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A sorte do Patuá di Macau é o reflexo da falta de uma Política Linguística tanto na China como também na maioria esmagadora dos países do mundo

 

Ozias Alves Jr (Jornalista)

E-mail: ozias@jbfoco.com.br e reportagemjbfoco@gmail.com

 

O que poderia acrescentar sobre a morte de Carlos Coelho (1953-2018), o último falante mais fluente da língua Patuá di Macau, ocorrida em 19 de janeiro de 2018?

O leitor brasileiro que está lendo este artigo talvez esteja perguntando-se: quem é Carlos Coelho? Patuá di Macau? O que é isso? Macau? Onde fica?

A morte de Coelho não foi notícia mundial. O fato de sua singularidade (ser o último falante fluente de uma língua em completa via de extinção como o Patuá di Macau) não permitiu pelo menos, a título de “curiosidade” para atender ao público mais culto e curioso, umas singelas “cinco” linhas no noticiário das agências internacionais de notícias. Seu falecimento deu-se no completo anonimato a não ser na pequena comunidade de macaenses de língua portuguesa.

Entre noticiar jogador de futebol analfabeto ou cantor de sertanejo universitário de gosto duvidoso e alta cultura, o noticiário abre portas para os primeiros e às favas o leitor mais culto.

O patuá di Macau é um idioma “crioulo” de base portuguesa falado em Macau, uma cidade situada no sul da China que por cinco séculos fora uma possessão portuguesa no Extremo Oriente. Em 1999, o território formado por uma península acabou sendo devolvido à soberania da China.

Dos 600 mil habitantes da cidade de Macau nos dias de hoje, apenas 8 mil são falantes do português e, desse contingente lusófono, certamente por volta de 100 (isto mesmo, 100) são falantes do patuá di Macau, uma língua híbrida que surgiu da mistura de português pronunciado à la chinesa com vocabulário de outros idiomas tanto europeus com o inglês e o espanhol como também de línguas asiáticas vizinhas como cantonês, o filipino, o hindi, entre outros.

Tratava-se de um idioma que sofria notória discriminação. Era considerado um português “mal falado” que jamais teve espaço nas escolas e na imprensa lusófona local. Para alguns, um dialetão “engraçado” e “esquisito” quando não considerado “um horror”.

 

POLÍTICA LINGUÍSTICA

Tudo resume-se a uma questão de “Linguística Política”. Que é isso? Como o próprio nome indica, trata-se de uma política de estado (nacional, provincial ou local) em que certas línguas são prestigiadas e outras consideradas “inferiores” e “desprezíveis”.

A ausência dessa política explica o fato de que Carlos Coelho não ganhou sequer umas “cinco linhas” no noticiário mundial como também a indiferença dos governos com questões culturais como a documentação de preservação de idiomas e culturas minoritárias.

Tudo bem que o patuá di Macau não fosse ensinado nas escolas (entre tantas matérias, mais uma seria problemático no escasso tempo dos estudantes), mas pelo menos uma página de jornal, um programa de TV, um horário de rádio e uma coleção editorial de livros poderiam ter existido ao longo do século XX para que o patuá pudesse ter um mínimo de espaço de expressão para atender o povo lusófono de Macau que também falava o velho patuá. Afinal de contas, o patuá é a alma e a identidade profunda de Macau, quer queria, quer não.

Conforme contaram-me entrevistados em minha pesquisa para o futuro livro “Parlons patuá di Macau”, tal política nunca existiu. O idioma crioulo sempre viveu no ostracismo. Faltou uma “Política Linguística”, que nada mais é do que ter algum espaço e planejamento. Se o governo de Macau destinasse uns 0,03% ou 0,05% de seu orçamento anual a projetos com o objetivo de financiar comunicação em patuá, isto é, pagar salários de alguns poucos jornalistas para dedicarem-se a produzir material no idioma para jornal, televisão e rádio, isso “abalaria” as finanças da cidade? Creio que não!

Ter uma página ou meia escrita em patuá num jornal diário de língua portuguesa seria um “absurdo”? O leitor lusófono, só porque está “exposto” a um pequeno espaço em patuá no seu jornal diário, iria “desaprender” português? Claro que não!

 

EXEMPLO

Aliás, certa vez ganhei de presente, de um amigo, alguns jornais espanhóis da província chamada País Basco. Trata-se daquele famoso povo basco, cujo nome deu à região.

Pois então! Os jornais locais são publicados em espanhol. Todo basco é falante de espanhol, idioma oficial das escolas e do governo local. No entanto, no jornal local, entre notícias em espanhol, são publicadas algumas em idioma basco. São pequenas notícias no meio do noticiário. Às vezes há uma ou duas páginas inteiras escritas totalmente em basco.

O leitor basco têm acesso, através de seus jornais, a noticiário local, e certamente de suas televisões, a espaços bilingues.

É verdade que no País Basco, os meios de comunicação são bilíngues por obra e iniciativa da sociedade e não do governo local. No entanto, na Macau lusófona, por causa da ausência da sociedade em impulsionar a preservação da língua crioula, poderia ter havido, pelo menos, uma coexistência harmoniosa e proporcional dos dois idiomas. Mas, na realidade, faltou “Política Linguística”. Faltou um “empurrãozinho” das autoridades em dar alguma ajuda financeira com o objetivo de preservar o patuá.

 

IMPORTÂNCIA

Qual a importância dessa língua Patuá? Em primeiro lugar, o lado afetivo. É a expressão mais genuína da identidade local. Em segundo, está um fato científico: as línguas crioulas são para a Linguística uma “preciosidade”, pois oferecem dados importantíssimos que podem ajudar a entender a origem dos idiomas e outros detalhes do fenômeno da linguagem.

Trocando em miúdos: não há língua “rica” ou “pobre”, “melhor” ou “pior”, a que tem de ser preservada e a que se deve desprezar. Tudo é língua. Todo idioma é completo e expressa tudo. O teatro de Shakespeare, por exemplo, pode ser traduzido para o idioma da tribo mais primitiva. O povo até pode viver em situação primitiva, mas não sua linguagem. Portanto, afirmar que uma língua é “inferior” à outra nada mais é a ignorância pura e simples e falta de conhecimentos até elementares da linguística.

Podemos comparar aos vegetais. Toda planta é importante. Quando dizemos que uma planta tal não tem importância econômica alguma, até pode ser, mas um dia algum cientista descobre que aquele vegetal desprezado, de gosto “horroroso”, é um poderoso remédio para a doença tal. Escrevo isso por ter lido recentemente a respeito de uma planta do nordeste brasileiro que “não serve prá nada”. É inclusive tóxica. No entanto, acabaram de descobrir que a planta tem propriedades para transformar-se num remédio para o tratamento do câncer.

Por isso, dito tudo isso, nada se pode desprezar. É possível preservar sem destruir.

 

CARLOS COELHO

Mas neste artigo não queria falar a respeito de Carlos Coelho? Sim, mas foi preciso fazer toda essa introdução para entender a dimensão da vida e exemplo de Carlos.

Em vida, Carlos poderia ter dedicado-se ao estudo de algum dos 10 idiomas mais falados no mundo. Poderia ter estudado português oficial, quem sabe até especializando-se em leitura de manuscritos medievais do idioma. Poderia ter estudado o árabe, o japonês, o híndi, o sânscrito ou até mesmo o inglês, língua esta que, quer queira, quer não, tem grande apelo comercial.

Mas não. Dedicou-se ao estudo do patuá, uma língua que se fosse comparada a gente, seria como preferir o humilde em detrimento do mais rico. Entre um idioma com o qual poderia até mesmo ter ganhos financeiros e uma língua marginalizada, Coelho escolheu a segunda pelo amor que tinha pela mais genuína manifestação pela memória “da Macau di tempo antigo”.

A singularidade de Carlos está no fato de que, não tendo como estudar em livros, escolas nem tendo acesso a emissões de rádio e TV nessa língua, por poucos minutos que fossem diariamente, foi à luta procurando os últimos falantes fluentes do patuá. Na na década de 1960, o idioma já encontrava-se em franca decadência. Brincava-se até que a cada obituário dos jornais era um falante a menos do patuá.

Antes que esses informantes morressem por força da idade, na época ignorados, Carlos teve uma atitude diferente: em nome da preservação antes que desapareça, ele os procurou com o objetivo de pesquisar expressões novas, palavras raras e adquirir a fluência plena do patuá “como se fosse uma língua viva”, como bem escreveu Rogério Luzi, o jornalista da comunidade macaense do Brasil, por força de seu esforço pessoal de aprender e aperfeiçoar-se no idioma.

Coelho talvez tenha sido um caso quase único de alguém que não poupou esforços para resgatar um idioma discriminado, desprestigiado, ignorado, “exótico” e, sem qualquer utilidade comercial.

Carlos não deixou livros infelizmente, mas soube aproveitar as redes sociais para difundir o idioma. Seu livro foi uma série de crônicas em estilo fluente. No futuro, se houver algum trabalho de resgate da língua, que começa a partir de um bom manual, hoje inexistente, certamente os escritos de Carlos darão muitos subsídios de como é o autêntico falar do crioulo macaense.

Se houvesse Política Linguística em Macau, Carlos poderia certamente ter ganho algum dinheiro do governo para dedicar-se à difusão da língua, mas não só em Macau, mas quase no mundo inteiro falta esse tipo de investimento público em cultura.

Pesquiso idiomas minoritários, sobre os quais já publiquei cinco livros a respeito, e esta é uma questão primordial: a falta de visão das autoridades para preservar as línguas e culturas minoritárias.

Não é dinheiro de outro mundo. Pelo contrário. Se bem planejado, dá de fazer muito com pouco. Mas reina a completa incompetência nessa área. Lamentável.

 

EXEMPLO DO POSSÍVEL

Carlos Amaral Freire,  o maior poliglota do Brasil, nascido em Dom Pedrito, Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, dedicou a vida ao estudo de idiomas. Em 2011 ele recebeu um diploma do Guiness como o cidadão que mais traduziu. A razão do prêmio foi seu livro “Babel de Idiomas”, onde traduziu para o português 60 poemas escritos em 60 línguas diferentes.

Freire conheceu a antiga União Soviética e relatou a este autor como os russos resgataram e promoveram seus idiomas minoritários.

No Brasil, por exemplo, os idiomas minoritários literalmente estão entregues à própria sorte. Muitas dessas línguas desprezadas nem têm escrita e não são ensinadas nas escolas. Por consequência, não há incentivo governamental para publicar livros e promover estudos sobre tais idiomas. Se existe alguma coisa, não passa de uma gota no oceano de desprezo sobre o tema.

Na antiga União Soviética (1917-1991), ocorreu o contrário, testemunha o professor Freire. Antes da revolução bolchevique de 1917, uma infinidade de línguas do imenso território russo era ágrafa (sem escrita), entregue à própria sorte e à indiferença.

Nas décadas seguintes, assistiu-se a uma verdadeira revolução cultural impulsionada pelo ambicioso projeto de alfabetização em massa do povo daquele país continental, imenso, com 11 fusos horários diferentes. Idiomas antes ágrafos receberam escrita e passaram a ser ensinados nas escolas, junto com o russo.

O governo soviético investiu na publicação de livros não só no idioma oficial, o russo, mas em todas as outras línguas, inclusive naquelas que até poucas décadas atrás não tinham sequer escrita oficial.

E o movimento não parou por aí, observou o sr. Freire. Muitas dessas comunidades linguísticas ganharam o direito até de cursar universidade nos seus próprios idiomas locais. Já imaginaram os falantes poderem formar-se até na universidade usando suas línguas minoritárias que, uma geração antes, era ágrafa?

O Prof. Freire acrescentou: mais tarde, as comunidades linguísticas ganharam também o direito de terem transmissões radiofônicas e televisivas em seus idiomas. Portanto, não é exagero dizer que isso foi uma grande revolução cultural.

Voltando ao Brasil, seria o mesmo que o governo brasileiro financiasse um grupo de intelectuais para elaborar uma escrita para idiomas ágrafos, depois investisse na publicação de cartilhas e livros escolares e determinasse que a língua fosse ensinada nas escolas, ao mesmo tempo que financiasse a publicação de livros no idioma antes ignorado e entregue à própria sorte. Já imaginaram os falantes dessas línguas antes sem escrita nem reconhecimento passarem a ter acesso a traduções na linguagem minoritária dos clássicos da literatura em geral?

Essa iniciativa evolui com o surgimento de cursos universitários no idioma e o governo brasileiro dando apoio para que as rádios e televisões, sem falar de jornais e revistas, passem a ter programas e seções no idioma outrora ágrafo e desprezado.

Isso é um “sonho”, “viagem”, “delírio”, “utopia” no Brasil de hoje, que sequer consegue alfabetizar a maioria dos seus estudantes, que dirá ter a competência de promover o ensino e o resgate de seus idiomas minoritários.

Mas o fato é que, conforme testemunhou o entrevistado prof Freire, a antiga União Soviética teve essa visão e competência para torná-la realidade. Pode não ter sido na economia, mas na promoção da cultura teve seus méritos.

Se tal façanha se deve ao regime que era comunista, não vem ao caso. O que se quer dizer é que, com vontade e capacidade de seguir objetivos e planejamento, pode-se fazer muita coisa, até salvar idiomas minoritários.

Toda essa discussão encaixa perfeitamente para o patuá di Macau.

Espero ter contribuído para o debate.

 

Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

VÍDEO

Aqui uma homenagem póstuma do IIM Instituto Internacional de Macau (澳門國際研究所) apresentando uma antiga peça em que Carlos Gracias Coelho, o “Néu-Néu”, atuou como ator do “Doçi Papiaçam di Macau”, o grupo de teatro baseado em Macau, China, que difunde o idioma patuá di Macau através do teatro cômico.

Confira o vídeo:

 

Escritos em Patuá di Macau por Carlos Coelho

Carlos Coelho (1953-2018)

Notícia sobre a morte de Carlos Coelho na imprensa de língua portuguesa de Macau, China. (Foto Reprodução)

Carlos Coelho (1953-2018)

 

(VÍDEOS) Uma inédita peça de teatro cômico num crioulo português em extinção

 

 

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