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Certa vez meu amigo, o professor paulista, Caio de Cápua, pesquisador da religião dos índios guarani mbyá de São Miguel, Biguaçu, e criador de um curso de profissionalização de bandas, falou-me a respeito de uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo sobre empresas que faziam seleção de emprego analisando as preferências musicais dos candidatos.

Sim, a entrevista de emprego é baseada nas respostas dos candidatos a perguntas como “qual música você mais gosta?”, “qual seu cantor preferido?”, “qual é a canção que mais se identifica com você?” etc.

Parece “loucura”, mas os gostos musicais podem não só revelar a personalidade do candidato como também se o cidadão tem ou não ambição e potencial de crescimento.

E no mundo ultra, mega e absurdamente competitivo da maior metrópole da América do Sul, São Paulo, se o candidato a uma simples vaga de estágio de trainee de uma multinacional disser que escuta sertanejo universitário, que adorava Sandy e Júnior na adolescência e emociona-se ao escutar Gusttavo Lima sem parar, talvez seja dispensado na hora, nem mesmo podendo participar das etapas seguintes da seleção.

Como diz o ditado, “gosto não se discute”. É verdade. No entanto, trata-se de uma desculpa por desistir em mergulhar na filosofia para tentar descobrir as profundezas da questão do “gosto” e como definir em termos universais o que é “bom” e o que é “ruim”, algo que as pessoas tentam fazer no nível do subjetivo.

 

Cena do local do acidente que vitimou o cantor sertanejo, Gabriel Diniz. (Foto Divulgação Whatsapp)

 

Corpo do cantor Gabriel Diniz sendo retirado dos escombros da tragédia. (Foto Divulgação Whatsapp)

O falecido filósofo natural de Antônio Carlos, Evaldo Pauli (1925-2014), publicou em 1963 seu livro intitulado “Tratado do Belo”.

O objetivo da obra foi descobrir como definir se tal “coisa” (quadro, paisagem, arquitetura, romance, MULHER etc, etc, etc) é “bonita” ou “feia”? Afinal de contas, que critérios científicos podemos afirmar que Gisele Bündchen é mais bonita que a atriz Umma Thurman e a apresentadora da rede Globo, Maju Coutinho ou vice-versa?

É uma questão complicada. Aliás, o livro “Tratado do Belo”, cujo exemplar eu mesmo doei a pedido do autor à Biblioteca de Biguaçu e espero que lá esteja caso não tenha sido “jogado fora” após a última “limpeza” feita no local, apresentou uma resposta para entender o fenômeno. Esta foi uma equação matemática. Quanto mais próximas as medidas dos números dessa equação, mais “bonito” torna-se o objeto.

Isso explica aquele impasse quando analisamos mulheres completamente diferentes tanto de altura, peso, idade, feições, entre outras características. São consideradas “belas”, apesar de tão diferentes. Na realidade, a constatação dos vários graus do belo está intimamente próxima à quão próximas estão elas nos números centrais da já citada equação matemática.

Mas o que isso tem a ver com a música? Como definir o belo ou comparar uma sinfonia de Mozart, uma canção dos Beatles, a “Garota de Ipanema” de Tom Jobim e “Jenifer” de Gabriel Diniz?

Na segunda-feira desta semana (27/05) morreu o cantor sertanejo ou que definição que seja, Gabriel Diniz (1990-2019), aos 28 anos de idade, vítima de um acidente aéreo. É a segunda celebridade sertaneja a morrer em circunstância trágicas. Vale lembrar Cristiano Araújo, morto num acidente de trânsito em 2015.

Lamentável presenciarmos a morte de um jovem que tinha toda uma vida pela frente e, quem sabe, uma carreira de sucesso sem limites.

Mas desculpe-nos os fãs de Gabriel Diniz, mas realmente a música “Jenifer”, o “estrondoso” sucesso do falecido, é um “fenômeno”: como uma canção “tosqueira” alcançou sucesso na boca de milhões de fãs pelo Brasil inteiro cantando “O nome dela é Jenifer/ Eu encontrei ela no Tinder/ Não é minha namorada/ Mas poderia ser/ O nome dela é Jenifer”.

Nos anos 1980, os gostos musicais da garotada eram diferentes. O sertanejo ou o nome que tenha era considerada música de “baixo clero”, isto é, de gente muito pobre. A garotada gostava de rock, que na época dividia-se em várias categorias divergentes cujas extremidades eram a Pop Music/New Wave no topo e o Heavy Metal no mais profundo submundo.

Gostar de sertanejo estava associado a querer ser “mané”, ficar paralisado a uma limitante mediocridade. Já o rock era ligado à criatividade e a um certo grau de ambição.

Vale lembrar que os anos 1980 representaram a época de maior variedade e extraordinária criatividade da música jovem brasileira. Que o digam o Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, RPM, Capital Inicial, Blitz, Barão Vermelho, Cazuza, Kid Abelha, Kid Vinil, Lulu Santos, Engenheiros do Hawaii, Sepultura, entre outros!

É impressionante como o cenário musical modificou. A juventude de 2019 em sua esmagadora maioria aprecia…sertanejo universitário (!!!)

O falecido Renato Russo (1960-1996), líder do Legião Urbana, compôs inúmeras canções inspiradas em leituras de clássicos da língua inglesa. O rebelde Cazuza (1958-1990), que iniciou a breve carreira no Barão Vermelho, não era alguém de pouca instrução e alguns de seus sucessos foram inspirados nas suas leituras. Sim, Cazuza poderia ser o “maluco” que fosse, mas não era um analfabeto.

Já o sertanejo universitário de hoje não tem comparação à música jovem brasileira da década de 1980. Não tem a qualidade estética tanto na melodia em si como também na inspiração de suas letras. É notoriamente uma música de pobreza estética latente, talvez até mesmo sem exceções à regra. Reflete inclusive o analfabetismo, as poucas leituras e a falta de ambição intelectual em todos os sentidos.

A sensação é a de que o sertanejo universitário é a trilha sonora da decadência do Brasil. Se ninguém provar o contrário, jovens de sólido currículo universitário e agora trabalhando tanto em seus projetos ou para grandes empresas não escutam sertanejo universitário em seus carros deslocando de manhã de casa para o trabalho. Aliás, dependendo do nível educacional e das oportunidades a que têm acesso os ouvintes, o gosto musical reflete  tal nivelação.

Ao invés do Brasil ter se tornando um país de economia sólida, com jovens instruídos e de oportunidades de crescimento intelectual e empresarial, fomos como país para o caminho contrário.

Como disse certa vez Monteiro Lobato (1882-1948), “um país se faz com homens e livros”. Podemos até mesmo completar: “e homens que lêem apreciam músicas de acordo com seu nível de formação”.

 

Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

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