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Louis Isidore Duperrey. (1786-1865). (Foto Google Images) 

Francês nascido em 1786 e falecido em 1865, Duperrey passou pela ilha de Santa Catarina em 1822.

Sobre São Miguel, registrou em seu livro “Voyage autour du monde, execute par orde du Roi,…” (Viagem ao redor do mundo, executada por ordem do Rei…) (1827):

O senhor intendente da marinha nos deu uma demonstração de sua cortesia pela prontidão com que se empenhou em nos fazer expedir uma recomendação ao dono do armazém da Freguesia de São Miguel, anexando uma carta expressa permitindo ao nosso chefe-carpinteiro escolher as peças de madeira próprias para a construção das duas travessas do cesto da gávea, que precisam ser trocadas.” (Pág. 251)

Como o leitor pode notar, São Miguel fornecia água e madeira para os navios que aportavam na Ilha de Santa Catarina.

Mais adiante, Duperrey faz uma descrição mais detalhada.

 

Avançando-se para o Sul, ao longo da costa, encontra-se a Vila de São Miguel, notável por um moinho de água e uma linda cascata. Escutemos M. Lesson que a visitou muitas vezes nas caminhadas penosas a que lhe arrastara ao seu ardor pelo progresso das ciências naturais.

“A Vila de São Miguel, diz ele, é situada a O.S.O. a cerca de umas seis milhas do forte de Santa Cruz.

Esta se compõe de uma série de casas distantes umas das outras.

Na sua entrada fica a aguada, onde os navios se abastecem. Esta é fresca e límpida e vem das montanhas vizinhas por meio de um aqueduto de madeira que conduz a água sobre os cubos de uma larga roda externa de um moinho que serve para debulhar o arroz.

É muito fácil fazer aguada neste lugar, pois é só estender o recipiente onde ela cai sob a roda e donde a mesma escoa até o mar, que está a mais de 50 passos.

Pode-se, ainda encher os depósitos de água de uma chalupa, servindo-se de um conduto de tela ou couro.

A costa apresenta um grande número de fontes que deságuam no mar, escoando por riachos pouco profundos e saibrosos, que não poderiam servir para aguada, ainda que suas posições sejam próximas do ancoradouro.

Não longe do moinho de arroz, corre um pequeno rio, cujas margens são baixas e submersas. As casas que constituem o vilarejo são particularmente dispostas em duas fileiras muito espaçadas; em seguida o terreno sobe e desce e as casas isolada não ultrapassam uma pequena cadeia que se dirige de leste a oeste. Nos vales estão estabelecidas algumas moradas, cujos arrededores são verdadeiramente muito atraentes. As montanhas desta parte são muito elevadas; como em toda parte, aliás, um verdor ininterrompido as  reveste.”(Páginas 257 e 258).

 

Em seguida, vem talvez a primeira descrição do vilarejo de “Biguaçu”, apesar de que o autor não deu nome algum, mas trata-se de Biguaçu, que já era povoado naquele 1822, por coincidência, o ano da independência do Brasil

 

“Seguindo em direção ao sul, encontra-se um lugarejo que tivemos ocasião de visitar a fim de escolher as peças de madeira necessárias a nossos reparos. As casas, algumas construídas com pedras, estão largamente espalhadas à beira do mar, próximas de um regato.

Encontramos um aprovisionamento de madeira de construção bastante considerável. Diversos estaleiros estão ali abastecidos no fabrico de pranchas. Constroi-se, para a navegação das costas pequenos navios que os brasileiros designam pelo nome de “Sumacas”.

Vastos arrozais ocupam as terras circunvizinhas, que são baixas e pantanosas. Mais além está um agradável vale guarnecido de choças inteiramente branqueadas pela cal que reboca as suas paredes, cercadas de laranjais e plantações de café.

É próximo dali que se lança no mar o rio Biguaçu, cuja embocadura pode ter de 40 a 50 toesas de largura; ele é navegável por barcos até várias léguas pelo interior. Este rio, antigamente chamado “rio dos Patos”, servia de limite para com os índios do mesmo nome, que se estendiam até o “rio São Pedro” e com os índios Carijós, que ocupavam as terras setentrionais até Cananea.” (pág. 258)

 

Continua a descrição, desta vez do povo de Biguaçu:

 

“Em nossas inúmeras incursões, fomos frequentemente acolhidos pelos nativos. Muitas vezes descansamos em suas cabanas: bastava apresentarmo-nos frente a suas portas para que recebêssemos o convite; sua hospitalidade era sempre generosa. Eles não são ricos, mas possuem o necessário.

O peixe fresco ou seco ao sol; o arroz, o milho, batatas, legumes, frutas e algumas vezes carne: esta é a sua alimentação diária.

Os animais e aves que eles criam são para eles objeto de pequeno comércio, por meio do qual eles subvencionam as despesas domésticas, como o pagamento de direitos, as vestimentas, os móveis e os utensílios, a compra do mate ou a erva do Paraguai, para a qual eles fazem uma bebida que substitui o chá; e, por fim, as celebrações de festas familiares e religiosas, em que circulam garrafas de rum e áraque. Eles dançam nos dias de aniversário, ocasião em que eles se mostram alegres, galhofeiros e galantes. O interior de suas casas é, geralmente, pouco cuidado, onde somente um leito guarnecido de belo acolchoado de algodão mostra uma elegância que contrasta com o resto do mobiliário, composto de algumas caldeiras grosseiras ou de um banco, de uma arca ou de um armário.

Os homens dedicam-se, principalmente, à pesca e à cultura; eles têm uma constituição seca, a pele crestada e parecem vigorosos.

As mulheres voltadas para os diferentes trabalhos domésticos, ocupam-se de fazer rendas que elas trabalham com gosto, e a limpar o algodão que elas fiam nos fusos, com os quais elas fazem as roupas para toda a família. Elas têm formas graciosas e as suas figuras não faltam encantos nem expressão.

Embora ponham um certo esmero em seus adornos, elas usam vestimentas simples de uma limpeza notável. Um vestido leve de chita que desenha uma estatura bem apanhada, algumas flores colocadas com arte sobre a bela cabeleira, lhe dão um ar provocante. Elas possuem aquela coqueteria  tão comum ao seu sexo, e, nas colônias, tão atraente para os estrangeiros; mas existe em seus costumes algo que pareceria contraditório com a vida retirada que elas levam no campo, pois frequentemente fazem amizade com marinheiros que aportam em suas costas.” (Pág. 258).

 

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