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Ozias Alves Jr

E-mails: ozias@jbfoco.com.br e reportagemjbfoco@gmail.com

 

A História do último homem que falava o Patuá di Macau como se fosse uma língua viva do cotidiano

 

Recebi a notícia do falecimento do sr. Carlos Coelho, 64, ocorrido na passada sexta, (19/01/2018) em Macau, antiga possessão portuguesa no sul da China (Este texto foi publicado em 24.01.2018). Ele teve um mal súbito no banheiro (“casa de banho” em português de Portugal). Socorrido pelo filho, Carlos foi levado ao hospital, mas faleceu uma hora depois.

Quem foi Carlos Manuel Gracias Coelho? Era considerado o mais fluente falante de um idioma em vias de extinção: o Patuá di Macau, a língua crioula de base portuguesa com influência de diversos outros idiomas, entre os quais o cantonês.

Eu não o conheci pessoalmente. Eu aqui do Brasil e ele no outro lado do mundo, em Macau, mantínhamos contato pelo facebook. Foi através dessa extraordinária tecnologia que encurtou todas as distâncias, algo impensável até pouco tempo atrás (quem tem mais de 40 sabe exatamente do que estou falando) que o entrevistei para meu livro “Parlons Patuá di Macau”, concluído ano passado, mas ainda em fase de revisão para seu lançamento na França.

Cheguei a Carlos por indicação de Rogério Luz, o jornalista da comunidade macaense em São Paulo, aqui no Brasil.

 

PESQUISA

 

Em 2015, viajei a São Paulo ocasião em que conheci pessoal Rogério que mantém o blog Cronicas Macaenses, com notícias e artigos sobre Macau, a famosa cidade que fora por cinco séculos a possessão portuguesa na China. Em 1999, a cidade foi devolvida à soberania chinesa.

Nascido em Macau, Rogério Luz imigrou para o Brasil na década de 1960 onde reside até hoje em São Paulo. No blogue em questão, Rogério reúne uma verdadeira biblioteca especializada de artigos, crônicas, fotos, filmagens, enfim, documentos dos mais diversos sobre a história de Macau e sua gente. O foco de seu blogue é a comunidade falante de português dessa cidade singular que exerceu por séculos o papel de grande entreposto comercial do ocidente com o oriente.

Na viagem de pesquisa, conheci a Casa de Macau, a escritora de peças de teatro cômicas, Mariazinha Carvalho e o casal Manuel e Yolanda Ramos. O objetivo da entrevista foi reunir dados sobre a língua Patuá di Macau, um raro crioulo de base portuguesa hoje falado por mais ou menos apenas 100 pessoas no mundo.

 

Sim, Macau tem 600 mil habitantes, destes apenas 8 mil são falantes de português numa região dominada pelo cantonês, como se chama o chinês do sul daquele país, diferente do mandarim, a língua oficial. Dos oito mil falantes de português na região, há por volta de apenas 100 falantes do crioulo, um idioma em que o português misturou-se com o cantonês, malaio, inglês, entre outras contribuições.

Na pesquisa, eis que cheguei a Carlos Coelho.

 

RESGATE

Aqui não tem o objetivo de contar toda a história do patuá. Aguardo com ansiedade o término da revisão de meu livro e a publicação da obra pela editora L´Harmattan, com sede em Paris, França. Tenho um compromisso com todos os entrevistados. Por isso, peço-lhes desculpas antecipadas pela demora, mas vai sair. Tomara que dê tudo certo.

Mas em rápidas palavras, o patuá, que outrora foi muito falado, foi aos poucos extinguindo-se para chegar hoje a um número tão exíguo de falantes que, reunidos, cabem em apenas uma sala de aula sendo que parte deles vive no Brasil. Portanto, os falantes de patuá na própria cidade de Macau é menor ainda do que 100.

HISTÓRIA

Nascido em 1953, Carlos passou toda sua existência em Macau. Filho de pai português e mãe macaense, Coelho pertencia à comunidade lusófona daquela cidade, isto é, os filhos e netos de portugueses com mulheres orientais. Trata-se de uma comunidade mestiça que adotou o idioma português e mantinha uma vida muito ligada à cultura portuguesa, mesmo a um quase planeta de distância.

Segundo Rogério Luz e a teatróloga Mariazinha Carvalho, da comunidade macaense de São Paulo, Carlos era uma autoridade em patuá, pois “falava fluentemente o dialecto como se fosse a língua do dia-a-dia.”

O patuá é uma língua quase morta, literalmente na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Não é mais uma língua comum nas ruas. Raros a falam (se é que falam). O motivo é simples: os falantes mais fluentes faleceram. Encontrar alguém com quem conversar em crioulo tornou-se raridade tanto na Macau dos dias de hoje como também entre a comunidade de imigrantes macaenses que se estabeleceram em São Paulo.

Carlos era um apaixonado pelo patuá que, para ele, carregava todo o espírito da antiga cidade de Macau, uma “ilha de Português” dentro da China, onde o Ocidente fundiu-se com o Oriente formando uma dialética da região que não é nem Portugal nem a China, mas um novo mundo e uma nova cultura chamada “macaense”.

“OBS: “Macau não é uma ilha, mas uma península”, escreveu um blog que publicou este artigo. Na realidade, quando escrevi “ilha de Português”, estava referindo-me a um “pedaço de Portugal no meio da China”, ou seja, como se fosse uma “ilha de portugueses” num mar de chineses. Esta é a ideia da expressão usada)

 

APRENDIZADO

 

Segundo contou-me Carlos, em nossa entrevista via facebook, o patuá já estava em vias de extinção na década de 1960. O avançar dos anos ao longo das décadas de 1970 e 1980 foi colocando paulatinamente no caixão cada um dos falantes que ainda podiam papear em crioulo com total fluência e com os quais o jovem Carlos, ao contrário do desprezo geral, aperfeiçoava-se no conhecimento da língua.

Sim, Carlos interessou-se pelo idioma que infelizmente sofria preconceito. O patuá era considerado um “português mal falado”. Tanto é que a mãe de Carlos, dª Adolfina Gracias, proibia-o de se expressar nessa língua. Isso estendia-se na escola. Segundo Carlos, os professores ralhavam com os alunos flagrados usando o crioulo alegando que, se continuassem assim, jamais iriam aprender a falar bem o português. Era exatamente o mesmo argumento de sua mãe.

Apesar de ser falante do patuá, a mãe de Carlos só conversava em português com ele e seu irmão.

Carlos teve o primeiro contato com o crioulo com sua avó materna, Maria Cecília Gracias, falecida quando ele era bem jovem. Coelho evitava falar patuá na presença de sua mãe, mas foi aprendendo o idioma porque seus tios Luís Gracias (Tio Lolô) e Maria Gracias da Luz, além de seu primo Tarcísio Gracias da Luz (o Chicho-Gordo) e a tia de sua mãe, Ana Maria Gracias Chan (Chat-Ku ou Auntie Annie), com os quais tinha frequente contato, falavam o citado idioma.

O crioulo nunca foi ensinado nas escolas de Macau. O desprezo não permitia sequer que o idioma aparecesse numa página ou numa coluna nos jornais lusófonos daquela cidade.

Se tivesse um curso, uma escola ou algum grupo de estudos do patuá, Carlos certamente frequentaria, mas não havia. Então, para aperfeiçoar-se no idioma, Coelho passou a procurar as “nhonhas”, ou seja, aquelas senhoras idosas que falavam o idioma fluentemente.

“Quando tinha a oportunidade e quando as ocasiões proporcionavam a oportunidade, eu falava com as poucas senhoras macaenses que ainda viviam. Então para mim era como um grande acontecimento e uma grande festa. Vibrava por dentro e adorava que a conversa nunca mais acabasse. Na conversa utilizava o patuá que aprendera, e ao mesmo tempo aprendia mais termos que já não me lembrava ou que nunca tinha aprendido. Ia assim acrescentando mais palavras ao que já sabia deste dialeto. Adorava ler os livros e artigos em patuá do autor José dos Santos Ferreira (Tio Adé) que tive o prazer de conhecer pessoalmente quando ainda criança e depois já quando era crescido”, contou.

Carlos mencionou José dos Santos Ferreira (1919-1993), o poeta Adé. Trata-se do “Pai do Patuá”. Adé passou a publicar livros escrevendo poesias e crônicas nesse idioma advogando a ideia de que o crioulo é uma língua tão bela quanto o português e que pode ser preservada e cultuada artisticamente, pois contém a “Alma Profunda de Macau”.

Carlos foi influenciado por Adé como também muitos macaenses, que antes viravam o nariz para esse idioma, passaram a ter olhos mais compreensíveis e menos preconceituosos com relação ao crioulo após conhecerem a obra do mencionado poeta.

 

Mas isso não foi suficiente para salvar o idioma. “Triste é saber que com o passar dos tempos esse dialecto aos poucos irá cada vez sendo menos falado”, dizia Coelho.

 

PERMANECENDO

Em dezembro de 1966, Carlos, na época um adolescente de 13 anos, foi testemunha de uma grande onda de imigração de cidadãos macaenses que partiram para o Brasil, Estados Unidos, Canadá e Austrália.

O que provocou essa onda foi tanto a possibilidade de uma invasão militar da China, na época governada pelos comunistas de Mao Tse-Tung (1893-1976) como também a falta de empregos e crise econômica na região.

A família de Carlos permaneceu e Macau aos poucos melhorou e transformou-se numa próspera cidade.

 

DIFUNDINDO O IDIOMA

Na década de 1990, Carlos ingressou no grupo de teatro Doçi Papiaçam di Macau (trad.: “Doce falar de Macau”, o título de um famoso poema de Adé.

Por causa de sua fluência fora do comum, tornou-se ator. Atuou por certo tempo e depois desligou-se.

Para manter a língua, Coelho passou a publicar crônicas em patuá usando a tecnologia da Internet. Se antigamente a difusão dava-se por livros e jornais, Coelho via no facebook a sua “editora”.

E assim Carlos contribuiu para manter viva a língua.

A notícia de seu falecimento deixou-me com pesar no coração. Em primeiro lugar, por ele em vida não ter visto o livro no qual dediquei um importante capítulo para registrar sua história e zelo pelo idioma, além de toda uma sorte de contribuições. Carlos explicou-me detalhes culturais, sociológicos e antropológicos de Macau, cidade que não conheço pessoalmente. Com o livro, queria dar-lhe alegria, sem dizer que seria uma sorte de agradecimento.

Em segundo, por ele se tratar do “Último Moicano”, isto é, parodiando o título do famoso romance de Fenimore Cooper (1789-1851), por ser talvez o último que falava o patuá “como se fosse uma língua do dia-a-dia”.  Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018. Quem sabe, junto com Carlos, foi também a data da morte do “Doçi Papiaçam di Macau” (refiro-me não ao grupo de teatro, mas sim a como o poetá Adé referiu-se ao idioma).

Não existe língua “bonita”, “feia”, “rica” ou “pobre” ou o adjetivo que seja. Todas as línguas expressam a universalidade da vida. O que leva uma língua à riqueza é seus falantes.

Carlos Coelho fez sua parte.

Qui bom conhecê vôs. Que Deus o proteja e que os anjos iluminem seu caminho! Descanse em Paz!

 

Carlos-Coelho_O-Último-Moicano-da-Língua-Patuá-di-Macau Escritos de Carlos Coelho em Patuá di Macau

 

http://baiadalusofonia.blogspot.com/2018/01/macau-carlos-coelho-o-ultimo-moicano-da.html

 

 

Escritos em Patuá di Macau por Carlos Coelho

 

Reflexões a partir do exemplo de Carlos Coelho (1953-2018)

O Brasil que o Brasil não conhece: Rogério Luz, o Cronista de uma Língua, Cultura e um “Estado de Espírito” em extinção

(VÍDEOS) Uma inédita peça de teatro cômico num crioulo português em extinção

 

 

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