O que tem a ver o atentado contra o candidato a presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, esfaqueado na quinta (06/09) em Juiz de Fora (MG), com um livro publicado em 2014 pelo jornalista Ozias Alves Jr?

Nada, absolutamente nada a não ser que na cobertura da rede Globo sobre o atentado e hospitalização do Bolsonaro foi citado um clube de tiro chamado “.38”, com sede em Campinas, São José (SC).

É que o maluco esquerdista fanático que tentou matar o presidenciável, Adélio Bispo de Oliveira, chegou a morar em Santa Catarina e em 5 de julho deste ano de 2018 foi ao citado clube de tiro .38, onde teve uma aula de tiro, segundo informa a imprensa nacional.

Foi apenas uma aula, mas tudo indica que talvez Adélio quem sabe premeditando algo contra os dois filhos de Bolsonaro, Carlos e Eduardo, frequentadores do clube e com amizade com o dono da escola. No dia da aula em que Adélio foi ao clube, os filhos de Bolsonaro não se encontravam no local.

Mas a questão é: o que tem a ver o atentado a Jair Bolsonaro com um livro do jornalista Ozias Alves Jr?

Como dito antes, nada a não ser que no “Parlons xokleng” (Falemos xokleng), livro publicado em 2014 pela editora L´Harmattan, com sede em Paris, França, o autor falou a respeito dessa escola de tiro, do seu dono, Rafael Hoerhan e de uma interessantíssima história ignorada pelo grande público de Santa Catarina a respeito dos índios xokleng, quase massacrados ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX.

Rafael é bisneto do Eduardo Hoerhann (1896-1976), o homem que salvou o povo xokleng do extermínio. Já Rafael (1977-    ) foi o cidadão que salvou a memória desse povo e o palco desse salvamento aconteceu em São José, uma história nunca antes registrada pela imprensa da Grande Florianópolis antes que o JBFoco o tivesse revelado.

Essa singular história encontra-se no livro “Parlons xokleng”, onde inúmeros fatos entrelaçaram-se e formaram uma história singular completamente desconhecida em Santa Catarina.

A escola de tiro .38 já foi tema de reportagens na imprensa da Grande Florianópolis. O JBFoco não foi o primeiro a registrar sobre essa escola. Mas o interessante que as fotos que o referido dono da escola, Rafael Hoerhann, faz questão de estampar no hall de entrada dessa escola nunca chamou a atenção dos repórteres, que não exploraram o assunto. As fotos sobre as quais nos referimentos são do ancestral de Rafael, o já citado Eduardo Hoerhann, o pacificador dos índios xokleng e o protetor dos mesmos do massacre.

Os repórteres sempre focaram suas matérias sobre a escola de tiro em si, mas a reportagem do JBFoco, quando lá visitou em 2014 em busca de informações para o livro e posteriormente para uma reportagem no jornal, fez o contrário: focou na história desconhecida do grande público reveladas através das fotos mencionadas.

Convidamos os leitores a conferirem essa história de Rafael Hoerhann, de seu bisavô Eduardo e como tudo isso convergiu na escola de tiro de São José, que agora ficou famosa nacionalmente por causa do atentado contra Jair Bolsonaro.

Aqui a reportagem, cujos detalhes constam no livro “Parlons xokleng”:

 

Adélio Bispo de Oliveira, o cidadão que esfaqueou Bolsonaro: esta foto foi tirada na escadaria da catedral metropolitana no primeiro semestre deste ano. Parece que foi no dia em que Lula discursou em Florianópolis. (Foto Divulgação)

 

***

 

Diretor de Escola de Tiro de SJ salva a História do Homem que acabou com o maior Genocídio de SC

 

Parlons xokleng. (Foto Divulgação)

 

 

Jovem estava na hora e lugar certos para salvar preciosos documentos históricos

 

O leitor já ouviu falar de Eduardo de Lima e Silva Hoerhann (1896-1976)? Sabe de quem se trata? Tem alguma ideia de quem foi esse homem?

Documentos sobre a vida desse personagem importante da história de Santa Catarina, jogados literalmente às traças numa casa na Praia Comprida, em São José (SC), foram milagrosamente salvos da fogueira de um churrasco por um jovem universitário que literalmente encontrava-se ali “de bobeira”, como diz a gíria.

O ano era 2001. O jovem em questão, na época com 24 anos de idade, era Rafael Casanova Lima e Silva Hoerhann, na época recém formado na faculdade de história pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Seu tio Edmar de Lima e Silva Hoerhann, professor universitário, havia mudado-se para Brasília e resolveu alugou sua casa em São José. Telefonou para o sobrinho neto Rafael pedindo para ele ir à residência recepcionar os inquilinos e verificar como estavam as coisas.

Lá chegando, Rafael encontrou os inquilinos fazendo um churrasco e, num canto, encontrava-se um pilha de papéis velhos, maioria dos quais em estado bem lastimável.

Para acender a churrasqueira, os inquilinos usaram esses papéis encontrados num canto daquela casa. Curioso, Rafael pegou alguns dos papéis para ver do que se tratava, quando percebeu que eram cartas, relatórios, memorandos e outros documentos de seu bisavô, Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, o homem que pacificou os beliciosos índios “bugres” em 1914 e os salvou do genocídio provocado pelos “bugreiros”, um dos capítulos mais negros da história de Santa Catarina. Eduardo foi o diretor da reserva dos índios xokleng por 40 anos, entre 1914 a 1954.

Rafael Casanova Lima e Silva Hoerhann. (Foto Ozias Alves Jr)

Documentos salvos por Rafael estavam neste estado deplorável em 2001. (Foto: Acervo Rafael Hoerhann)

 

QUASE DESTRUÍDOS

Os documentos em questão antes encontravam-se na antiga casa de Eduardo na reserva indígena xokleng, hoje município de José Boiteux, alto vale do Itajaí, interior de Santa Catarina. Eduardo faleceu em 1976 e seu arquivo particular permaneceu na casa até passar por duas enchentes na década de 1980, que danificaram muitos daqueles papéis. Foi então que o citado professor Edmar, filho de Eduardo, levou o material para sua casa em São José até que os mesmos foram salvos pela segunda vez em 2001 por Rafael.

“Não quero julgar a atitude das participantes do churrasco. Os papéis estavam realmente deploráveis. A reação que temos é jogar fora na lata do lixo. Por coincidência, naquela época, recém formado na faculdade de história, estava pensando em que tema iria trabalhar para ingressar no mestrado. Quando li alguns daqueles papéis, a resposta me veio imediata: estão aqui. Foi aí que recolhi todos aqueles papéis, alguns até com traços de baratas e fezes de ratos, sem falar da deterioração provocada pela umidade e pelo fato de terem passado pelas enchentes”, conta Rafael.

 

Painel de fotos da vida de Eduardo Hoerhann (1896-1976), um personagem importante, mais totalmente desconhecido da história de Santa Catarina. Miguel, oriundo da Áustria, era o pai de Eduardo Hoerhann. (Foto Reprodução)

 

 

Índia xokleng com quem Eduardo Hoerhann teve um filho que ganhou o nome de Adolfo. (Foto: Acervo Rafael Hoerhann)

VIDA

Rafael Casanova Lima e Silva Hoerhann, hoje com 41 anos, nasceu em 11 de janeiro de 1977 em Florianópolis.

Nada sabia ele a respeito de seu bisavô Eduardo Hoerhann. “Meus tios avós nem eles mesmos sabiam direito nem falavam do assunto”, conta.

Tanto Eduardo quanto Rafael e vários descendentes conservam o sobrenome “Lima e Silva”. A razão deve-se ao fato de que a mãe de Eduardo era prima de Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), o famoso “Duque de Caxias”, o patrono do Exército Brasileiro. A conservação do sobrenome “Lima e Silva” na família ao longo das gerações tem como objetivo lembrar o famoso ilustre na árvore genealógica.

Eduardo e seu filho mestiço, Adolfo. (Foto: Acervo Rafael Hoerhann)

EDUARDO HOERHANN

Nascido em 1896 em Niterói, Rio de Janeiro, Eduardo é filho de um militar oriundo da Áustria, Miguel Hoerhann, e de Carolina de Lima e Silva, a prima de Duque de Caxias.

Em 1912, aos 15 anos de idade, mas apresentando-se como 20 anos completos, Eduardo ingressou como auxiliar de fotógrafo no recém criado SPI (Serviço de Proteção aos Índios), órgão do governo cujo objetivo era, como o próprio nome dizia, proteger os nativos, principalmente aqueles chamados “bugres”, que vinha sendo exterminados por assassinos contratados principalmente por empresas de colonização, os chamados “bugreiros”.

Em setembro de 1914, Eduardo fez uma proeza. Na região do rio Platte,  hoje município de José Boiteaux, ele tirou a roupa e andou nu até um grupo de índios xokleng que apareceram curiosos perto do posto de atração do SPI (Serviço de Proteção aos Índios).

 

Painel de fotos da vida de Eduardo Hoerhann (1896-1976), um personagem importante, mais totalmente desconhecido da história de Santa Catarina. (Foto: JBFoco)

 

Na vitrine de exposição de armamentos da escola, há uma sessão de pontas de flechas e lanças feitas pelos índios xokleng. (Foto: JBFoco)

 

PACIFICAÇÃO

 

Martinho Bugreiro o mais famoso dos caçadores de índios. (Foto Divulgação)

 

Aqui não é objetivo contar detalhadamente a história dessa abordagem a índios arredios que atacavam e matavam os colonos brancos nas florestas do interior de Santa Catarina e, por sua vez, eram caçados que nem bichos pelos “bugreiros” num espiral de vinganças.

Em resumo, Eduardo, com grande coragem, aproximou-se dos índios para tentar falar com eles. Para provar que não estava com arma de fogo escondida na roupa, ficou nu e aproximou-se. Por pouco não foi morto a flechadas por um dos índios, o mais “barra pesada” entre aqueles silvícolas conhecidos pela ferocidade.

Era o episódio da “Pacificação”. Eduardo conseguiu o primeiro contato amistoso entre brancos e índios “bugres”.

 

Bugreiros e suas vítimas. Martin Bugreiro está com lenço no rosto

 

O HOMEM QUE ACABOU COM O GENOCÍDIO

Dizer que Hoerhann foi o homem que acabou com o maior genocídio da história de Santa Catarina, não foi exagero, nem floreio e muito menos recurso literário. Foi a mais pura verdade dos fatos.

Com a pacificação, Eduardo convenceu os índios a viver numa reserva destinada a eles. Com isso, os “bugreiros” não puderam mais atacá-los. A área era protegida pelo governo federal.

Vale lembrar que dos três grupos de xokleng existentes até o início do século XX, um deles, os angying, que viviam no sul de Santa Catarina, foi completamente exterminado pelos bugreiros.

Se não houvesse o episódio da “Pacificação”, certamente o genocídio teria sido bem maior, pois os “bugreiros” estavam matando quase que em escala “industrial”.

 

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ÁRVORE GENEALÓGICA

A primeira esposa de Eduardo chamava-se Francisca dos Anjos. O casamento ocorreu quando Eduardo tinha 23 anos de idade. Tiveram cinco filhos, um dos quais Generino, que veio a tornar-se o avô de Rafael, o entrevistado.

“Eduardo deu a seu filho, o meu avô, o nome de Generino em homenagem a Generino dos Santos, um intelectual nordestino vinculado ao SPI (Serviço de Proteção aos Índios) e homem forte da política brasileira na época”, conta Rafael.

O casal separou-se e Eduardo veio a casar-se em segundas núpcias com uma dinamarquesa chamada Marlen Brodesen. Dessa união nasceu Edmar Hoerhann, o tio avô de Eduardo, aquele que havia guardado os citados documentos na casa na Praia Comprida, em São José, e salvos por Rafael.

E Eduardo teve uma terceira esposa, uma índia xokleng, com a qual teve um filho chamado Adolfo. Essa índia era a babá do avô de Rafael.

 

Xoklengs contactados por Eduardo Hoerhan. (Foto Divulgação)

 

DRAMAS & DIFICULDADES

A vida de Eduardo Hoerhann como diretor da reserva indígena não foi nada fácil. Em 1918, houve uma epidemia de gripe entre os índios da reserva. A doença, contra a qual os indígenas não tinham imunidade, dizimou 2/3 do grupo original que Eduardo pacificou em 1914.

Como administrador, Eduardo enfrentava frequentes dificuldades financeiras. O SPI não repassava dinheiro suficiente para a compra de produtos necessários à reserva. Isso trouxe constantes conflitos do diretor com os índios.

Outros problemas enfrentados ao longo das décadas em que esteve na direção da reserva foram o alcoolismo e a desintegração cultural.

 

DOCUMENTOS

Ao todo, Rafael conseguiu salvar aproximadamente mil folhas de documentos, entre os quais relatórios, memorandos, poesias e, principalmente, cartas. Eduardo Hoerhann correspondeu com vários intelectuais que pesquisavam indígenas, entre eles Curt Nimuendajú (1883-1945) e Jules Henry (1904-1969).

Para quem é antropólogo, o material dessas cartas é grande fonte de pesquisa.

“Eduardo era poliglota. Falava alemão, inglês, francês, italiano e aprendeu latim. Também falava xokleng, kaingang e guarani. Em algumas das cartas, principalmente na correspondência com o antropólogo norte-americano Jules Henry, Eduardo escreveu várias frases em xokleng, idioma este que Jules conhecia porque fez pesquisa em campo na reserva xokleng na década de 1930. Infelizmente Eduardo nunca escreveu uma gramática do xokleng, que hoje faz falta”, conta Rafael.

Em 2008, Rafael viajou para a Itália, onde aproveitou a ocasião para fazer um curso de conservação de documentos. Aprendeu várias técnicas as quais usou para limpar, restaurar e organizar o material que salvou daquele churrasco de 2001.

 

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MESTRADO E DOUTORADO

Rafael uniu literalmente o útil ao agradável. Em primeiro lugar, salvou os documentos. Em segundo lugar, estava aí o material de primeira com o qual redigiu sua dissertação de mestrado e tese de doutorado em história. Em terceiro, era um mergulho na história de sua própria família.

Sua dissertação de mestrado foi intitulada “O Serviço de Proteção aos Índios e os Botocudo: A Política Indigenista através dos Relatórios (1912 – 1926) “. Foi defendida em 2005.

Já em 2012, conclui sua tese de doutorado em história, pela UFSC, intitulada “O Serviço de Proteção aos Índios e a Desintegração Cultural dos Xokleng (1927 – 1954)”

CLUBE DE TIRO

Fora os estudos acadêmicos, Rafael é instrutor na escola de tiro fundada em 1992 por seu pai, o delegado de polícia, Tim Omar de Lima e Silva Hoerhann. Chama-se “Clube e Escola de Tiro 38”, em São José.

“A escola foi fundada para atender o público daqueles que compravam armas para defesa pessoal, mas não tinha onde aprender a tirar e treinar”, conta Rafael, hoje diretor da instituição.

Como dito antes, a escola surgiu em 1992. Já o clube, com enfoque às competições de tiro, foi fundado em 2002 e ocupa as mesmas instalações da escola.

Quem quiser ingressar no clube, é submetido a um cadastramento rigoroso. “Pessoas que respondem processos criminais ou têm registros por violência não são aceitadas”, enfatiza Rafael.

Escola possui seis estandes para treinamento de tiro. (Foto: JBFoco) 

 

Clube 38, escola e clube de tiro, comercializa armas de todos os tipos e calibres. (Foto: JBFoco)

 

AULAS

O Clube 38 é pioneiro no estado de Santa Catarina e por ele já passaram 10 mil alunos.  Quanto a cursos, há diversos e dos mais variados tipos de armas. Os cursos são geralmente de 6 a 15 horas de aulas.

A escola possui seis boxes para treinamento de tiros a distâncias entre 3 a 20 metros.

A instituição administrada pela família de Rafael treina policiais e um irmão do entrevistado, Tony Eduardo, é instrutor de artes marciais defensivas.

Mais informações pelos fones (48) 9949-8605 e (48) 3241-3820 ou pelo site www.clube38.com.br.

O endereço é: “Clube e Escola de Tiro 38”, rua Altamiro di Bernardi, 22, Campinas, São José.

 

BOLSONARO

E finalmente, eis que a escola em questão acabou chamando a atenção da imprensa nacional por causa do fato, conforme já dito antes no início deste texto, do cidadão “esquerdopata” que esfaqueou Jair Bolsonaro ter ido à dita escola uma vez neste ano.

Outra informação: Tony Eduardo Hoerhann é amigo da família Bolsonaro no Rio de Janeiro. Se não estivermos enganados, Tony mora no Rio de Janeiro e lá fez carreira nas artes marciais.

O homem que tentou matar Bolsonaro não tem passagens pela polícia em Santa Catarina, mas a escola não aceitou sua inscrição por ele ter um registro de violência doméstica em Minas Gerais, segundo informa a imprensa estadual.

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