Hoje de manhã (sábado, 16/12), o editor do jornal Biguaçu em Foco, Ozias Alves Jr, postou no site www.jbfoco.com.br a coluna do professor Nanblá Gakran, índio da etnia xokleng, doutor em linguística pela Universidade de Brasília, atualmente atuando na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que publica a coluna “Xokleng em Foco”, com notícias bilíngues no idioma de seu povo com tradução para o português.

Nanblá enviou os dizeres sem fotos. Para ilustrar a coluna em questão, o editor Ozias, ao fazer a postagem no site, colocou uma foto de sua coleção particular sobre a história dos índios xokleng. Muitas dessas fotos constam no acervo do Museu da cidade de Ibirama (SC) e a diretora do mesmo autorizou, em 2014, o jornalista Ozias a usar o material em seu livro “Parlons Xokleng/ Laklãnõ”, publicado pela editora francesa L´Harmattan.

São fotos amplamente divulgadas em livros, dissertações de mestrado, teses de doutorado, artigos e facilmente encontradas no ícone de “busca” do Google.

 

CENSURA

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Para surpresa do jornalista, quando abriu novamente o facebook no início desta tarde, onde postou o link da coluna do profº Nanblá Gakran, leu um aviso da empresa informando que o “conteúdo” foi removido por ter publicado cena de “nudez”. Ou seja, a foto antiga que coloquei para ilustração foi censura por mostrar índias com os seios à mostra.

Aqui a mensagem da empresa:

 

Restringimos a exposição de nudez. Algumas descrições de atos sexuais também podem ser removidas. As restrições relativas à exibição de nudez e de atividade sexual também se estendem aos conteúdos digitais, exceto quando a publicação do conteúdo se der por motivos educativos, humorísticos ou satíricos.

Removemos conteúdos que ameacem ou promovam exploração ou violência sexual. Isso inclui solicitação de material sexual, qualquer conteúdo sexual envolvendo menores, ameaças de compartilhamento de imagens íntimas e ofertas de serviços sexuais. Se for o caso, encaminhamos o conteúdo para as autoridades.

Para descobrir quais tipos de mensagens e publicações são permitidas no Facebook, consulte os Padrões da comunidade do Facebook.”

 

Olha só. Escreveu o Facebook: “Se for o caso, encaminhamos o conteúdo para as autoridades.”

Só faltava eu ter de estar dando explicações a delegado de polícia.

 

PORNOGRAFIA OU HISTÓRIA?

A foto em questão foi tirada em 1928 (o jornalista errou na primeira postagem ao dizer que se tratava da década de 1930) na reserva dos índios xokleng em Ibirama, interior do vale do Itajaí, no estado de Santa Catarina.

A foto mostra índios xokleng, entre os quais algumas mulheres que estão com os seios à mostra. Vale lembrar que os índios andavam nus. Só depois que passaram a viver em reservas, é que adquiriram o hábito de se vestirem como os brancos.

Ao colocar essa foto, nunca imaginei que estaria produzindo “pornografia” ou a interpretação que seja.

O interessante é que tal foto está amplamente divulgada na internet, sem qualquer restrição. Qualquer criança que souber digitar a palavra “xokleng” no ícone de busca do Google, vai encontrar uma infinidade de fotografias desses índios da primeira metade do século XX, algumas das quais com índios homens em nu frontal e de mulheres desse povo com os seios à mostra. Não há qualquer restrição. Todo mundo pode ver sem qualquer proibição. São fotos ETNOGRÁFICAS e não PORNOGRÁFICAS. É preciso fazer a devida distinção.

 

REPUBLICAÇÃO

Bom! Para não perder a minha página no facebook, tomei a seguinte decisão. Retirei a foto em questão e coloquei uma tarja nos bicos dos seios das duas índias que lá apareceram. Creio que desta vez o “robô” do facebook vai ter a “inteligência artificial” de distinguir que os seios NÃO estão mais aparecendo porque foi colocada uma tarja em cima dos mesmos.

Certamente quem avaliou a foto em questão não foi uma “pessoa”, mas sim um robô, que não faz distinção alguma em uma foto de índias de 1928 que viviam nuas na reserva, conforme o costuma da tribo, de nudez pornográfica indecente.

Se a moda pegar, se algum professor divulgar pelo facebook lições de biologia de 7º série primária em que os alunos começam a estudar os órgãos sexuais humanos, basta apresentar o desenho de um pênis e de uma vagina para que o “robô” do facebook retire e o postador receba uma carta dizendo ter “violado as regras” por “exibição de nudez e de atividade sexual”.

 

SEM E-MAIL DE CONTATO

Eu queria enviar uma carta à direção do Facebook relatando este fato, mas simplesmente não consigo encontrar qual o e-mail da empresa, ou seja, para quem poderia dirigir-se.

É verdade que, se existisse tal e-mail, simplesmente seria impossível a empresa responder a todas as cartas eletrônicas (e-mails) porque seria uma torrência de mensagens.

Mas fica aqui meu protesto. Uma coisa é fotos de índios da década de 1930 que andavam nus ou com pouca roupa. Outra coisa bem diferente é pornografia, sexo ou, vulgaridade.

Mas deixa prá lá. Discutir isso com um “robô” é problemático.

Mensagem do Facebook informando que a postagem foi removida por nudez e suspeita de pornografia. (Foto Reprodução)

 

Esta foi a postagem que o jornalista Ozias fez para divulgar a coluna do profº Nanblá Gakran, índio xokleng.  Por causa da foto, o Facebook retirou a postagem do ar na página pessaol do jornalista. (Foto Reprodução)

 

 

Esta foi a mensagem que recebi ao abrir a minha página no Facebook hoje à tarde (sábado, 16.12.2017). (Foto Reprodução)

 

Esta foto postada pelo jornalista Ozias na página do artigo de profº indigena foi considerada “ofensiva” pelo Facebook. (Foto Reprodução)

 

Foto pela qual o jornalista Ozias Alves foi censurado ao estampar é amplamente divulgada sem restrinção na internet. (Foto Reprodução)

 

Foto é divulgada sem censura pela internet. (Foto Reprodução)

 

Foto das índias xokleng que é divulgada inclusive no Museu de Ibirama. (Foto Reprodução)

 

Índios xokleng em 1928. (Foto Acervo Museu de Ibirama)

 

POSTAGEM

 

Postagem que provocou a polêmica. Desta vez, coloquei uma tarja nos bicos dos seios das índias de 1928 que aparecem na citada foto

 

 

XOKLENG EM FOCO – XOKLENG/LAKLÃNÕ JÊ ÓG VÃNHHÓL KABEL/A marca tribal dos Xokleng/Laklãnõ Jê