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Ozias Alves Jr

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com

 

A descoberta de uma notícia de jornal de abril de 1930 que registrou a passagem do famoso escritor francês, Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) por Florianópolis, é a prova “mais que definitiva” para afirmar que o autor de “Pequeno Príncipe” fez amizade com certo pescador da ilha, conviveu com ilhéus, adorava caldo de peixe e certas passagens de sua literatura foram inspiradas na Ilha de Santa Catarina???

A passagem de Saint-Exupéry é a grande controvérsia histórica de Santa Catarina nos dias de hoje.

De um lado, está o historiador João Carlos Mosimann, autor do livro “Os Aviadores Franceses: A América do Sul e o Campeche” (2012), em que apresenta farta argumentação alegando que a estada de Saint-Exupéry na ilha de Santa Catarina foi uma verdadeira “Lenda Urbana”. De outro, encontra uma doutora em língua e literatura francesa pela USP (Universidade de São Paulo), Mônica Cristina Corrêa, que defende justamente o contrário: Saint-Exupéry esteve sim em Florianópolis, fez amizade com um pescador da praia do Campeche chamado Rafael Manoel Inácio, conhecido pelo apelido de “Déca”, falecido em 1993.

Por trás dessa história, está o fator econômico. Comprovar que Saint-Exupéry esteve sim em Florianópolis e que teve grande interação com o povo local rende toda sorte de intercâmbios e patrocínios do Ministério da Cultura francês. Saint-Exupéry “precisa” ter uma convivência em Florianópolis para que o dinheiro francês venha para projetos memorialísticos sobre o famoso escritor na capital catarinense. Portanto, dentro desse cenário, o historiador João Carlos Mosimann virou um verdadeiro “desmancha prazeres”.

Para “piorar”, Mosimann é um “Cachorro Farejador”, termo não ofensivo. Pelo contrário. É um elogio. Ele, um dos maiores historiadores da historiografia catarinense, é intelectual que “fareja” fundo nas pesquisas. Querer refutá-lo não é tarefa das mais fáceis.

 

Notícias do Dia, Fpolis, sábado e domingo, 08 e 09 de junho de 2019. Pág. 4

 

Jornal de 1930 com a notícia sobre a passagem de Saint-Exupéry por Florianópolis. (Foto Reprodução)

 

Recorte do jornal de 1930 em que informa sobre a passagem por Saint-Exupéry por Florianópolis. (Foto Reprodução)

 

Editorial do Notícias do Dia, Fpolis, sábado e domingo, 08 e 09 de junho de 2019. Pág. 10. (Foto Reprodução)

 

REGISTRO DE JORNAL

Não havia algum registro DIRETO afirmando que Saint-Exupéry realmente esteve em Florianópolis. Em seus livros, não havia informações diretas a respeito. Se era tão amigo do pescador Déca, por que nunca se referiu a ele em seus livros?

É verdade que não se podia descartar que ele tivesse pisado em Florianópolis porque em seu trabalho como piloto do correio postal na década de 1920 tinha de fazer escala na Ilha de Santa Catarina na rota entre o Rio de Janeiro até Buenos Aires, Argentina.

Um registro sobre a passagem de Saint-Exupéry por Florianópolis foi finalmente encontrado. Está na edição de abril de 1930 do jornal Notícia.

O registro foi o seguinte: “TEMPORAL EM FLORIANÓPOLIS- (…) o piloto SAINT-EXUPERY levantou voo na esperança de ainda poder alcançar hoje o Campo dos Afonsos, mas teve de regressar porque o tempo continuava ameaçador, sendo por isso obrigado a passar a noite aqui (em Florianópolis) para levantar vôo amanhã cedo e chegar ao Rio por volta das 11 horas”.

A professora de literatura francesa, Mônica Corrêa, comentou: “Ele (Saint-Exupéry) abastecia o avião, pegava as encomendas do correio e ia embora. Quando não dava para ir devido às más condições do tempo, ficava, tomava um café, conversava com as famílias locais”.

 

JORNAL NOTÍCIAS DO DIA

A reportagem sobre essa “descoberta” da passagem de Saint-Exupéry por Florianópolis foi noticiada pelo jornal Notícias do Dia, de Florianópolis, em sua edição de fim de semana de 8 e 9 de junho do ano passado (sábado e domingo).

Chamou a atenção como o jornal Notícias do Dia tratou a descoberta dessa notícia de 1930 a começar pelo título da reportagem especial: “Documentos COMPROVAM que Exupéry esteve na Ilha”.

A autora da matéria, Andréa da Luz, assim iniciou o texto: “De relatos orais a pesquisas acadêmicas, a passagem e estadia do piloto e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry pela ilha de Santa Catarina FINALMENTE ESTÁ COMPROVADA. Mesmo com muitos indícios, a permanência de Saint-Exupéry foi contestada durante anos, justamente porque não havia provas documentais.”

E o jornal Notícias do Dia dedicou o editorial daquela edição a este assunto. O título foi “A História Comprovada” e começou assim: ‘A passagem e permanência do piloto-aviador francês Antoine de Saint-Exupéry na Ilha de Santa Catarina, nos anos 1920 e 1930, um fato histórico importante de Florianópolis, ENFIM ESTÁ COMPROVADO. SEMPRE PAIRAVAM DÚVIDAS POR PARTE DE ALGUMAS PESSOAS sobre o autor de “O Pequeno Príncipe” ter tido algum tipo de relação com a nossa Ilha. Faltavam documentos e fotografias que comprovassem o fato. Durante esta semana, a polêmica chegou ao fim”.

 

COMPROVADO?

Nada contra o Notícias do Dia tomar partido dessa controvérsia, mas chama a atenção o fato de que, se ninguém provar o contrário, o jornal nunca estampou duas ou três páginas para apresentar toda a rica argumentação do historiador João Carlos Mosimann levantada sobre esse assunto.

Mosimann observa que nunca negou que Saint-Exupéry tenha passado por Florianópolis. Certamente ele passou pela cidade numa escala de voos.

Segundo o historiador, uma coisa é ter tido uma escala na cidade, outra é ter uma longa amizade com um pescador chamado Déca, cujos detalhes da história simplesmente “não se encaixam”.

 

ARGUMENTOS

O assunto dá em si um volumoso livro. Aqui não tem espaço suficiente para detalhar o que levantou o historiador Mosimann, mas tentaremos fazer um resumo. Confiram:

  • Em 27 de março de 1991, a revista Veja publicou reportagem intitulada “Escala Campeche- Histórias do piloto-escritor Saint-Exupéry na Ilha” e assinada pela jornalista Daisi Vogel. Esta entrevistou Déca, vivo na época, afirmando que o referido Zé Perri, o francês que o pescador afirmava ter encontrado-se “15 vezes” entre 1926 a 1939 no Campeche, era o famoso escritor Saint-Exupéry. O problema foi que a revista estampou a foto de Saint-Exupéry e não informou se a mostrou ao pescador Déca, perguntando-lhe se realmente era o “Zé Perri”.
  • A jornalista Daisi Vogel aparentemente não fez uma pesquisa básica sobre a história de Saint-Exupéry, segundo Mosimann. Na reportagem, ela escreveu: “Saint-Exupéry acompanhou de perto (…) o nascimento da maioria de seus 14 filhos”. Ora, conforme Mosimann, como é que Saint-Exupéry iria “acompanhar” o nascimento dos filhos de Déca se ele retornou definitivamente à França em janeiro de 1931 e nunca mais voltou à América do Sul? Vale lembrar que o primeiro filho do pescador citado nasceu em março de 1932. Segundo Mosimann, Saint-Exupéry viveu na América do Sul entre 12 de outubro de 1929 a 31 de janeiro de 1931, ou seja, durante um ano e quatro meses, e depois retornou à França de navio e nunca mais retornou à América do Sul.
  • Lucas Boiteux, comandante do Centro de Aviação Naval de Florianópolis entre 1927 a 1929, foi autor de vários livros sobre a história catarinense e acompanhou a implantação da base de operações do correio aéreo da empresa Aéropostale no Campeche, em Florianópolis. “ (…) faz referências a Paul Vachet (piloto da Aéropostale) em seus escritos”, observa Mosimann. Boiteux faleceu em 1966, 22 anos depois da morte de Saint-Exupéry, ou seja, tempo mais que suficiente para conhecer a fama do escritor, que se tornou famoso pelo livro “O Pequeno Príncipe”, que virou “Best-Seller” mundial, traduzido para 250 idiomas e dialetos, um feito impressionante. A grande questão é: se Saint-Exupéry tivesse pousado no Campeche, feito amizade com pescadores locais, frequentado bailes do Lira Tênis Clube, tomado cafezinho no centro de Florianópolis, como é que um historiador tão meticuloso e informado como Lucas Boiteux nunca teria sabido para registrar em seus escritos?
  • Mosimann descobriu que existia um mecânico chamado “Joseph Perrier”, que tudo indica era chamado de “Pierry” e daí a pronuncia de “Zé Perri”. Perrier ingressou na empresa francesa de correio aéreo na década de 1920 como mecânico e trabalhou até 1939, fim das atividades da empresa no Brasil, coincidentemente o ano em que Déca afirmou ter sido o último de seu contato com o amigo francês.
  • João Carlos Mosimann descobriu que Jeanne Jacquinot, esposa do chefe do aeródromo do Campeche e residente na região durante 15 anos, nunca referiu-se, em suas correspondências, ao piloto Antoine de Saint-Exupéry em Florianópolis. Tendo transformado-se num escritor famosíssimo, por que a sra. Jacquinot simplesmente não iria mencionar Saint-Exupéry em suas cartas?

Há mais detalhes descobertos por Mosimann, mas o espaço acabou.

A questão é: como é que o jornal Notícias do Dia não faz uma reportagem de duas ou três páginas apresentando toda a documentação levantada pelo historiador Mosimann? Por que simplesmente ignorar os estudos desse historiador?

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