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João Cândido da Silva, popular “João Dedinho”, foi um dos figuras folclóricos mais conhecidos de Biguaçu no século XX. Inspirou Salim Miguel (1924-2016), um dos mais famosos romancistas da literatura catarinense e que viveu em Biguaçu nos anos 1930 e 40, a transformá-lo em personagem de seus livros. Alfaiate de profissão, Dedinho atuou como delegado de polícia por muitos anos. Faleceu em 29 de dezembro de 1991, aos 82 anos de idade.

Nascido em Biguaçu em 6 de junho de 1909, João Cândido ficou órfão de pai cedo. Com a família na penúria, Dedinho acabou sendo criado por seu padrinho Olívio Januário de Amorim, que se tornaria mais tarde prefeito de Florianópolis.

Mudando-se para a capital, João aprendeu alfaiataria na antiga Escola de Artífices. Aos 18 anos, em 1927, montou sua oficina no Estreito, Florianópolis. Passou a cuidar da mãe e dos quatro irmãos menores.

Casou-se com Julieta Meira da Silva, irmã do ex-prefeito de Biguaçu, Alfredo Álvares da Silva (1931-1943), popular “Fedoca”. Teve dois filhos: Jair (popular “Ica”) e Janir Silva.

Mudou-se para Biguaçu. A oficina de alfaiataria em que trabalhou por muitas décadas continuava de pé até o início dos anos 2000, antes de ser demolida e virar o pátio da locadora de automóveis de Marconi Kirch. Nos últimos tempos, trabalhava nessa alfaiataria seu filho, Ica, na rua João Pessoa, em frente ao antigo posto São Miguel.

Em outubro de 1930, estourou a revolução que colocaria Getúlio Vargas no poder. Tropas de revoltosos gaúchos invadiram Santa Catarina em direção ao Rio de Janeiro. Objetivo: derrubar o presidente. Getúlio era o líder do partido Aliança Liberal, sigla dos revoltosos. O pai de criação de João Cândido, Olívio Amorim, era um dos líderes da Aliança Liberal em Florianópolis.

O então governador de Santa Catarina, Fúlvio Aducci (1884-1955), acionou o exército e a polícia para organizar a resistência em Florianópolis e na vizinha Biguaçu contra os revolucionários gaúchos. Estes entraram pelo interior de Biguaçu para atacar a capital. Por ordem de Olívio, João Dedinho, na época com 21 anos, ia até Biguaçu para informar os membros da Aliança Liberal local sobre as manobras da polícia que poderia aparecer a qualquer momento para prendê-los.

Biguaçu viveu momentos tensos em 1930 presenciados por João Cândido. Soldados cavaram trincheiras em Biguaçu para esperar o ataque dos gaúchos. A população apavorada fugiu para o interior do município. Dedinho encontrava-se no alto do Morro do Caseca, perto de onde hoje fica a Igreja Evangélica do Prado e também perto da antiga ponte que havia sobre o rio Biguaçu, quando saiu de lá corrido no momento em que navios de guerra fundeados na vizinha baía norte atiraram na direção da cidade. Choveram tiros de canhão, mas ninguém morreu porque Biguaçu estava quase totalmente vazia. Florianópolis rendeu-se e a Revolução de 30 acabou naquele mesmo mês de outubro de 1930.

Dedinho tornou-se delegado de Biguaçu. No início dos anos 1940, João participou da repressão policial contra os descendentes de alemães. Era a 2ª Guerra Mundial. Falar alemão era proibido e suspeitava-se haver nazistas na região. Passados esses anos tumultuados, Dedinho montou, em sociedade com Ewaldo Traebert (1913-1997, considerado o primeiro dentista de Biguaçu, mas, na realidade, foi o segundo ou terceiro, não se sabe direito), um engenho de serra na praia de Palmas, na época uma floresta ainda virgem. Foi lá que João Cândido pegou tifo e quase morreu dessa doença.

Sócio fundador da Sociedade Recreativa 17 de Maio, surgida em 17 de maio de 1932, Dedinho foi nomeado juiz de paz de Biguaçu em 1980. Fã de Getúlio Vargas (1882-1954), foi o fundador do PTB biguaçuense.

Seu filho Ica conta que Dedinho era contra o racismo. Participava até de bailes das “pessoas de cor”, conforme sua expressão. Mas até os anos 1960, os negros não podiam entrar em bailes de brancos. “Mas um dia Biguaçu teve um prefeito mulato- Antônio de Pádua Pereira (1943-1947). Era casado com uma branca. Ele e a esposa iam aos bailes do 17 de maio e ninguém podia barrá-lo porque, afinal, ele era o prefeito”, observa Ica. “O salão de danças dos pretos era do Tio Eusébio, no Prado. O baile principal acontecia em 26 de junho, dia de Santana, o padroeiro deles”, conta.

Boêmio e caçador de veados nas matas de Biguaçu de outrora, para as quais ia com seus amigos Joca Sardá e Ném, João tinha o apelido de “Dedinho” devido a uma deformidade nos dedos das mãos: “Minha avó contava que, quando estava grávida de meu pai, viu um papagaio com a pata terrivelmente acorrentada. Ficou com pena e tirou a corrente. Por coincidência, meu pai nasceu com o defeito na mão direita pelo qual ficou conhecido”, relembra Ica.

 

João Dedinho. (Foto Arquivo JBFoco)

 

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