Na manhã de quinta-feira (17/08), houve o acidente com um operário chamado Paulo, 37, dentro do CTG (Centro de Tradições Gaúchas) Sela de Prata, no bairro Fundos, Biguaçu. O nome completo ainda é desconhecido. A reportagem conseguiu alguns números de celulares de familiares da vítima, mas nenhuma das chamadas foi atendida. As informações que aqui constam vieram de um casal de testemunhas do ocorrido.

Paulo encontrava-se em cima de uma torre onde será instalado um transformador. Ele encostou a cabeça num fio de alta tensão. Desmaiou, entrou em convulsão e estourou as extremidades do pé esquerdo.

Esse acidente ocorreu exatamente às 10h40. Nesse momento, na rua Júlio Teodoro Martins, passava a cabeleira Rosiane Francisco, 35. Ela mora no condomínio Residencial Portal das Cores, situado ao lado do CTG.

Rosiane encontrava-se com sua filha Maria Fernanda Francisco da Anunciação, 14, e com seu esposo, o mecânico Vítor da Cunha, 32.

 

PRESSENTIMENTO

Maria Fernanda estuda na Escola Emérita Duarte Silva e Souza, situada no bairro Fundos, a uns 300 metros do CTG Sela de Prata.

“Naquela manhã, eu recebi telefonema da escola. Disseram que minha filha estava com crise de ansiedade, coisa que ela nunca tinha sentido. Fiquei assustada porque isso nunca havia ocorrido. Então eu e meu esposo fomos buscar nossa filha. Quando lá chegamos, ela chorava muito e dizia repetindo: “preciso ir para casa”. E eu fiquei muito assustada. “Que é isso?”. Achei que tinha sido um problema na escola”, conta Rosiane.

“Minha filha alegou que não teve problema algum. Ninguém sabia a razão da crise de choro dela. Então fomos embora. Viemos eu, meu esposo e minha filha caminhando. E quando passávamos pelo CTG, vimos a torre e o operário lá em cima. O que me chamou a atenção foi que ele estava sem qualquer tipo de equipamento de segurança”, conta Rosi.

 

O ACIDENTE

“A minha cabeça estava a mil. Minha filha com crise com choro. Ela dizia que ficou em pânico na escola porque pressentiu alguma coisa que iria acontecer e, por isso, precisava ir para casa. Então, a coisa aconteceu na nossa frente. Vimos o operário Paulo, que vem a ser o pai do amiguinho dos meus filhos João e Eduardo (respectivamente com 10 e 11 anos). Então o horror aconteceu”, relata Rosi.

“Eu vi a cena. Paulo deu um passo para trás em cima da torre.  Ele encostou a lateral da cabeça no fio. Ele estava de costas. E a gente viu o estouro e o clarão. Eu saí correndo desesperadamente. Voltei e gritei: chamem o SAMU. E nesse mesmo instante, chegou o encarregado da obra. Subiu com uma escada a torre e espiou alegando que o Paulo estava bem e não tinha acontecido nada. Porém a Maria Fernanda entrou em crise em choro, me segurou forte e disse: “mãe, ele não está bem. Chamem o SAMU”, conta.

 

EMERGÊNCIA

“Eu puxei meu celular e liguei para o SAMU (número 192). Essa ligação foi às 10h45. Quando o encarregado viu que nós chamamos o SAMU, aí ele subiu e viu que o operário estava entrando em convulsão. Iria cair a qualquer momento lá de cima daquela torre. Então esse encarregado e um funcionário ficaram segurando o Paulo até o SAMU chegar”, conta Vítor Cunha, esposo de Rosi, presente naquele momento.

“O SAMU chegou bem rápido. Foram cinco minutos depois do acidente. Vieram duas ambulâncias. Porém os socorristas não subiram a torre e não prestaram o socorro porque estavam com medo do fio. A rede estava energizada. Então nós, naquele desespero e o homem em convulsão e gritando desesperado de dor por causa do pé estourado, ligamos para a Celesc pedir o desligamento da rede. Essa ligação foi às 10h55. A Celesc chegou em 10 minutos e desligou a rede toda. O bairro ficou sem luz”, conta Rosi.

 

UPA

“Quando o Celesc chegou, veio também o caminhão do corpo de bombeiros. Em resumo, foi uma improvisação total. O homem foi retirado sabe-se lá como dentro de baú usado pelos operários da Celesc quando mexem na rede. Era a “caixa elevatória”. O problema foi que o homem poderia ter caído e acontecido mais um acidente dentro desse acidente horroroso. Então, aí depois de não sei quanto tempo, é que os socorristas do SAMU vieram com uma maca, colocaram em cima e, ao invés de ir direto para o hospital mais próximo, largaram na UPA de Biguaçu. O homem estava numa situação crítica. Os familiares protestaram. Aliás, dois filhos dele, uma menina e um menino, que estudam no Emérita, viram o pai e choraram muito. O menino dizia que estava com medo de que seu pai fosse morrer”, conta Rosi.

Depois da UPA, Paulo foi levado finalmente para o Hospital Regional. Desesperada, a família decidiu ela mesma levar de carro até o hospital Regional de São José. Alegaram que a UPA não tinha suporte para atender um caso tão grave.

 

CONSEQUÊNCIAS

O acidente foi muito grave. Segundo os médicos informaram aos familiares do operário, Paulo terá de amputar todos os dedos do pé. Ainda não se sabe quais serão as sequelas neurológicas. Paulo levou uma descarga de 13.800 volts, conforme relatou um funcionário da CELESC.

Diante disso, a família está levando dados sobre o acidente. Em primeiro lugar, vários populares gravaram vídeos. Esse material servirá como prova no processo trabalhista que a família pretende mover. Quem tiver vídeos, entre em contato com Rosi pelo fone/whattsapp 9-8418-1549.

 

SEGURANÇA DO TRABALHO

“O caso é grave. Em primeiro lugar, onde está a fiscalização do CREA em Biguaçu, que liberou uma obra debaixo de uma rede de alta tensão? Em segundo lugar, cadê os equipamentos de segurança dos operários da obra no CTG? Os equipamentos de que falo são o capacete, a bota, o cinto e a luva. Paulo estava sem bota de borracha, sem capacete e sem cinto. Se ele estivesse com o capacete e a bota, não teria acontecido o acidente porque a borracha isola a eletricidade. O Paulo estava de chinelo. Como é que se permitiram uma coisa dessas?”, observa Rosi.

“Eu já fui dona de empreiteira de mão de obra de construção civil. Eu sei do que estou falando. Os equipamentos são essenciais. Aliás, quando trabalhava nisso, eu exigia dos meus funcionários esses equipamentos. Eu fornecia. Eu tinha essa responsabilidade. Depois do que eu e minha família vimos, uma cena de horror, gostaria de que o caso do Paulo não ficasse no esquecimento. As autoridades responsáveis têm de investigar e que isso sirva de alerta para os órgãos de fiscalização aqui em Biguaçu. Temos de evitar novos acidentes. É muito triste acontecer mortes. As famílias sofrem muito. Por isso, nosso alerta”, finaliza Rosi.

 

PREMONIÇÃO

“Depois do ocorrido, minha filha Maria Fernanda, mais calma, olhou para mim e disse: “viu, mãe, como eu precisava voltar para casa? Era para nós ajudarmos esse senhor”, disse Rosi às lágrimas.

“Poderia ser meu pai. Seria muito triste”, disse Maria Fernanda para sua mãe.

“Somos evangélicos e acreditamos que Deus tem um propósito para tudo. Quem sabe esse episódio seja algo para as pessoas repensarem nos valores que precisamos ter a cultura da prevenção de acidentes”, conclui Rosi.