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Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

Como era Biguaçu no século XIX? Raríssimos são os documentos que descrevem com minúcias como era o município naquele tempo, mas há um instigante, de um médico alemão chamado Robert Christian Bertold Avé-Lallement (1812-1884), que em 1858 passou por Biguaçu em uma viagem pelo sul do Brasil. Sobre suas andanças, escreveu mais tarde um livro intitulado “Reisen nach Südbrasilien”, que mais tarde seria traduzido para o português com o mesmo título traduzido “Viagem pelo Sul do Brasil”.

Quem era esse médico Robert Avé-Lallemant? O falecido padre Raulino Reitz (1919-1990) conta em seu livro “Alto Biguaçu- Uma narrativa Tetrarracial” (Editora Lunardelli/ UFSC, 1988) que Lallemant foi o médico que atendeu o grupo de imigrantes alemães em que estava seu bisavô quando chegou ao Rio de Janeiro rumo a Santa Catarina em 1846.

Lallemant clinicou nas décadas de 1840 e 1850, no Rio de Janeiro. Retornou à Alemanha em 1854 e retornou ao Brasil para realizar sua viagem de estudos que se iniciou no Rio Grande do Sul e acabou em São Paulo, passando em Santa Catarina e Paraná.

Montado a cavalo e percorrendo picadas na mata, o médico visitou várias colônias de imigrantes alemães em Santa Catarina. Antes de chegar a Biguaçu, o alemão pernoitou na Praia Comprida, São José, onde hoje é o bairro comercial de Kobrasol. Era 5 de julho de 1858.

Robert Christian Barthold Avé-Lallemant (1812-1884) esteve em Biguaçu em 1858 e registrou a passagem em seu livro de viagens. (Foto: Google Images)

VIAGEM

Na época, conforme relatou Lallemant em seu livro, Praia Comprida era povoada por colonos alemães vindos de São Pedro de Alcântara, Santo Amaro da Imperatriz e do interior de Biguaçu que comercializavam produtos agrícolas na capital Desterro. Em seu livro, ele descreveu detalhes sobre os colonos como o idioma: ” (…) de Biguaçu e alguns alemães da própria Praia Comprida; ouviam-se os mais diversos dialetos alemães, mas, predominava o do Palatinado; e se eu não tivesse estudado em Heidelberg e, como estudante, não tivesse percorrido a Baviera Renana em todas as direções jamais teria compreendido os meus bons compatriotas“. Claro, os colonos falavam o dialeto alemão Hunsrück. Antes de prosseguir. Heidelberg é uma cidade do sul da Alemanha. Já a Baviera, como também o “Palatinado”, são províncias do sul daquele país e “renana” quer dizer “rio Reno”, cuja boa parte da extensão é a fronteira entre a Alemanha e a França. Hunsrück situa-se próximo à fronteira francesa e é banhado pelo rio Reno.

Era manhã de 6 de julho de 1858 quando Robert Lallemant partiu rumo a Biguaçu. Sobre isso, relatou: “Na manhã seguinte, às oito horas, depois de combinado o encontro com o filho de Adão (seu hospedeiro em São José) em Biguaçu, parti com o meu jovem companheiro alemão por montes e vales e em pouco nos encontrávamos num gracioso mundo de vergéis. Os ramos bem enfolhados dos cafeeiros curvavam-se sob o peso das bagas verdes, as laranjeiras brilhavam com milhares de bolas douradas nos galhos, os pessegueiros tinham flores purpurinas e mostravam a condição das terras baixas de Santa Catarina no hibernal mês de julho”.

 

DIÁRIO

Em seu diário, o médico registrou muitos detalhes sobre a viagem pelas terras de Biguaçu- a exuberância das florestas nativas da região, a abundância de animais e o povo das redondezas. A estrada que percorreu ainda existe até hoje! Trata-se da estrada do Louro, hoje interior do município de Antônio Carlos. Aliás, a maioria das estradas que existem hoje surgiu de picadas na mata do século XIX.

E passando pela estrada ao lado das margens do rio do Louro, Robert Lallemant assim assinalou em seu livro: ” (…) no límpido rio do Louro, há muita coisa a ser cultivada e muitas machadadas são ainda necessárias antes que todo o território aproveitável seja retirado do estado primitivo. (..) Em breve chegávamos ao Biguaçu, onde desemboca o Louro. Viajamos sobre prados que se estendem nas suas margens até lobrigarmos do outro lado, no sopé do monte, uma casa branca e uma estância. Lá deveríamos encontrar o jovem Schüttel (19), que me conduziria ao Tijucas, situado ao norte, e à sua colônia“.

E antes de ir embora, o médico parou numa vendola (isso já existia no fim de mundo que era o interior de Biguaçu no século XIX) onde reconheceu o proprietário, um colono chamado Michael Koch. Lallemant havia operado esse homem 12 anos antes no Rio de Janeiro quando o navio que o trazia aportou naquela cidade, então capital do Brasil. Koch viajava na mesma embarcação que trouxe o bisavô do famoso historiador Raulino Reitz (1919-1990) para Santa Catarina. Robert salvou a vida de Michael Koch e o encontro entre os dois foi um mar de gentilezas e agradecimentos.

E seguindo rumo a Tijucas, Robert Lallemant passou por Biguaçu. Comentou sobre “a bela ponte sobre o rio Biguaçu“. Quando lia isso, fiquei torcendo mentalmente: entre no lugarejo! Mas o médico seguiu reto. Torcia para que o aventureiro entrasse no lugar, descrevesse como era o vilarejo, conversasse com algum morador, comentasse alguns detalhes sobre a cidadezinha. Porém, nada. Fiquei na curiosidade. Se fosse possível percorrer Biguaçu de 1858 num sonho, certamente olharia cada detalhe da cidade tal como muitos historiadores fariam se tivessem tal oportunidade de contemplar como eram exatamente os lugares históricos por onde passaram seus personagens alvos de seus estudos.

Apesar dessa “frustação”, Robert Avé-Lallemant, no entanto, faz um precioso relato sobre uma família, uma das pioneiras da colonização do interior de Biguaçu. Ora, se não fosse o viajante, não teríamos mais algumas outras informações sobre gente simples do povo a não ser o nome constado em registro de imóveis ou em certidões de nascimento, batizado ou morte, se é que tais documentos não tiverem desaparecido. Afinal, sobre pobres ou gente simples, pouco se escreve a respeito, imagine no século XIX.

Antes de seguir viagem rumo a Tijucas, o médico ficou hospedado na noite de 12 a 13 de julho de 1858 na fazenda de Manoel José Ferreira, em Alto Biguaçu. Dentro das condições do século XIX, Manoel não era considerado um homem pobre, mas sua descendência não teve sorte melhor. Mas se não fosse o relato de Avé-Lallemant, pouco saberíamos sobre aquele que foi um dos pioneiros na colonização do vale do rio Biguaçu.

 

MANOEL FERREIRA

Quando o médico hospedou-se na fazenda de Manoel Ferreira, o dono da casa não estava. Encontrava-se na ocasião vistoriando uma outra fazenda sua situada na serra da Boa Vista, hoje no município de Rancho Queimado. Mas por simples recomendação de amigos, a família hospedou o estrangeiro. Era a esposa de Manoel Ferreira, um filho e três filhas. Robert jantou com a família e passou horas conversando com eles. As moças queixaram-se do isolamento da casa da família, situada no meio da mata, sem qualquer vizinho por perto, senão a muitos quilômetros de distância. Robert assim comentou sobre o episódio: “Não creio que geralmente, na Alemanha, quando se chega como pessoa inteiramente estranha, se ache semelhante recepção e que jovens damas se comportem e conversem com tanta habilidade e desembaraço com as duas moças do Biguaçu”.

 

ASSASSINATO

Sobre Manoel Ferreira, comentado nas memórias de viagem de Robert Avé-Lallemant, padre Raulino Reitz comentou em um artigo intitulado “Pioneiros no povoamento do Alto Biguaçu”, publicado na revista “Notícia História e Descritiva de Biguaçu” (1983). “Um episódio, que a memória popular guardou no município de Alfredo Wagner (ex-Barracão) e alguém atribui a Manoel José Ferreira, que realmente, como acima vimos, era dono de uma gleba na Boa Vista: Balduíno Belmiro Rosa (n.1904) ouviu contar, em Alfredo Wagner, que um fazendeiro abastado, acompanhado de um escravo, enterrou um baú com moedas num campo, na Serra da Boa Vista. O escravo incontinenti foi morto para não revelar o lugar do guardado.

O trato com seus escravos era cruel. Silvestre Pauli (n.1899) contou que Ferreira criava negrinhos para vender como animais e que cangava os pretos na manjarra. Amarrados no tronco, surrava-os a laço de couro e atiçava neles os cachorros. O Livro  de Nascimento de Escravos da Freguesia de São Miguel registra para Manoel Ferreira entre 1846 a 1862, os escravos seguintes: Adão, Antônia (matriz), Rita Crioula (matriz), Joaquim, Maria, Eufrázio e Fernando”.

Vale ressaltar que informações sobre escravos são raridades. Afinal, em 1890, dois anos depois da abolição da escravatura, o governo brasileiro mandou que fosse queimada em todo país tudo que se encontrasse de documentação referente a registros de escravos. Afinal, temia-se que o decreto que abolia a escravatura pudesse ser revogado e os antigos proprietários reivindicassem a posse dos escravos e descendentes baseados naqueles documentos. Do fogo, salvaram-se raríssimos desses documentos, material precioso através do qual os pesquisadores poderiam reconstituir com mais precisão a história de séculos de escravidão negra no Brasil. Raulino Reitz teve a sorte de localizar o registro dos escravos de Manoel Ferreira, cuja informação elucidou-lhe na pesquisa.

E sobre a morte de Manoel Ferreira, Raulino Reitz assim comentou: “Manoel José Ferreira teve um fim trágico. A professora aposentada Hilda Farias Reitz (n. 1915), aparentada com a vítima – sendo Manoel tio de Belisário Ferreira Farias, avô de Hilda – conta que o genro aliciou o escravo de estimação do sogro, para matá-lo, prometendo-lhe de presente uma mula ajaezada em prata. Silvestre Pauli (n. 1899) confirma essa narrativa. Balduíno Belmiro Rosa (n. 1904) conta a mesma história, afirmando, no entanto, ter sido a própria filha a mandante do crime. Escravo da estima do senhor era o único que o acompanhava nos rodeios e viagens, montando também uma mula, fazendo de guarda-costas. O preto iludido pela promessa acima referida, pois sonhava com um lindo animal encilhado, tramou a traição. Na primeira espera a espingarda não detonou. Em segunda tentativa, com um tiro derrubou da mula o seu dono. A vítima, suplicando que não o matasse, prometeu ao escravo a metade de suas terras. Enfeitiçado pela promessa do ginete com arreio de prata, o escravo detonou mais um tiro…mais outro…Voltou e disse ao casal parricida: “Tarefa cumprida”. O mandante entregou o escravo à justiça. Ele foi imediatamente preso, passando o resto da vida em grilhões. Pesada corrente o mantinha preso a um peso”.

E no livro “Alto Biguaçu”, Raulino transcreveu a notícia de jornal que conseguiu localizar sobre a morte de Manoel Ferreira.

 

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