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O professor Caio de Cápua, um paulista residente no bairro Bela Vista, em Biguaçu, um “Branco Civilizado” de origem europeia, está buscando na religião dos índios guarani da aldeia de São Miguel, Biguaçu, respostas para entender a vida. Esta busca está transformando-se num livro filosófico em que ele discute as gritantes contradições da nossa sociedade sob a ótica da espiritualidade de um povo minoritário cujas verdades a sociedade moderna desconhece devido à arrogância de considerar-se “superior”.

Os índios são olhados geralmente com desprezo por nossa sociedade. Vamos falar a verdade, sem rodeios. São considerados “preguiçosos”, “vadios” e “atrasados”. O preconceito é tão grande ao ponto da língua dos índios ser chamada geralmente de “dialeto”, de sua arte ser considerada “artesanato” e sua religião “crendice”.

Não é à toa que se presenciam missionários brancos querendo converter os índios à religião cristã como se fossem os nativos uns “perdidos”. Caio, personagem desta reportagem especial de “Dia do Índio” em Biguaçu, está fazendo o caminho inverso: procura na religião dos índios respostas para questionamentos da vida, que o Cristianismo não foi suficiente para responder a ele.

 

PROCEDÊNCIA

Caio Montenegro de Cápua nasceu em 15 de dezembro de 1964, em São Paulo. De família de descendentes de imigrantes italianos, Caio veio para São José, Santa Catarina, em 1997.

Caio foi baixista de uma banda chamada Virus, que participou da gravação do segundo disco de Heavy Metal da história do Brasil, o “SP Metal”, lançado em 1984. O primeiro disco do gênero foi gravado em 1982 pela banda Stress, de Belém, capital do Pará.

Cápua viveu em São Paulo até 1987, quando desligou-se da banda Virus e, antes de mudar-se definitivamente para Santa Catarina 10 anos depois, morou no Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, onde atuou também como músico. Em Santa Catarina, passou a trabalhar como produtor musical e criou um curso de profissionalização de bandas.

 

ÍNDIOS

Paralelo a seu trabalho na música, Caio leu muito sobre cultura indígena desde a infância, em São Paulo. Tinha uma tia avó que adorava o Brasil e gostava de falar de grandes personagens da história do Brasil, principalmente do Marechal Rondon (1865-1958), o famoso desbravador do interior do Brasil e dos índios do país.

 

Ritual na Opy, a casa de reza dos índios guarani de Biguaçu. (Foto Caio de Cápua) 

SELVA DE PEDRA

Caio foi criado no bairro de Moêmia, em São Paulo capital, e ele presenciou a enorme mudança que ocorreu na região. Antes um bairro residencial de casas “rez-de-chaussée” (só de andar térreo), hoje virou uma literal “Selva de Pedra”, com milhares de edifícios, o que arrasou a qualidade de vida na região.

Uma das razões que levaram Caio a sair de São Paulo em 1987 foi ter adquirido a “Síndrome do Pânico”. Em primeiro lugar, pelo sentimento de insegurança, de ficar sempre “ligado”, pois a qualquer momento poderia ser vítima de assalto a mão armada, paranoia comum de quem vive numa metrópole como São Paulo.

Em segundo, ele, por ser roqueiro, já passou por situações traumáticas de sofrer agressões de torcedores do São Paulo F.C, por skinheads, roqueiros rivais, enfim de “tribos” selvagens e intolerantes que povoam a “Selva de Pedra” de São Paulo.

Em terceiro, não suportou tanto estresse, trânsito engarrafado, tanta multidão se esbarrando em metrôs, trens e ônibus, sem falar da poluição do ar. Sua mãe, por exemplo, teve de mudar-se para Vitória (ES) porque adquiriu uma doença pulmonar grave devido à poluição fora do controle em São Paulo.

Caio de Cápua na aldeia dos guarani de Biguaçu. (Foto Divulgação)

CONTRADIÇÕES

“Era voz corrente nos anos 1960 e 1970 que, no futuro, iríamos trabalhar menos e curtir mais a vida por causa da tecnologia. O que se viu foi totalmente o contrário. Hoje estamos trabalhando cada vez mais, em cidades cada vez mais povoadas, estressantes, ganhando apenas para pagar as contas, sem tempo para nada, nem para a convivência com os amigos e a família. Que mundo moderno é esse? Para onde estamos indo?”, questiona Caio.

Ele observa que, se não bastassem esses problemas, há outros se acumulando com a devastação do meio ambiente em geral e o rareamento progressivo de recursos naturais. “O caso da água é latente. Em São Paulo, agora já está se reciclando água de esgoto para suprir o abastecimento da cidade. Pode uma coisa dessas?”, observa.

“Dizia-se antigamente que no futuro teríamos mais tempo para a cultura. Hoje assistimos o contrário. O trabalho absorve tanto tempo que não se tem tempo para ler, estudar, escutar uma boa música, enfim, dedicar-se ao lazer e a cultura”, salienta.

Músico Caio durante uma noite de vigília espiritual na aldeia guarani de Biguaçu. (Foto: Arquivo Caio de Cápua) 

FILOSOFIA

Quando o homem tiver estudado todos os sábios da cultura branca ocidental, que vai de Leonardo da Vinci a Einstein, aí está pronto a começar a conhecer a cultura indígena”, observa Caio.

Citando o filósofo suíço Frithjof Schuon (1907-1998), autor do livro “O Esoterismo como Princípio e como Caminho”, Caio enumera dois tipos de crenças no mundo.

“O primeiro é o que Schuon chama de crença “natural”. É aquela de sociedades que nunca se separaram da vida natural. A outra é a da religião e esta tem fundadores, livros sagrados e, consequentemente, dogmas”, lembra.

“Os índios nunca se desligaram do mundo natural. Eles vivem segundo o ritmo da natureza e a respeitam. Já o homem dito “civilizado” afastou-se do mundo natural e sua religião é repleta de dogmas que o dá uma visão deturpada e o resultado é o terrível mundo em que vivemos: nossas cidades estão cada vez mais superpovoadas, poluídas, violentas, congestionadas, doentes e estressadas. Nunca se escreveram tantos livros e tanta informação está circulando, mas vivemos num mundo com tanta gente desinformada porque simplesmente não tem tempo para ler, ver, descansar. Que mundo paradoxo é esse?”, questiona.

“Eu nunca imaginei na minha vida que um dia São Paulo iria enfrentar falta d´água. Quando chove, é enchente para tudo que é lado na grande metrópole e gente até morrendo afogada. Mas paradoxalmente, São Paulo está enfrentando ao mesmo tempo escassez d´água e racionamento. E não tendo água, por que São Paulo está enfrentando agora uma epidemia de dengue cujos mosquitos se proliferam em água parada? Tudo isso que estou falando são sinais de que algo não está certo. O planeta está simplesmente se inviabilizando”, observa.

LIVROS

A ideia de que a sociedade moderna não é viável não é minha. Pelo contrário. Foi de Sigmund Freud (1856-1939), que escreveu um livro chamado “Civilização e seus Descontentamentos”. Neste livro de 1930 ele dizia que a civilização como temos hoje é um processo insustentável. Há notório crescimento tecnológico, mas isso não vem acompanhado de qualidade de vida”, conta.

Para Caio, as doenças mentais estão vinculadas a estados de “dissociação”. “Os índios chamam isso de “perda da alma do mato”, isto é, o homem moderno está afastado da natureza e isso vem gerando estresse que, não tendo para onde ser aliviado, acaba tornando-se doença mental. Já percebeu quantas pessoas estão agressivas, neuróticas, de mal com a vida na nossa sociedade? A vida de hoje não tem mais sentido porque o trabalho, para a maioria, não traz riqueza e qualidade de vida; só contas a pagar.”

REDESCOBERTA

Em busca de respostas espirituais, Caio passou a frequentar a aldeia dos índios guarani mbyá de São Miguel, Biguaçu, a partir de 2013.

“Os índios são vistos com indiferença pela sociedade, mas eles têm muito a nos ensinar, principalmente o caminho de volta à verdadeira espiritualidade e ao respeito ao meio ambiente, hoje tão devastado. A sociedade civilizada olha os índios como se fossem uns atrasados, mas são os índios que riem da ingenuidade dos preconceituosos”, observa.

Numa das primeiras visitas à aldeia guarani de São Miguel, Biguaçu, Caio ganhou de presente uma pequena escultura em madeira de uma serpente. “Simboliza a passagem entre os reinos espiritual e material”, conta.

Este foi sua primeira lição em sua descoberta da espiritualidade guarani e a dita estatuazinha da cobra inspirou Caio a iniciar a redação de seu futuro livro intitulado “Os Dois Lados da Serpente”.

“Para os índios, a vida é uma jornada de crescimento”, observa Cápua.

 

RELIGIÃO

Caio participou das várias etapas dos rituais realizados na Opy (Casa de Reza), na aldeia de São Miguel, Biguaçu, entre os quais a cerimônia do feitio do rapé, o “Temazcal” e os rituais sagrados do útero da terra.

“ Os rituais são conduzidos pelo pajé da tribo, seu Alcino Moreira, uma pessoa extraordinária, de uma sabedoria ímpar”, comenta Caio.

O espaço acabou e não é possível descrever todos os rituais, seus significados filosóficos esotéricos. Aliás, se descrevê-los, dá um livro que, aliás, como dito antes, Caio já está escrevendo.

“Minha jornada de crescimento espiritual continua, mas o que gostaria de deixar registrado é que a “Civilização” tem muito a descobrir se parar de ter um olhar tão preconceituoso com relação aos povos minoritários. Nossa civilização não é superior em nada. Pelo contrário. Está inviabilizando-se. Precisamos rever os conceitos e encontrar o verdadeiro caminho da felicidade e plena realização. Esse é o significado do Dia do Índio que, para mim, não é um dia qualquer, mas uma verdadeira redescoberta do sentido da vida”, finaliza.

 

Com o Pajé Alcindo de mais de 105 anos de idade. (Foto Arquivo)
Segundo TEMAZCAL!!! A Tenda do suor Sagrado nos leva ao útero da Mãe Terra!!! Sob a guia do Pajé Alcindo. (Foto Divulgação)

 

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