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Na manhã de sexta-feira (07/06), estive na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) quando conversei com dois alunos do curso de letras. Prefiro não dizer onde e quais foram as circunstâncias da conversa, pois essa informação poderia identificá-los.

Mas isso não importa a não ser de que se tratava-se de um rapaz, graduando do curso de letras-português e de uma moça de seus 20 e poucos anos que frequenta o curso de letras em italiano.

Quando a moça disse-me que cursava italiano, comentei a respeito do idioma Talian. Foi então que ela, com o olhar meio arregalado, perguntou-me: “o que é talian?”

“Não sabe o que é talian?”, perguntei e ela assim disse: “Eu nunca ouvi falar de talian”.

 

Encontro nacional dos falantes do Talian ocorrido em novembro do ano passado. Isso não foi notícias nas grandes televisões. (Foto Divulgação)

 

Livro que ensina a falar talian, obra do professor Darcy Loss Luzzato, o grande difusor desse idioma. (Foto Divulgação)

 

Bernardo da Silva Ramos. (Foto Google Images)

Fiquei surpreso. Afinal de contas, como é que uma estudante de letras em italiano da UFSC não sabe nada a respeito do talian, o mais famoso dialeto italiano do Brasil?

Os primeiros imigrantes italianos chegaram a Santa Catarina em 1875 e eram oriundos do norte da Itália, mais precisamente de Vêneto e Trentino, entre outras regiões daquelas redondezas.

Esses imigrantes falavam principalmente o vêneto e esta língua acabou evoluindo aqui no Brasil tornando-se uma variante que acabou batizado de “talian”, sem o “i” inicial.

Comentei a ela que o Talian é uma língua minoritária brasileira impressionante. É verdade que o número de falantes está diminuindo por vários motivos que prefiro não falar aqui para não me estender muito. Porém há por volta de 500 programas de rádio falados nesse idioma em rádios do interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul sem falar da existência de uns 135 autores que publicaram livros em Talian.

Sim, o Talian é a língua minoritária brasileira com o maior número de obras publicadas, mas não há uma única universidade do país que ofereça o curso de letras-Talian, com o objetivo de formar professores que pudessem atuar nos municípios de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná cujas populações são majoritariamente de origem italiana e com falantes de Talian.

A UFSC oferece o curso de letras em italiano. Afinal de contas, é a língua oficial da Itália e as oportunidades profissionais são maiores em “Italiano Standard” do que no dialeto Talian.

Não estou dizendo que deveria ser obrigatório oferecer talian etc e tal, pois não é fácil montar um curso universitário. Existe toda uma logística de mercado etc e tal. Mas na minha humilde opinião e por ser autor de um livro intitulado “Parlons Talian” (2013), onde descrevi a respeito desse singular idioma, se houvesse um esforço da comunidade talian do Brasil no sentido de que alguma universidade brasileira abrisse o curso de Letras Talian, professores graduados nessa língua poderiam estar atuando para atender as escolas das cidades onde o idioma ainda é vivo no Brasil.

O amigo da moça, o já mencionado estudante de letras em português, começou-me a fazer perguntas e fui respondendo.

Aqui não há o objetivo de registrar toda a conversa, mas, em nota geral, fiquei impressionado com a ignorância dos dois universitários.

Isso é crítica? Não. Eu mesmo disse a eles que o problema é que não há um documentário, um filme ou uma boa reportagem de TV explicando a cultura do “Brasil que o Brasil não conhece”.

Por exemplo, sobre a comunidade italiana. Se o leitor já prestou atenção a esse detalhe, em toda reportagem que aborda o tema, sempre é executada a musiquinha conhecida como Tarentella seguida da repórter mostrando queijos e vinhos, enfim, clichê em cima de clichê quando esse tema é abordado.

Mas é uma pura distorção. A Tarentella é uma dança/música típica do sul da extremo sul da Itália e não tem nada a ver com o norte, de onde vieram os ancestrais dos atuais descendentes de italianos do sul do Brasil.

Seria o mesmo que houvesse uma colônia de catarinenses na Alemanha e uma televisão de lá, numa reportagem abordando sobre a história e cultura de tais “colonos brasileiros”, tocasse o baião apresentando como a música “típica” dos catarinenses, o que na realidade, não tem nada a ver.

Nas reportagens sobre italianos no sul do Brasil, as televisões não entrevistam Darcy Loss-Luzzato, o grande escritor do talian, não falam da literatura desse idioma e não contam sobre a singular história do “Nanetto Pipeta”, entre outros assuntos correlacionados.

Enfim, não querendo estender-me, pois o assunto é rico e dá um livro (a propósito, eu já escrevi um sobre o tema), o fato é que o assunto “línguas e culturas minoritárias brasileiras” não é apresentado nas televisões do Brasil e, quando o é, é na superficialidade misturada com clichês.

A conversa prosseguiu, fiz algumas perguntas e os estudantes não conseguiram responder.

Então disse-lhes que eles não têm culpa de não ter o mínimo conhecimento sobre o assunto, pois a televisão não fala nada a respeito (mas os livros falam, porém não quis prolongar a conversa. Pela cara dos dois, talvez nunca tenham lido um livro na vida).

Aproveitei para comentar a respeito de um episódio do qual eu mesmo fui testemunha.

Anos atrás, estive num evento no hotel Castelmar e vim a conversar casualmente com uma secretária de cultura ou algo similar do governo do Amazonas.

Lá pelas tantas comentei a respeito de Bernardo da Silva Ramos (1858-1931). Mas quem foi essa pessoa?

Foi um seringueiro que vendeu tudo e com os milhões que ganhou na transação, resolveu dedicar-se aos estudos. Virou arqueólogo e linguista. Em 1917, fundou o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ele tinha impressionante coleção de pedras e outros artefatos com inscrições fenícias e até em grego, achados pelos índios nos mais diversos pontos da Floresta Amazônica.

O que significava esse material? Eram o indício arqueológico da presença ancestral de fenícios e outros povos da Europa e Ásia na América, isso milênios antes da chegada de Pedro Álvares de Cabral ao Brasil (1500). É uma teoria controversa, mas como explicar essas inscrições encontradas na vastidão do Amazonas?

As fotos e desenhos dessa coleção encontram-se impressos no livro póstumo de Bernardo intitulado “Inscripções e tradições da América pré-histórica, especialmente do Brasil”, lançado em 1932, um ano depois da morte do autor.

Mas por que estou falando de Bernardo da Silva Ramos? É que a secretária estadual de cultura do estado do Amazonas (ou alguém de cargo equivalente) disse-me que não fazia a mínima ideia de quem foi “Bernardo da Silva Ramos”.

Tomando todo o cuidado para não ofendê-la e levando a conversa no bom humor, comentei-lhe que, mesmo não conhecendo a cidade de Manaus, se eu não estivesse enganado, há uma importante rua daquela capital que homenageia o citado arqueólogo que decifrou a enigmática inscrição supostamente em língua fenícia encontra na misteriosa Pedra da Gávea, do Rio de Janeiro (que história é essa? Vá pesquisar no google).

Essa mencionada rua faz parte do Centro Histórico de Manaus e há um museu de numismática também situado naquela cidade que leva o nome desse ilustre personagem da vida intelectual do Amazonas.

A mulher (repito: uma autoridade da cultura do governo do Estado do Amazonas) realmente não fazia a mínima ideia de quem era esse cidadão tão ilustre em seu estado.

Ninguém precisa saber quem foi esse tal Bernardo mencionado, mas partindo de uma autoridade da cultura do Amazonas, no mínimo é problemático.

E o engraçado foi que um anônimo jornalista de uma cidade mané chamada Biguaçu (SC), a 4,3 mil quilômetros de distância de Manaus, conhecia o dito cujo.

Não estou vangloriando-me nem tirando vantagem. Não é isso. Tem muita coisa que eu mesmo não conheço. Mas o que estou querendo dizer é que existe muito “Brasil que o Brasil não conhece”, não faz ideia de sua existência e, se falar, é como se estivesse falando de ETs ou de coisas do outro mundo ou do outro lado do mesmo.

É a estudante de letras em italiano da UFSC que não faz ideia alguma do que seja o talian (assunto que no mínimo tinha de saber porque frequenta uma faculdade em que a palavra “talian” uma vez ou outra vai aparecer, seja na discussão de sala de aula ou em tema de mestrado) ou uma secretaria de cultura do Amazonas não ter a mínima ideia de um dos maiores intelectuais da história de sua própria terra como foi o caso de Bernardo da Silva Ramos.

Já estava na hora do compromisso para o qual tinha ido na UFSC e encerrei a conversa  com os dois universitários, mas fiquei pensando em certas leituras e num comentário do filósofo Olavo de Carvalho sobre a expressiva quantidade de “analfabetos funcionais” que vêm sendo formados nas universidades brasileiras.

Não é exagero. É a triste realidade.

Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

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