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As escolas são inúteis e deveriam ser abolidas.

Calma. Não sou eu quem está defendendo tamanha mega ideia radical, mas sim um certo padre Ivan Illich (1926-2002), autor de um livro prá lá de polêmico intitulado “Sociedade sem Escolas” (1971), hoje esquecido, mas que abre uma discussão importante que não se pode deixar de lado.

A ideia basilar de Illich é que a educação só se faz através da seguinte premissa: as pessoas só aprendem aquilo que desejam aprender. Não adianta insistir em impor aos jovens educação sobre assuntos que não lhes interessam. Seria o mesmo que forçar a comer quando não se tem fome alguma.

Afinal de contas, o que se deve fazer para melhorar a educação e sair desse dilema? Por qual caminho seguir?

Para começar, a grande discussão da obra em questão é: qual é a verdadeira educação? Por que quanto mais se investe em “educação”, piores têm sido os resultados na média?

Para entendermos essa discussão, temos de começar através do tema “Trivium” e “Quatrivium”. Afinal de contas, do que se trata?

Trata-se da educação na Idade Média baseada em sete disciplinas divididas em dois ramos conhecidos como o “Trivium” e o “Quatrivium”.

Que significam os termos? Trivium vem significa “três vias” em latim. Já quatrivium é traduzido como “quatro vias”.

 

TRIVIUM

Antes da Idade Média, não havia escolas como conhecemos hoje. Estas só foram constituídas no final do primeiro milênio e eram basicamente divididas em sete disciplinas básicas.

O início era o “Trivium”, o ensino de gramática, dialética (mais tarde passou a ser chamada de “lógica”) e retórica.

O ensino não era obrigatório. Para ingressar, bastava literalmente aparecer na escola, geralmente situada numa igreja ou nos anexos da universidade.

A idade mínima de ingresso era os 14 anos. Por quê? A justificativa era a de que necessitava-se maior amadurecimento do estudante.

Como assim “artes liberais”? É preciso entender os termos. Na Idade Média, quando se falava de “artes”, não é no mesmo sentido de hoje, de “artes plásticas”. Naquela época, significava apenas o sentido original do latim, “maneira de ser ou de agir” ou “conhecimento técnico” de algo. O “liberais” vem de “libera”, que significa “liberdade”. Seria algo como uma educação que fortalecesse a “liberdade” do indivíduo capacitando-o com habilidades a serem incorporadas.

Qual o objetivo de se ensinar “gramática”, “lógica” e “retórica”, chamadas de “artes liberais”?

A ideia era ensinar três habilidades básicas da mente humana- falar bem, dizer as coisas com coerência entre suas partes (ou melhor, seguindo as regras da lógica) e da melhor e mais convincente maneira possível (retórica).

 

QUATRIVIUM

Após o “Trivium”, vinha o “Quatrivium”, que são as disciplinas aritmética, música (a aplicação dessa primeira), geometria e astronomia (a aplicação desta última citada).

Enfim, assim completava-se a educação básica de um indivíduo na Idade Média: aprendia as TRÊS (trivium) artes da Mente e depois as QUATRO (quatrivium) artes das “coisas” que estavam ao redor das pessoas.

 

QUAL OBJETIVO?

Qual o objetivo desse tipo de educação? A priori, nenhum. Não destinava a dar direito a emprego nem vantagem financeira. Não tinha vantagem utilitária alguma.

O único objetivo era ajudar o educando que passou por esse “treinamento” a ser uma pessoa melhor no sentido de que fala, pensa e consegue expor suas ideias da melhor maneira possível, o que, na vida, pode ser uma grande vantagem no sentido de saber viver melhor diante dos obstáculos que poderá enfrentar ao longo de sua existência.

 

INCONCEBÍVEL NOS DIAS DE HOJE

Essa educação medieval simplesmente é inconcebível nos dias de hoje. Por que as pessoas hoje frequentam escolas e universidades? Por um objetivo utilitário: conquistar um certificado ou um diploma com o qual usará para candidatar-se a um emprego. Frequenta-se o ensino médio ou universitário com o propósito de ter vantagens financeiras através de empregos.

Mas de onde vem isso? Como abandonou-se o antigo trivium e quatrivium para adotar o modelo de escola e universidade dos dias de hoje?

 

ESCOLA MODERNA

O modelo de hoje deve-se a um pensador chamado Jan Amos Komenský (1592-1670), conhecido mais por Iohannes Amos Comenius, a tradução “latinizada” de seu sobrenome tcheco.

Ele concebeu a ideia da “Escola Universal”, ou seja, que todas as crianças fossem educadas através de uma escola homogeneizadora.

Conforme dito antes, nas escolas medievais, não havia a obrigação compulsória para as crianças (ou melhor, adolescentes a partir dos 14 anos) de frequentá-las. O ingresso dava-se pela vontade expressa do estudante.

Para Comenius, a ideia era universalizar a educação e dentro de um padrão de qualidade para todos, sem exceções.

Na realidade, a ideia era boa e bem intencionada, mas, na prática, “destruiu a educação”, como bem lembrou o pensador brasileiro, José Monir Nasser, falecido em 2013.

Como assim “destruiu a educação?”

 

O “DRAMA”

Nasser resumiu o “drama” da seguinte maneira: o estado “rapta” as crianças obrigando-as a frequentar as escolas durante cinco horas por dia de segunda a sexta durante oito meses por ano que, por sua vez, serão oito anos neste ritmo e, para isso, gasta, no caso do Brasil, ¼ de todo o orçamento de impostos do país.

Qual o resultado desse “rapto”? A esmagadora maioria dos estudantes saem das escolas brasileiras com grandes deficiências em leitura e escrita do português, nem estamos falando do escândalo da matemática. Mesmo tendo sido obrigada a frequentar oito anos, a maioria das crianças são até mesmo classificadas de “analfabetas funcionais”, ou seja, têm sérias dificuldades de entendimento na leitura.

Mas como isso é possível? Se o Brasil gasta inclusive mais do que a Coreia do Sul em educação, como é que os resultados da educação são pífios com relação à maioria da população?

Essa é a grande discussão do padre Ivan Illich, citado no início deste artigo. Para este autor, a educação tem de ser “voluntária”, isto é, tem de partir da vontade do aluno e não forçar alguém a frequentar a escola para “estudar” (se o verbo for apropriado) algo pelo qual não se interessa nem sabe para que serve ou nem lhe foi explicado ou convencido sobre qual sua utilidade prática.

 

DISCUSSÃO

A educação não pode ser reduzida a um ato masoquista com o objetivo de conquistar um pedaço de papel chamado “diploma” para apresentar durante o pedido de emprego. Para Monir, a educação tem de ser para a vida, como era nos tempos medievais através do “trivium” e “quatrivium”. Se o trivium e quatrivium ajudavam alguém a conquistar um bom emprego, ótimo, mas este não era o objetivo.

O fato inegável é que a educação moderna não está formando indivíduos bem formados, mais cultos, que saibam expressar bem tanto por meio da escrita como também pela exposição oral lógica de ideias. É impressionante como, quanto mais se investe em escolas e universidades, maior tem sido a formação de gerações com sérias deficiências de conhecimento, estéreis em produção intelectual em geral, quando não simplesmente “burras” e limitadas, com honrosas exceções.

Como resolver o problema? Retornar ao antigo “Trivim” ou simplesmente abolir as escolas, como defendia o padre Ivan Illich?

Eis a questão que não é fácil responder. Se a resposta for realmente a proposta de Illich, certamente não será nem aceita para discussão, pois abolir as escolas transformando-as radicalmente sob novas bases mexe com orçamentos milionários e interesses particulares que vivem do atual modelo educacional.

Mas a discussão está aí.

 

Ozias Alves Jr

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com

 

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