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Salvar a língua e cultura do povo kaingang. Este é o objetivo de vida de Joziléia Daniza Kaingang, 37, uma índia da nação kaingang. Doutoranda, Jozileia assumiu há poucos meses a coordenadoria pedagógica do curso de Licenciatura Intercultural do Sul da Mata Atlântica, o segundo curso da história de Santa Catarina focado na formação de professores indígenas, ministrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis.

Ela assina “Joziléia Daniza Kaingang”, para marcar o nome de seu povo, mas seu nome oficial é Joziléia Daniza Jagso Inácio Jacodsen Schild. Nascida em 4 de julho de 1980 na terra indígena Guarita, no Rio Grande do Sul, é a mais nova entre cinco irmãos.

Seu pai Albano Jakobsen é de origem alemã; já sua mãe, Arcelina Inácio, é indígena kaingang.  Ambos pais já são falecidos. Schild é seu sobrenome de casada, de seu esposo de origem alemã.

Dos quase 900 mil indígenas no Brasil, os kaingang somam uns 34 mil vivendo em 30 áreas entre os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. É o terceiro povo mais numeroso entre os indígenas, minoria que não chega a 1% da população total do país.

Os kaingang, que eram chamados pejorativamente de “bugres” e sofreram toda sorte de violência, entre as quais os ataques dos caçadores conhecidos como “bugreiros”, sofreram com a espoliação de suas terras.

Joziléia lembra da revolta da terra indígena Nonoai, no Rio Grande do Sul, na década de 1970. Funcionários do antigo SPI (Serviço de Proteção aos Índios) fizeram vistas grossas para a entrada de agricultores brancos na terra dos índios kaingang. Isso acarretou na revolta que levou os kaingang a expulsarem a força os invasores.

A destruição da antiga floresta acabou arruinando o modo de vida dos índios, que viviam da caça e coleta de alimentos silvestres.

 

LUTA

Criada pela mãe e, depois do falecimento desta, pela tia, Joziléia desde cedo participou da luta de seu povo para ter o direito de posse de suas terras ancestrais.

Em sua dissertação de mestrado, Jozileia conta a história da luta pela posse de Serrinha, terra indígena no Rio Grande do Sul, também invadida por colonos sem terras. Aliás, não existe terra onde vivem esses índios em que não haja registros de conflitos pela posse da terra.

“ Agricultores sem terra foram para o norte e entraram na terra indígena. As melhores terras agrícolas nem ficavam lá, mas ao sul, mas eram ocupadas por grandes fazendeiros, armados com suas milícias particulares. Entre enfrentar os fazendeiros no sul, os colonos preferiram ir em cima das terras dos índios kaingang ao norte”, observa.

Em 1992, aos 12 anos de idade, Joziléia testemunhou o início do movimento pela demarcação da terra indígena de Serrinha. Em 1996, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul reconheceu a posse dos índios. “Até porque tínhamos documentos provando que as terras pertenciam aos índios em 1911”, lembra.

 

ESTUDOS

Tendo iniciado seus estudos primários em escolas indígenas e numa não indígena, no interior do Rio Grande do Sul, Joziléia cursou entre 2007 a 2010 a graduação em geografia pela Universidade Comunitária da Região de Chapecó. Sua monografia de conclusão de curso foi: “A conquista do espaço social político pelas mulheres indígenas Kaingáng no cenário não indígena.”

Entre 2010 a 2012, fez um curso de especialização em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O título da monografia foi “A importância do artesanato Kaingáng para a preservação do grafismo.”

Entre 2014 a 2016, cursou o mestrado em antropologia social seguindo o mesmo tema com foco em seu povo. A dissertação teve como título “Mulheres Kaingang, seus caminhos, políticas e redes na Terra Indígena Serrinha.”

 

TRABALHO

Joziléia mudou-se para Brasília onde foi atuar no Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual. Em 2007, ganhou um prêmio por seu trabalho cultural em prol de seu povo.

Atuou em pesquisa de arqueologia na região de Chapecó sobre os índios kaingang. Fez estágios em escolas não indígenas e depois numa indígena.

 

DOUTORADO

Em 24 de fevereiro deste ano, Jozileia concluiu seu mestrado e, mal recebeu seu diploma, ela passou na seleção do doutorado em Memória Social e Patrimônio Cultural pela Universidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul.

E foi no início deste ano que ela recebeu o convite para assumir a coordenação pedagógica do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica. O citado curso foi criado justamente para formar professores indígenas para atuarem nas escolas das reservas kaingang, xokleng e guarani mbya, os três povos indígenas existentes no estado de Santa Catarina. A Constituição Federal de 1988 passou a assegurar o direito aos indígenas de terem educação biligue focada em sua cultura tribal específica.

“Em 2015, ocorreu a primeira formatura, que foi a maior da UFSC. Formaram-se 78 alunos”, lembra. Em Santa Catarina, funciona também outro curso similar, o da Unochapecó.

O desafio é transformar a licenciatura em questão em curso permanente dentro da UFSC e não deixá-lo encerrando as portas. “Há grande demanda por professores indígenas com formação técnica e qualificada para atuarem nas escolas indígenas. Só para se ter uma ideia, no primeiro vestibular para o nosso curso, houve 505 inscritos para 45 vagas. Isso dá uma dimensão do nosso desafio”, comenta a coordenadora que trabalha na UFSC em Florianópolis, mora em Xanxerê, oeste do estado de Santa Catarina, e precisa viajar frequentemente (geralmente uma vez por semana) para assistir aulas de seu doutorado na Universidade de Pelotas, sul do Rio Grande do Sul.

“Os kaingang sempre foram um povo de andanças, em constante movimento. Eu não poderia ser diferente”, observa sem reclamar de ter de levar uma vida “cigana”.

 

LÍNGUA

Joziléia é falante do kaingang, idioma este que, apesar de ser falado mais ou menos pela metade dos 37 mil membros dessa nação indígena, encontra-se em perigo de extinção no futuro, conforme a UNESCO, órgão das Nações Unidas para a Educação e Cultura.

Um dos focos do curso de licenciatura indígena na UFSC é justamente reunir acervo para ensino e preservação da língua kaingang.

 

CONTATOS

Quem quiser contatar com Jozileia, seu fone é (49) 9-9165-5497 e e-mail danikjj@gmail.com.

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