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O leitor já ouviu falar de uma língua chamada “anyin”, de um escritor de nome “Jean-Marie Adiaffi” e de um dos 54 países africanos conhecido como “Costa do Marfim”?

Pois esta é a missão de um jovem estudante chamado Yéo N´Gana atualmente cursando o doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Seu objetivo é produzir uma tradução inédita para o português de uma obra que tem tudo para se tornar uma referência no diálogo entre culturas. Aqui sua história.

Yeo N´Gana nasceu em 26 de dezembro de 1988 na cidade de Kombolokoura, no norte da Costa do Marfim, país situado no oeste do continente africano.

“Yéo” é o sobrenome e “N´Gana”, o nome, significa “o primeiro nascido” em senoufo, língua da família dele. Yéo teve uma irmã gêmea e, no parto, como ele foi o primeiro a nascer, acabou batizado de “N´Gana”.  

PAÍS

A língua oficial da Costa do Marfim, país de 23 milhões de habitantes, é o francês, mas lá são faladas outras 62 línguas, entre as quais o senoufo, grupo linguístico ao qual pertence.

“Senoufo” significa “aqueles que trabalham no campo” e esse povo soma 1,6 milhão de cidadãos espalhados tanto pela Costa do Marfim como também pelo país vizinho, Burkina Faso.

É falante materno de francês como também do senoufo, mas, como bom africano, compreende outras, entre elas o bambara, idioma com certas semelhanças com o senoufo tal como o português é com relação ao espanhol.

O estudante observa que, da babel de idiomas que é seu país, o diula tornou-se o idioma local com o maior número de falantes, só abaixo do francês, o idioma do antigo colonizador, a França, da qual o país se tornou independente. O francês virou a língua “internacional” daquele país com tantos grupos linguísticos diferentes.

 “Dentro desse cenário, entende-se como o francês acabou tornando-se o idioma oficial da administração pública, das escolas, da imprensa, do judiciário, enfim, de todo o governo”, observa.

 

ESTUDOS

Yéo chegou ao Brasil em março de 2015. Seu retorno à Costa do Marfim deverá ocorrer no primeiro semestre de 2019 quando deverá já ter concluído e defendido a tese de doutorado que faz hoje na PGET (Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução), da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

N´Gana é formado em Letras Português pela Universidade Félix Houphouët-Boigny, com sede em Abidjã, na Costa do Marfim. O nome homenageia o primeiro presidente daquele país entre 1960 a 1993, Félix Boigny (1905-1993), líder do movimento de independência. A Costa do Marfim libertou-se da França em 1959 e foi independente em 1960.

 

PORTUGUÊS

Yéo ingressou na faculdade de Letras em português em 2007 e, após a formatura, ingressou no mestrado. Em 2014, defendeu a dissertação intitulada “Tradição e Modernidade em Sonéá de María Odete Semedo.”

Quem é “Maria Odete Semedo”? Trata-se de uma escritora de língua portuguesa nascida em 1959 na Guiné Bissau, país situado no oeste da África cujo idioma oficial é o português. “Sonéá” é o nome de um livro de contos publicado em 2000 pela mencionada escritora. Vale lembrar que Odete Semedo, como assina suas obras, escreve tanto em português como em crioulo, um “dialeto” português misturado com idiomas guineenses.

Na faculdade, Yéo estudou tanto o português de Portugal como o do Brasil, além da literatura de Angola, Moçambique, Guiné Bissau e Cabo Verde, países africanos membros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

 

BRASIL

Yéo conseguiu bolsa de estudo para frequentar o doutorado na UFSC em Florianópolis.

E dando sequência a estudos sobre literatura africana, Yéo resolveu pesquisar um escritor, cineasta e filósofo de seu país chamado Jean-Marie Adiaffi (1941-1999), autor de vários livros, entre os quais o romance “La Carte d´identité” (1980), Galerie infernale (1984), D’éclairs et de foudres (1980), Silence, on développe (1992), Les naufragés de l’intelligence (2000), etc.

O livro escolhido para a tese, La Carte d´identité, foi escrito em francês. No entanto, o enredo, cujo cenário é a Costa do Marfim, está “recheado” de palavras, expressões idiomáticas e até frases no idioma anyin (também conhecido como “agni”, “agny” e “anyi”).

Trata-se da língua da cultura de Jean-Marie Adiaffi, falada por 800 mil pessoas, das quais 600 mil na Costa do Marfim e 200 mil no país vizinho Gana.

A tese de doutorado de Yéo, que conta com a orientação da professora do curso de graduação em Letras Francês da UFSC, a Doutora em literatura, Marie Hélène Catherine Torres, é traduzir para o português o romance mencionado e comentar quase que milimetricamente cada página do trabalho. O título da tese será “Tradução comentada de a carte d’identité de Jean-Marie Adiaffi (1980)”. Deverá estar concluída até 2019.

É um trabalho em fôlego. Em primeiro lugar, está aprendendo o anyin, idioma do qual não é falante fluente, pois é de um povo completamente diferente do seu, o senoufo. Está encarando o desafio de traduzir tantos termos em idioma anyin que “pululam” no romance elaborado em francês. No Brasil, talvez algo parecido, com as devidas proporções, é claro, seja o romance Iracema (1865), de José de Alencar (1829-1877). Escrito em português, o citado romance é repleto de vocábulos em tupi, antigo idioma indígena do Brasil até o início do século XIX.

 

AFRICANIDADE

Yéo interessou-se pela obra de Jean-Marie Adiaffi por entender que o autor em questão defende a consciência africana com relação às culturas autóctones.

Segundo N´Gana, Adiaffi defendia que a literatura da Costa do Marfim pode ser escrita num “francês” calcado no da França, porém é preciso valorizar a cultura local e as línguas, culturas, religiões e artes das diversas culturas locais podem e devem ser expressas nas obras literárias.

A questão é: por que não colocar frases e expressões em idiomas locais nos romances em francês escritos por autores africanos?

De acordo com Yéo, é uma ideia inovadora, pois antes entendia-se que a literatura da Costa do Marfim deveria adaptar-se às regras francesas, o que foi diferente em Adiaffi. Este autor publicou um romance em francês dito “correto”, “gramatical”, “selon l´académie”, mas em certos diálogos dos personagens da obra, o francês segue o jeito “marfinense” de falar e, por tratar-se de indivíduos do grupo étnico anyin, por que não registrar os termos e as expressões idiomáticas emitidos nesse idioma nacional?

Se José de Alencar usou e abusou das notas de rodapé para explicar o uso de tantas palavras tupi em seu romance “Iracema”, na sua tradução para o português do romance de Adiaffi, não faltarão a Yéo a elaboração de notas e, quem sabe, para que o leitor compreenda e até mesmo aprenda um pouco de anyin no desenrolar da leitura.

Se o leitor não estiver entendendo, damos um exemplo aleatório. Em Santa Catarina, uma escritora chamada Lausimar Laus (1916-1979) publicou em 1975 um romance intitulado “O Guarda Roupa Alemão”, que retratou a história da colonização alemã no Vale do Itajaí e virou até leitura obrigatória de vestibular da UFSC.

Esse livro foi publicado em português e, mesmo falando de famílias alemãs, não há o registro de falas, expressões e até mesmo músicas em alemão ou em algum dialeto desse idioma. Se seguisse o estilo de Adiaffi, “O Guarda Roupa Alemão” não deixaria de ser um livro em português, mas certamente registraria muitas frases, expressões e outras particularidades do idioma alemão, principalmente nos termos em que não há similaridade em português.

 

EM FRANCÊS OU EM LÍNGUA LOCAL?

Apesar da defesa da língua local, Adiaffi defendia a ideia de que é preciso usar a língua dos antigos “colonizadores”, no caso, os franceses, porque o francês é uma língua de alcance mundial enquanto que com o idioma local não é possível alcançar tal patamar de divulgação. Usando o exemplo para o Brasil: uma coisa é escrever um romance em português; outra é produzi-lo em guarani. Qual seria a repercussão se fosse escolhido o segundo idioma citado?

Dentro dessa ideia, para Adiaffi, é possível usar – muito bem, obrigado – o “trem” do francês para alcançar o grande público, mas aproveitando do mesmo para divulgar a particularidade, as expressões da língua local.

Yéo conta que no Quênia houve o episódio de um escritor, Ngugi wa Thiong’o (1938-   ), que resolveu publicar um romance todo em gĩkũyũ, idioma falado na parte austral da África. Ao invés de ser homenageado pela divulgação da cultura local, o escritor ganhou como “prêmio” a prisão. Por quê? O governo temia que mensagens políticas de descontentamento pudessem ser transmitidas a milhares de cidadãos por meio da escrita.  

 

IMPULSO

A estadia de Yéo no Brasil está sendo viabilizada por uma bolsa de estudos da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para concluir sua tradução da obra de Jean-Marie Adiaffi para o português, que é realmente inédita no Brasil. Aliás, raras são as traduções de literatura africana no Brasil. O trabalho de Yéo pode impulsionar o interesse pela literatura fora do eixo tradicional Nova York-Paris-Londres-Berlin.

 

SOBRE O BRASIL

Sobre o Brasil, Yeo observou: “É um país complexo, muito complexo. É formado por gente boa e também por gente pouco boa. Neste país, há muitas culturas que nem sempre são aproveitadas. É um país de contradições sociais realmente preocupantes. A respeito do olhar brasileiro sobre os africanos, eu, particularmente por ser negro, não sofri preconceito racial aqui no Brasil, que é um país mais aberto, mas percebo que os negros brasileiros, mesmo sendo boa parte da população, ainda são olhados como “estranhos”, como se eles fossem estrangeiros em seu próprio país. O Brasil é o paradoxo da complexidade. É bom e notável ao mesmo tempo que é contraditório.”

Indagado se isso tem a ver com a questão da corrupção, tão em voga pela operação Lava Lato, Yéo observou que “não opina” porque para tal precisa ter mais informações sobre a história e política do Brasil e, no presente momento, todos seus esforços e atenções têm sido voltados para a sua tradução e seu doutorado sobre o romance do escritor de Costa do Marfim.

Contatos com Yeo pelo e-mail nganayeo@gmail.com.

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