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Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

Como despertar o interesse dos catarinenses “brancos” a aprenderem idiomas indígenas como o guarani mbyá, xokleng e kaingang?

Essa pergunta apareceu numa conversa entre o redator deste artigo e seu grande amigo, o professor Caio de Cápua, que vem empreendendo uma pesquisa inédita sobre a religião dos índios guarani mbyá da aldeia de São Miguel, Biguaçu.

A questão é: se alguém conseguir escrever um livro intitulado “Aprenda Guarani Mbyá sem mestre”, incluindo áudio, por exemplo, será que conseguirá editora para publicar a obra?

Em Santa Catarina, não há editoras que bancam autores. Acontece o contrário. É o autor que tem de pagar para que sua obra seja impressa.

Isso simplesmente emperra o mercado editorial. Quantos novos autores, entre literários e escritores de assuntos técnicos, simplesmente não publicam por sequer terem a perspectiva de serem remunerados?

Dentro deste cenário, Caio, que está redigindo um excelente livro sobre o resultado de suas pesquisas sobre a espiritualidade dos guarani mbyá, certamente terá de buscar fontes alternativas de financiamento para viabilizar sua publicação que, diga-se de passagem, explora um tema inédito dentro do cenário cultural catarinense.

Conversa vai, conversa vem, cometei a Caio que Santa Catarina possui três etnias indígenas, há quase uma centena de estudos acadêmicos sobre tais índios nas universidades catarinenses, mas, paradoxalmente, não há um só livro que ensine os idiomas desses povos minoritários.

Nada, absolutamente nada. Detalhe: existe até doutores em antropologia especialistas nesses índios, mas ignoram os idiomas nativos justamente por falta completa de obras de aprendizado dessas línguas.

Em resumo: em Santa Catarina sabe-se mais sobre inglês, francês, alemão, italiano e espanhol do que sobre línguas nativas locais.

 

FRANÇA

Na França, não se fala apenas o francês. Há outras línguas regionais pertencentes a várias famílias linguísticas. Por exemplo, há um dialeto alemão chamado Alsaciano falado na região da Alsácia e Lorena, uma língua celta, o Bretão, da província da Bretanha (daí o nome), sem falar de um dialeto italiano chamado corso, da ilha da Córsega (idioma nativo do famoso Napoleão Bonaparte), do ocitano (o “catalão” francês) e do basco, um exótico idioma do norte da Espanha com falantes no sul da França.

O cidadão francês que quiser aprender essas línguas, pela razão que seja, basta ir à livraria mais próxima. Naquele país há uma profusão de livros, métodos, dicionários, gramáticas, manuais desses idiomas minoritários mencionados. E um detalhe: geralmente os livros já vêm acompanhados de fitas cassetes e CDs.

Em Santa Catarina, não acontece o mesmo. Nas poucas livrarias do estado (algo inexistente nos municípios da comarca de Biguaçu, diga-se de passagem), não encontramos à venda manuais de guarani, xokleng e kaingang, como também de uma infinidade de idiomas minoritários tanto do Brasil como dos países vizinhos. Quem quiser ter a experiência francesa semelhante de estudar idiomas exóticos no conforto de casa, com belos livros e áudios impecáveis, esqueça.

 

MANUAIS

Comentei a Caio como seria interessante se alguma editora lançasse manuais de aprendizado de idiomas indígenas catarinenses, mas não podemos ter ilusão. Conforme já visto, o mercado editorial brasileiro é fraco, o ensino é problemático e o público culto é bem reduzido.

Além disso, há outro detalhe. Uma coisa é lançar um livro tipo “Aprenda Inglês Fácil” com áudio. Afinal de contas, saber inglês é muitas vezes um diferencial para conseguir bons empregos. Daí a abundância desse tipo de publicação não só em livrarias como também em bancas de revista.

Outra coisa é publicar um “Aprenda Kaingang”. Uma obra dessa pode interessar a universitários, mas não o grande público, pois logo vem a pergunta utilitária: “O que eu vou ganhar aprendendo kaingang?”

Tem razão. Quer queira, quer não, os três idiomas indígenas catarinenses são falados por uma minoria. Os falantes de guarani mbyá, kaingang e xokleng juntos não somam 11 mil almas, o equivalente mais ou menos a 1/7 da população de Biguaçu, por exemplo.

Dentro de um cenário desses- falta de um público geral mais escolarizado tal como na França e dificuldades de publicação por “n” fatores, como vislumbrar a possibilidade de ter algum sucesso num lançamento de livros tipo “Aprenda Guarani, Kaingang e Xokleng”?

 

RELIGIÃO

Talvez a resposta seja esta: resgatar as religiões nativas. Os guarani mbyá, kaingang e xokleng, que são três povos totalmente diferentes, possuem religiões nativas completamente diversas. Para o leigo, “é tudo índio”, mas para o conhecedor, não é bem assim tal como alguém quisesse afirmar que português, alemão e italiano “são a mesma coisa”.

Um livro de ensino de idiomas indígenas catarinenses talvez teriam algum sucesso de público (ou encontrar um nicho ainda não explorado) se os mesmos serem também guia de iniciação das religiões nativas correspondentes.

Para que aprender guarani mbyá, kaingang e xokleng? Certamente a resposta seria: iniciar-se nas religiões nativas.

Nascido católico apostólico romano como todo bom descendente de italianos, o professor Caio de Cápua, 54, paulista do bairro de Moêmia, em São Paulo capital, está fazendo o caminho contrário.

Por séculos, os “brancos” converteram os índios para o cristianismo. Caio está buscando o caminho contrário: convertendo-se à religião indígena.

Tal como ele, um expressivo número de “brancos” está buscando a espiritualidade junto aos indígenas.

Dentro desse cenário, livros ensinando línguas indígenas teriam melhor chance de conquistarem uma fatia do público e viabilizarem-se comercialmente sem precisar dos escassos patrocínios se estiverem concebidos como manuais introdutórios das religiões nativas.

No precário cenário editorial brasileiro, livros de astrologia, numerologia e espiritualidade têm boa circulação porque atendem nicho específico de leitores simpatizantes.  Manuais de idiomas indígenas mesclados com religião certamente terá uma boa chance de se viabilizar como também crescer nesse nicho. Afinal de contas, no final dos livros, os estudantes seriam capazes de traduzir o rico cancioneiro religoso dos indígenas, onde a “Bíblia” dessas religiões é recitada.

Independente se é uma “viagem” ou não, o fato é que existem línguas indígenas sem a devida divulgação, que representam culturas minoritárias interessantíssimas, mas desconhecidas pelo grande público e é um nicho que o mercado editorial catarinense não explora nem tem ideia dessa ausência.

Vamos deixar bem claro: é uma ideia. Pode viabilizar-se como também não. É o registro de uma possibilidade.

 

Caio de Cápua. (Foto: Divulgação)

 

Ritual na Opy, a casa de reza dos índios guarani de Biguaçu. (Foto Caio de Cápua)

 

Ensinando a cultura indígena nas escolas. (Foto Divulgação Caio de Cápua)

 

Livro francês que ensina idioma minoritário daquele país. (Foto Google Images)

 

Outro livro muito popular que ensina idioma minoritário francês naquele país. (Foto Divulgação)

 

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