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Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

 

Na tarde da última sexta-feira (19/01), estive no centro de Florianópolis e, quando passei pela escadaria do Rosário, entre as ruas Vidal Ramos e Marechal Guilherme, deparei-me com uma pequena feira e uma roda de samba.

Eram por volta das 18h. A feirinha tinha barraquinhas de artesanato e traillers de comida estilo “Food Truck”. No centro, uma animada roda de samba.

Não sei se era um evento da prefeitura local ou iniciativa particular. Era bem simples, mas achei o evento genial unindo cultura, negócios e entretenimento à população.

Fiquei pensando: como Biguaçu é atrasado! Aqui não temos nada disso! Sequer há uma programação cultural. Em Biguaçu, não há uma “Música na Praça”, apresentação de teatro ao ar livre, palestra com algum escritor ou personagem de destaque na sua área de atuação, uma feira gastronômica, um sarau literário, uma mostra de cinema alternativo, uma demonstração de dança, uma roda de samba, entre outros eventos, enfim, algum movimentação cultural.

Biguaçu tem um tal de “Centro Cultural Casarão Born”. Mas o que tem lá? Que programação apresenta? Tempos atrás apresentavam alguma exposição de arte, principalmente pintura, mas nos últimos anos, nem isso. Se tem sido feito algum nos últimos tempos, pelo menos, o jornal não é informado de alguma exposição.

Já vi ali ensaios da Escola Municipal de Música. Mas perguntar não ofende: por que os alunos não se apresentam de vez em quando nos bairros de Biguaçu?

Sim, num sábado de manhã ou à tarde um grupo de alunos apresenta-se na praça do Jardim Carandaí, em outra ocasião na praça Marcondes de Mattos, na Praia João Rosa, em outra em Três Riachos, enfim, levar alta cultura e entretenimento aos bairros e localidades do município ao longo do ano.

Temos uma feirinha do artesanato. Por que não “turbiná-la” com barracas de comidas exóticas? Em Florianópolis, existe a feira do imigrante. São estrangeiros de várias partes do mundo que oferecem comidas típicas de seus países. Conforme já publiquei no JBFoco, alguns deles têm interesse de montar suas barracas na praça central de Biguaçu. Só querem a autorização. O resto é por conta deles. Mas a sugestão foi olimpicamente ignorada.

 

FALTA DE CRIATIVIDADE

Perguntar não ofende: existe algum responsável pelo setor da cultura em Biguaçu? Sim, alguém que recebe salário da prefeitura para, durante o expediente comercial, viabilizar projetos de cultura no município? Trata-se apenas um cargo decorativo?

No Estreito há uma escola de dança cigana da professora Sílvio Bragagnolo. Se convidá-la, ela e suas alunas podem apresentar-se na Praça Nereu Ramos. Certamente para muitos biguaçuenses, será a primeira vez que assistirão uma troupe de dança ao vivo e em cores.

Em Florianópolis, há uma associação que promove, com certa regularidade, a “Noite da Cultura Japonesa”. Por que não tentar conversar com essa associação com objetivo de promover esse evento em Biguaçu?

Há eventos com custos e outros sem. Há eventos bem simples em que o artista apresenta-se voluntariamente e outros para os quais são necessários um palco e outras despesas. É preciso que o departamento municipal de cultura ou a denominação que seja tenha uma equipe que saiba buscar verbas estaduais e federais para eventos culturais.

Não é possível fazer um projeto para captar recursos da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura com o objetivo de viabilizar eventos culturais em Biguaçu?

 

RETROCESSO

A biblioteca pública de Biguaçu “está um brinco”, como se diz na gíria. Foi toda reformulada para transformar-se num ambiente agradável e não “sufocante”. Mas fiquei pasmado: um bom número de livros do acervo simplesmente foi descartado para deixar o local mais “arejável”. Ao invés de aumentar seu acervo, diminuiu. Criada em 1944, ao invés de estar com seus 100 mil, 200 mil ou 500 mil livros, a biblioteca pública de Biguaçu tem hoje acervo parecido com o de uma casa cujo dono tem o hábito da leitura.

Não culpo a direção da biblioteca. Pelo contrário. A diminuição do acervo deve-se ao fato de que a biblioteca ocupa o mesmo espaço desde 1987. Há tempo que a Biblioteca precisa de um espaço mais amplo. No entanto, isso é negligenciado. Cadê uma secretaria de cultura ativa buscando verbas estaduais ou federais ou ambas para viabilizar a construção de uma nova biblioteca?

Como é que a prefeitura de Biguaçu não tem a organização mínima para guardar 0,25% ou 0,50% (ou a “exorbitância” de 1%) de seu orçamento para um fundo anual com o objetivo de patrocinar a publicação de livros de moradores do município que precisem de alguma ajuda para viabilizar suas obras?

E o Arquivo Público? O prefeito Ramon Wollinger (PSD) chegou a afirmar que “já está tudo pronto para o lançamento do Arquivo Público Digital”, mas até agora nada.

Eu me pergunto: como é que até agora não foi viabilizada uma concha acústica na Praça Nereu Ramos?  Sim, uma concha acústica, um palco permanente para apresentações musicais e de dança. Dependendo da concha, o palco pode tornar permanente, isto é, nem é mais preciso gastar com palcos móveis em outros eventos.

Biguaçu já tem uns oito mil nordestinos mais ou menos. Ninguém teve a ideia de conversar com as lideranças dessa comunidade para promover uma feira ou festa ou exposição da culinária e cultura desse povo. Será que não seria uma oportunidade de apresentação de repentistas e venda de literatura de cordel?

 

ATÉ QUANDO?

Vou parar por aqui. As ideias são muitas e não são extravagância. O fato é que Biguaçu não tem política cultural. É um deserto. Não podemos esperar muita coisa nessa área numa cidade administrada por um expressivo número de políticos que talvez não tenha sequer um livro dentro de casa.

A cultura é algo que não se pode negligenciar. A vida não é só trabalho e comida. É também diversão, entretenimento e educação.

Até quando Biguaçu achará normal viver sem um pouco de programação cultural digna do nome?

 

19.01.2018
Roda de Samba da escadaria do Rosário: um evento simples, mas muito bem “sacado”, além de oferecer entretenimento gratuito à população em geral. (Foto JBFoco)

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