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Wendelino Meurer, historiador da comunidade de Vila 12, interior de Antônio Carlos, faleceu hoje (terça, 19/09/2017) aos 100 anos de idade (completaria 101 em dezembro deste ano).

Em dezembro de 2008, Wendelino Meurer, na época com 92 anos, publicou seu livro “Antônio Carlos: Sua Terra e sua Gente”.
Mesmo nascido e criado-se no meio rural, afastado de tudo, e tendo estudado apenas até a quarta-série primária, Wendelino iniciou em 1966 pesquisas em história e genealogia de Antônio Carlos. Seus estudos transformaram-se em volumoso manuscrito e Wendelino nunca tivera o prazer de tê-los publicados em livro.

O JBFoco fez uma campanha junto ao prefeito de Antônio Carlos da época para que o livro em questão fosse publicado. Na ocasião, encerramos a reportagem com as seguintes palavras: “ (…) seria uma justa homenagem a este homem se a prefeitura de Antônio Carlos pudesse patrocinar a publicação daquele trabalho em livro mesmo para constar como marco do aniversário de 41 anos de emancipação política do município, a ser comemorado em novembro deste ano (2004).”

REPORTAGEM PUBLICADA SOBRE WENDELINO MEURER EM 26.05.2004

JBFoco, quarta-feira, 26 de maio de 2004

Wendelino Meurer: um historiador que ultrapassou obstáculos

Num morro onde literalmente o diabo perdeu as botas, no interior de Vila 12, vilarejo perdido no final do município de Antônio Carlos, mora um agricultor que, mesmo tendo a quarta-série primária e nenhum acesso a bibliotecas ou vida cultural, tornou-se surpreendemente um historiador de qualidade. 
Ele se chama Wendelino Meurer, 88 anos. Se tivesse nascido numa capital, Rio de Janeiro ou Berlim, ele certamente teria transformado-se num professor universitário com inúmeros livros publicados.
No entanto, o destino reservou a Wendelino nascer literalmente numa região chamada “Morro Alto”, um lugar perdido no “meio do mato” do interior de Antônio Carlos, onde não há livros, bibliotecas, vida cultura, que lá resume-se à “cultura” da roça.
Apesar de tudo, Wendelino nasceu com o talento nato de pesquisador. Trabalhando duro na roça durante o dia, Meurer lia e estudava à noite. Foram décadas a fio lendo à luz de lamparina (energia elétrica veio há poucas décadas em Vila 12).
Meurer nasceu em 4 de dezembro de 1916 em Vila 12. Naquela época, escola não existia. Estrada literalmente era “caminho de cobra”, que o povo aproveitava para andar por cima.
A “escolinha” era um professor particular contratado pelos agricultores. As aulas eram dadas em alemão. Essas “escolas”, que funcionavam em colônias de descendentes de alemães, foram fechadas pelo governo brasileiro um pouco antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Estudou até a quarta-série primária, o máximo que era dado na escolhinha da região de Vila 12 na década de 1920 e início de 1930.
Depois da escola, a vida de Wendelino Meurer seguiu décadas a fio de muito trabalho na roça.
“Meu pai era diferente. Quando ele chegava em casa, à noite, depois de um dia inteiro na lavoura, ele tomava banho, jantava e depois ia para o quarto ler. Ele lia muito”, relata o filho de Wendelino, Pascácio Meurer, 33 anos.
Wendelino tornou-se um leitor ávido, apesar de na região circular poucos livros, uns até acabaram lidos duas ou três vezes, enquanto não aparecesse outro.

Agricultor começou a pesquisar em 1966

Era 1966. Wendelino tinha 50 anos de idade. Foi por essa época que ele começou a pesquisar sobre a história de Vila 12.
Passou a entrevistar idosos, coletar informações em cemitérios, cartórios de Antônio Carlos e São Pedro de Alcântara. Wendelino anotava o que descobria num caderninho. Passou a corresponder-se com intelectuais tanto do Brasil como da Alemanha.
Os correios não chegam a sua casa, que fica em “Morro Alto”, de onde se tem uma vista panorâmica de Vila 12. As cartas são entregues na casa de um de seus 20 filhos em Antônio Carlos e, de lá, despachada para o pai em alguma visita dos filhos.
Além de história, Wendelino estudou a genealogia das famílias da região. Levantou tantos dados que se tornaram referências a historiadores regionais. Era muito consultado pelo falecido padre Raulino Reitz, autor de “Alto Biguaçu- 1988”, Aderbal Philippi, que escreveu “São Pedro de Alcântara- A primeira colônia alemã de Santa Catarina” (1995) e por Geraldo Pauli, atual prefeito de Antônio Carlos, autor de uma monografia sobre os costumes antigos do município, estudo este que está publicado no livro de Reitz.
Apesar de só ter a quarta-série primária, Wendelino escreve bem e sua pesquisa tem qualidade metodológica.
Em 1994, seus filhos compraram para ele uma máquina de escrever para que abandonasse os “caderninhos”.
A máquina de escrever foi uma revolução para seu trabalho. Passou a digitar seus manuscritos e organizou o material.
Wendelino escreveu um livro intitulado “A Colonização de Alto Rachadel”, hoje dividido em dois volumes. A obra não saiu em forma de livro, mas de apostila xerocada. Outro trabalho feito por Wendelino foi a tradução do livo “Die Geschichte von Jesus Kind” (A História de Jesus Criança), publicado na Alemanha por Wilhelm Straub em 1932.
Meurer traduziu o livro em português em 2001, datilografou a tradução e fez cópias de seu trabalho em xérox para dar aos seus filhos e amigos.
Viúvo do primeiro casamento, Wendelino vive com sua atual esposa Catarina Philippi, 72 anos, ao lado de seu filho Pascácio Meurer, 33, sua nora Rosa Neide Schetz, 32, e seus netos Thayse, 10, e Leandro, 7.
Ele está muito satisfeito de ter sua pesquisa “A Colonização de Alto Rachadel”, publicada em forma de apostila xerocada. No entanto, seria uma justa homenagem a este homem se a prefeitura de Antônio Carlos pudesse patrocinar a publicação daquele trabalho em livro mesmo para constar como marco do aniversário de 41 anos de emancipação política do município, a ser comemorado em novembro deste ano.

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