefeitura local que pesquise a língua e cultura xokleng com o objetivo de redigir materiais didáticos para que os alunos das escolas públicas municipais daquela cidade cujos estudantes não são indígenas tenham mais detalhes sobre aquela etnia indígena.

José Boiteux é a terra dos xoklengs, mas nada sobre a cultura e língua desses índios é ensinada nas escolas locais fora as da aldeia indígena naquele município.

As escolas locais oferecem aulas de inglês, idioma estrangeiro de grande prestígio oriundo do outro lado do oceano, mas não há um único curso extracurricular de idioma xokleng, como se os índios locais não existissem na região.

A prefeitura de José Boiteux não destina um pequeno percentual de seu orçamento para pagar alguém para ficar incumbido de redigir, ao longo dos anos, um manual do idioma xokleng, um dicionário, uma gramática, um livro de histórias, material este que se transformaria na biblioteca básica de materiais didáticos a serem utilizados nas escolas municipais daquela cidade como também nas da vizinha Ibirama, em cujo território a reserva xokleng estende-se.

Em Biguaçu, também não é diferente. Aqui os índios são de outra etnia, os guaranis, um povo completamente diferente dos xoklengs, que no passado remoto eram grandes inimigos. As diferenças culturais e linguísticas entre os dois grupos indígenas mencionados estão no mesmo grau de comparação como há entre os portugueses e os russos.

Também aqui em Biguaçu, não há algum investimento público para a produção de manual do idioma guarani mbyá, dicionário, gramática e outros materiais didáticos específicos sobre esse povo que se encontra aqui no município.

Visando combater essa distorção (as escolas locais apresentarem mais informações sobre Europa e EUA e aulas de inglês e nada ou quase absolutamente nada sobre o nativo local), está havendo essa iniciativa de inclusão de conteúdo sobre a história e cultura guarani, nem que seja o mínimo, no currículo escolar geral das escolas de Biguaçu.

E nesse processo, está o professor de Caio de Cápua, um paulista batizado na igreja católica (fazendo jus a sua origem italiana) e que está fazendo o caminho contrário: buscando respostas espirituais na religião dos índios, dos nativos e dos desprezados.

E nessa pesquisa misturada com busca, Caio está encontrando conhecimentos impressionantes que a arrogância da cultura europeia, que se considera superior e acima de tudo e todos, não se permite descobrir.

Nunca é tarde para se resolver uma distorção.

 

 

Ozias Alves Jr (Editor)

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com.

 

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