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Em fevereiro de 2016 o prefeito Ramon Wollinger (PSD) anunciou que iria ser construída o que se chamou de “Super Creche”, entre os bairros Prado e Saudade. Iria ser investido R$ 1,1 milhão vindo do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) com contrapartida de R$ 258,4 mil da prefeitura de Biguaçu.

Ano passado, o JBFoco protocolou ofício solicitando informações oficiais da prefeitura solicitando informações a respeito de como está o projeto, como se encontra a obra e qual foi o motivo para que a mesma ainda não foi iniciada.

São perguntas simples, nada ofensivas. No entanto, a prefeitura recusa-se terminantemente a responder.

Segundo informações de bastidores, o projeto não deve sair porque a atual gestão simplesmente teria perdido prazos e o projeto teria simplesmente sido cancelado.

Talvez querendo não assumir publicamente que perdeu a “supercreche do Prado/Saudade” por pura incompetência, a prefeitura mantém o silêncio para ver se a população esquece que um dia chegou a anunciar que iria construir a grande creche que acabaria com o problema de décadas dos bairros citados: a crônica falta de vagas nas creches públicas.

Mas a população não esqueceu. Pelo contrário. Está revoltada. Aqui alguns depoimentos de moradores da região.

 

DESCASO

 

Rosane de Fátima Chalcocki: desgaste para conseguir vaga. (Foto JBFoco)

 

Rosane de Fátima Chalcoki, 33, mora no condomínio Saudade, no bairro do mesmo nome. Tem um filho de seis anos de idade.

Quando a criança tinha dois anos, ela conseguiu uma vaga na creche Dona Virgínia, situada no bairro vizinho do Prado. Mas para conseguir a vaga na única creche pública da região, diga-se de passagem, uma das mais populosas de Biguaçu, teve de bater perna dentro da prefeitura para implorar pela vaga e falar com vereador. Conseguiu, mas para Rosane foi uma experiência muito desgastante.

Sobre a notícia da supercreche, ela já sabe há tempo e se diz “indignada”, pois além do seu próprio caso, ela lembra o de amigas que têm filhos pequenos e estão passando o maior dos apuros por não conseguir vaga na creche Dona Virgínia e, não tendo com quem deixar, são obrigadas a deixar o trabalho, pois as creches particulares custam muito caro.

 

REVOLTA

Edinéia de Campos Patrício: revolta contra a incompetência. (Foto JBFoco)

 

 

Moradora do bairro Prado, a atendente Edinéia de Campos Patrício, 41, é mãe de dois filhos, hoje um rapaz de 26 e uma moça de 19.

Quando seus filhos eram pequenos, Edinéia fez de tudo para conseguir vagas para eles na creche, mas não conseguiu, mesmo falando com um vereador. Este tentou, mas não teve jeito.

E o problema da creche voltou à ordem do dia, pois sua filha tem um filhinho de três anos de idade. Tal como a mãe, esta também não está conseguindo vaga na creche Dona Dorvalina.

A filha mora sozinha e luta para ser independente. Mas não tem como pagar uma creche particular. Edinéia, a avó da criança, também trabalha, mas faz de tudo que pode para ajudar a sua filha nessa situação delicada.

Quando ouve a história da supercreche do Prado/Saudade, que pelo jeito não vai sair (se a prefeitura não responder, estará confirmada a suspeita de que o projeto acabou), Edineia encontra-se muito revoltada, pois lembra o que sofreu e agora com a situação de sua filha.

“É muita incompetência. É prefeito e vereador muito incompetente que o povo não sabe escolher”, observa.

 

PROBLEMA

 

Eraldo Medeiros Liberato: cadê a prometida “supercreche do Prado/Saudade”? (Foto JBFoco)

 

 

Eraldo Medeiros Liberato, 59, que trabalha numa cooperativa de agricultura familiar, mora no bairro Prado e tem duas filhas que lhe deram quatro netos.

O mais novo de seus netos é uma menina que acabou de completar três meses de idade. Sua filha está em licença maternidade, mas em breve terá de voltar ao trabalho e o problema é que não tem onde deixar seu bebê.

“Aqui no Prado, a creche está superlotada e também não atende bebês e, mesmo se houvesse, é só num período, o que é problemático porque as pessoas trabalham o dia inteiro. Minha filha terá de colocar a criança numa creche particular, que custa entre R$ 900 a R$ 1.200,00, o que é muito caro. Se minha filha tiver de pagar a creche particular, vai boa parte do salário dela nisso e como ficam as outras despesas da casa dela?”, conta.

“Estou muito revoltado. A super creche que a prefeitura prometeu, pelo jeito, só ficou na promessa. Isso reflete todo o desleixo do poder público”, observa Eraldo.

 

DILEMA

Bruna Adriana da Silva terá de deixar o emprego depois da licença maternidade por não ter onde deixar seu filho. (Foto JBFoco)

 

Bruna Adriana da Silva, 24, auxiliar de RH (Recursos Humanos), tem um filho de apenas dois meses de idade. Ela mora no Prado e sua licença irá acabar dentro de dois meses. Ainda poderá ficar mais um mês, pois trata-se de férias atrasadas, mas depois disso, terá de escolher o que fazer.

A única creche pública na região dos bairros Prado e Saudade é a já citada Dona Virgínia, completamente superlotada. O problema é que essa creche só atende crianças a partir de um ano de idade, o que não é o caso de seu filho.

Bruna não quer deixar o emprego, pois o salário ajuda nas despesas de casa. Mas se tiver de pagar uma creche particular, a mais barata tem mensalidade de R$ 700,00, o que é muito caro. Por isso, se não acontecer algum “milagre”, ela deverá deixar o emprego e contar apenas com o salário do marido para o sustento da casa.

O problema não é deixar o trabalho momentaneamente, mas sim conseguir retornar ao emprego, o que não é tão fácil num cenário de grande disputa por vagas.

Bruna está revoltada por três problemas: 1) a falta de creches que atendam crianças com menos de um ano de idade, 2) o fato de que as creches não são em horário integra e 3) o desleixo da prefeitura de Biguaçu de não ter feito a supercreche do Prado/ Saudade, conforme anunciou, mas não fez. Se existisse a creche, muitas crianças da região já estariam sendo assistidas e seus pais trabalhando com mais tranquilidade.

 

DIFICULDADES

Helena Fátima da Silva: indignação. (Foto JBFoco)

 

A dona de casa, Helena Fátima da Silva, 41, é mãe de dois filhos- um de 10 e outro de 8 anos de idade respectivamente.

Quando os meninos eram bem pequenos, ela passou a maior dificuldade para conseguir vagas para eles na única creche do bairro Prado. “Foram dois anos lutando até que consegui”, conta Helena que teve de apelar para vereador e para políticos em geral.

Ela salienta que o principal problema das famílias em geral é justamente a falta de creches. As pessoas precisam trabalhar, mas não têm onde deixar os filhos. E não trabalhando por não poderem pagar creches particulares, o problema só aumenta.

Para ela, o fato da prefeitura de Biguaçu não ter conseguido viabilizar a supercreche na região foi um desalento para aquelas mães que estavam com esperança de conseguir vagas para seus filhos.

 

ESPIRAL DE CONSEQUÊNCIAS

A doméstica Maria da Silva, 39, residente no Prado, tem três filhos e um neto. Seus filhos são adultos, mas quando eram crianças, Maria nunca conseguiu vagas em creches públicas tanto do bairro como também em outras regiões de Biguaçu.

Ela teve de parar de trabalhar para cuidar dos seus filhos e ela comenta que esse problema que enfrentou em seu passado continua “firme e forte” hoje em dia.

Para ela, a falta de creches públicas produz muitas consequências. As mulheres que poderiam estar trabalhando e serem mais independentes são obrigadas a ficar em casa para depender da renda dos maridos. Às vezes, elas são obrigadas a submeter-se aos caprichos dos esposos e companheiros.

Para ela, creche é o básico da cidadania e pode comprometer o futuro das crianças. Ela cita o exemplo de um de seus filhos.

Pelo fato dele não ter tido creche, ele só entrou na sala de aula aos 8 anos na primeira série. Na creche, as crianças são submetidas a uma pré-alfabetização e a brincadeiras educativas.

Mas o filho de Maria não teve nada disso e, na escola primária, passou por uma série de dificuldades de aprendizado na alfabetização.

Resumindo tudo: se tivesse passado pela creche, talvez não teria tido dificuldades na escola.

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