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O filósofo Olavo de Carvalho gravou recentemente um vídeo comentando sobre o “flagelo do Analfabetismo Funcional” no Brasil. Observou que “não está brincando” quando chamou a atenção para esse fenômeno: o de tantos brasileiros simplesmente não entenderem o que está escrito e darem-se ao direito de emitir críticas não fundamentadas no que está exatamente publicado nos artigos em si, mas no que eles acham o que deve ter o autor escrito nos mesmos. Pode uma coisa dessas? Não é loucura isso?

Na quarta-feira da semana passada (20/11), publicamos o artigo “Casan promete abastecer Biguaçu com a água POLUÍDA do rio Biguaçu; mas e o Amâncio???”

Do que se tratava? Era a respeito da reunião ocorrida na segunda (18/11) entre o prefeito de Biguaçu, Ramon Wollinger e vereadores com representantes da Casan, ocasião na qual a empresa de abastecimento de água foi questionada com relação aos problemas de falta de abastecimento.

No artigo em questão, reproduzimos uma matéria da assessoria de imprensa da prefeitura de Biguaçu em que informava que a Casan pretende captar água do rio Biguaçu para resolver o problema de abastecimento da cidade.

Depois de reproduzirmos integralmente a matéria, o que nos chamou a atenção foi que, em nenhum momento, o prefeito Ramon Wollinger falou a respeito do manancial do Amâncio.

Para quem ainda não conhece Biguaçu, o Amâncio é uma localidade da zona rural de Biguaçu onde fica uma belíssima cachoeira e onde há um manancial de água que poderia ser explorado para reforçar o abastecimento do município.

Na ocasião, questionamos: “ (…) a Casan pretende captar a água do rio Biguaçu, justamente um rio poluído que recebe todo o esgoto de Antônio Carlos e da zona rural de Biguaçu. E por que não se falou do manancial do Amâncio? E o reservatório desativado da Saudade será usado? Por que o prefeito Ramon, que se encontrava no local, não cobrou o uso da água do Amâncio e do reservatório da Saudade para serem utilizados no abastecimento de Biguaçu?”

Em seguida, registramos para reforçar nosso argumento: “Anos atrás, lemos no Diário Catarinense uma nota do colunista Moacir Pereira a respeito do plano de usar a água do manancial do Amâncio para abastecer o norte da ilha de Santa Catarina. Vale lembrar que a água do Amâncio é de muita qualidade. A questão é: cadê o prefeito Ramon questionando o que será feito da água do Amâncio? Ou vai deixar que a Casan recicle água poluída do rio Biguaçu para abastecer Biguaçu enquanto que água de excelente qualidade do Amâncio seja “reservada” para Florianópolis? O fato é que o prefeito Ramon participou da reunião com a Casan e não fez o óbvio: questionar quando é que a água do Amâncio será utilizada.”

E prosseguimos o raciocínio: “Aliás, o que impede a prefeitura de Biguaçu em realizar um estudo para que outras empresas sejam contratadas para explorar alguns mananciais de água da cidade? A água do Amâncio não pode ser explorada por alguma empresa para abastecer justamente as regiões de Biguaçu onde não há abastecimento pela Casan? A água do reservatório da Saudade não poderia estar abastecendo os bairros Prado e Saudade e esse serviço poderia ser dado a uma empresa particular que vencesse a licitação?

 

CRÍTICA

Caro leitor. O texto não está claro o suficiente? Abusamos de citações do latim e do grego antigo? Há dúvidas quanto a nossa argumentação?

Pois bem. Um leitor chamado Thiago assim manifestou-se: “A água é tratada, ou vocês acham que do rio vai direto pra torneira? Kkkkk. É cada uma. Não dá pra levar a sério esse jornal.”

Está latente que o leitor em questão simplesmente não leu o artigo. Apenas leu o título, mas até mesmo neste último, estava bem claro. O título foi: “Casan promete abastecer Biguaçu com a água POLUÍDA do rio Biguaçu; mas e o Amâncio???”

Não está claro? O que estávamos discutindo é, por que temos de ser abastecidos por um rio POLUÍDO como o Biguaçu, se há o manancial de águas NÃO POLUÍDAS do Amâncio?

Como não temos como colocar todas as informações num simples título, apresentamos uma segunda informação, mas “no avançado do texto”, para fundamentar nosso principal questionamento: a possibilidade da Casan estar “guardando” o Amâncio para abastecer o norte da ilha, através de duto, conforme publicou no Diário Catarinense o jornalista Moacir Pereira, que citamos na ocasião.

Mas o leitor Thiago logo “concluiu”: que o JBFoco acredita piadamente que a Casan pegará a POLUÍDA água do rio Biguaçu e distribuirá diretamente nas torneiras dos biguaçuenses, sem passar por tratamento. Uauuuuuuu!!!! Caramba!!!!

Pois então! Por acaso, foi isso o que escrevemos? Claro que não, mas o cidadão sem ter tido o trabalho de ler ou, se leu, certamente não entendeu, simplesmente “concluiu” algo que não está escrito nem direta nem indiretamente. Ou seja, o cidadão “acha” que escrevemos isso ao invés de fazer a coisa recomendável: ler exatamente o que está escrito e, daí, fazer a análise correta. Ora bolas!!!

 

RESPOSTA

No facebook, respondemos o leitor que, pelo jeito, não tem muito treinamento em interpretação de textos, uma habilidade cada vez mais rara no Brasil.

Ora, se quiser nos criticar, não tem problema algum. Pode dizer o que quiser, mas precisa fundamentar. E isso se faz anotando as frases publicadas e analisando-as. Se sua tese é a de que “achamos” ou “dissemos” que a Casan vai pegar a água POLUÍDA do rio Biguaçu e distribuir diretamente para as torneiras dos biguaçuenses, então apresente algum trecho, alguma linha, algum parágrafo do texto assinado pelo editor do JBFoco que ateste essa tese prá lá de absurda, biruta ou maluca!!!

O que não pode acontecer é o famoso “Samba do Crioulo Doido” (para quem não sabe, trata-se de um antigo samba cuja letra misturou fatos e personagens da história do Brasil. No Brasil hodierno, é capaz de alguém achar que, pelo simples fato de usar a expressão “Samba do Crioulo Doido”, está aí a “prova cristalina” de que somos RACISTAS. Vá duvidar de que, num Brasil tão repleto de gente que simplesmente não sabe interpretar textos, alguém não possa fazer uma acusação dessas?!)

Respondemos esse cidadão com a seguinte finalização: “(…) cidadão, pelo jeito, não consegue ler e entender, o que é lamentável, e ainda dá-se ao direito de dar uma opinião sem embasar-se firmemente nos fatos apresentados. Mas fazer o quê? Não somos culpados pela analfabetismo funcional. Deixa prá lá.

 

RESPOSTA

Thiago respondeu e aqui alguns trechos em destaque: “Eu li a matéria inteira, e não sou analfabeto funcional. (…) Já houve alguma análise das águas do Rio Biguaçu comprovando toda essa poluição que vocês falam? Ou é mais uma “opinião a olho nu” de vocês?

Mas, voltando ao assunto, vocês acham que os mananciais do Rio Cubatão tem água própria pra consumo? Acredito que nenhum rio deve ter.

Essa é a função da CASAN. Tratar a água, torná-la potável e distribuir à população.

Pesquisem antes de falar.”

Bom! Não há mais o que dizer. Desistimos. O Brasil está desse jeito. Raros conseguem fundamentar uma crítica, pois o brasileiro comum não lê, nem tem familiaridade nesse exercício. Que o digam as estatísticas de índice de leitura per capita em comparação a outros países.

Por outro lado, os cidadãos não leem os artigos e criticam-nos veementemente não baseado no que está escrito, mas na sua suposição pessoal do que o autor teria dito, mas não disse, porém a suposição virou a realidade e ponto final.

E em terceiro lugar, a notória precariedade de interpretação de texto. Sim, é uma habilidade ensinada na escola, mas que aqui no Brasil, não está funcionando a contento.

São exercícios de leitura de textos em que os alunos devem responder o questionário, muitas vezes com as seguintes perguntas: “o que o autor defende no parágrafo tal?”, “qual o significado do termo tal?”, “como o autor constrói seu argumento?”, “por que o autor usou o termo tal e qual foi o objetivo?” etc, etc etc.

Por que existe o exercício da interpretação de textos? Para o estudante, o futuro adulto, possa habilitar-se a entender textos, nuances, vocabulário, ritmo, intertextualidades, figuras de linguagem, citações, semântica etc.

Se não souber fazer isso, não tem como avançar nas discussões, nos estudos, nas argumentações ou na leitura de um simples jornal.

E você, caro leitor, não marque bobeira: exige que a escola de seu filho ofereça um número satisfatório de exercícios de leitura e interpretação de texto. Por outro lado, se tiver um tempinho, pesquise na internet e aplique esse exercício em seus filhos. Ajude-os a estarem treinados nesse exercício básico: torná-los habilitados a ler e a entender os textos e afastá-los da triste realidade do analfabetismo funcional.

Esperamos ter contribuído para o debate.

 

 

Ozias Alves Jr (Editor)

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com

 

Jornais em Foco – Segunda-feira (25/11/2019)

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