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Roberto Marinho (1904-2003) tinha o costume de volta e meia guardar documentos numa sala anexa a seu escritório na sede no Rio de Janeiro das Organizações Globo, que se não me engano era o segundo maior conglomerado de comunicações do Planeta.

Marinho nunca escondeu o propósito da quase diária seleção de documentos escolhidos a dedo: municiar o(s) futuro(s) historiador(es) com ampla documentação para que possam escrever sua biografia. Não escondia a vaidade de, após sua morte, ter sua vida contada e recontada para as gerações vindouras certamente em belíssimos livros repletos de fotos e documentos impressos fac símile.

Tendo isso em vista, Roberto Marinho não perdia a oportunidade de organizar o material. Se via algo interessante em documentos diversos, cartas, bilhetes, manuscritos em geral, telegramas, fotos, slides, fitas de áudio, vídeo, recortes de jornal, já enviava para aquele mencionado anexo. Parece que lá também constava encadernações de todos os seus editorais organizados cronologicamente e também uma coleção de livros de história do Brasil dos quais Marinho gostava onde havia alguma menção a sua pessoa (claro que de seu agrado). Enfim, eram muitos documentos.

Podem falar o que quiser de Marinho, mas em vida ele foi um excelente jornalista e, como sua última grande reportagem, fez fama a sua competência nesse citado anexo.

Pois bem! Roberto faleceu em 6 de agosto de 2003, quatro meses antes de completar 99 anos.

Hoje, percorridos 16 anos de seu falecimento, seu esforço em reunir documentos sobre sua pessoa parece que foi em vão. Não há uma enxurrada de biografias sobre esse personagem sem sombra de dúvida de enorme relevância (quer para o bem, quer para o mal) da história brasileira.

Para ser mais exato, só há quase que uma única “grande” e “completa” biografia a respeito de Roberto Marinho. Foi publicada em 2004 pelo jornalista Pedro Bial, que teve acesso àquele famoso anexo do famoso patrão.

Nunca consegui ler um livro de Pedro Bial do começo ao fim. Tentei ler “Crônicas de Repórter (1996)”, obra em que Bial comenta os bastidores de sua longa experiência de correspondente internacional da Globo nas décadas de 1980 e 1990, mas confesso que não consegui. Adoro crônicas, mas confesso que não consegui prosseguir a leitura. Não sei explicar o motivo. Só sei que o texto não me agradou.

Pouco tempo depois do lançamento de “Roberto Marinho”, a biografia de Pedro Bial sobre o dono do Império Globo lançada pela editora Jorge Zahar Editor em parceria com o projeto “Memória Globo”, consegui o exemplar, mas novamente também não avancei além da 20ª ou 30ª página.

Teria sido implicância minha? Bobagem de minha cabeça? Incapacidade? Só sei que larguei o livro.

O tempo passou e vim a descobrir que não fui a única pessoa com alguma implicância com a dita biografia.

Li “Código da Vida”, autobiografia lançada em 2007 por Saulo Ramos (1929-2013), um dos conceituados advogados do Brasil e ex-ministro da Justiça entre 1989 a 1990 no governo do então presidente José Sarney (1985-1990).

Referindo à citada biografia de Roberto Marinho, Saulo Ramos assim comentou na página 116 de seu livro por sinal muito bem escrito e de uma fluência estonteante: “O livro do Bial é fraco, não está à altura do biografado”.

Roberto Marinho divide opiniões. Foi um cidadão amado e odiado, mas ninguém pode afirmar com absoluta certeza se ele foi a favor ou contra o Brasil. Como qualquer ser humano, ele teve suas virtudes, qualidades, pecados e defeitos. Em torno dele, giram muitas lendas e mitos. Por enquanto, por falta de biografias, predominam mais os mitos aos fatos.

Independente de quem tem simpatias por ele ou o odeia profundamente (ambos os lados têm caminhões de razões para isso), Roberto merecia uma biografia magistral não importando se ressaltando o grande papel dele em vida ou o seu lado mais sombrio. A biografia assinada por Pedro Bial infelizmente não esteve à altura nem para introduzir o assunto, que dirá chegar ao topo do desafio.

Investigar quem foi Roberto Marinho, qual o percentual “anjo” e qual de “capeta” ele representou, é também tentar entender o Brasil do passado recente e o que nos levou até o presente momento em que nos encontramos.

Dessa história todo, confesso que é rir prá não chorar quando penso no tal anexo. Todo o esforço de Roberto Marinho para deixar um verdadeiro arquivo detalhando sua vida, foi tudo em vão, pelo menos até o presente momento.

O melhor que se tem é ironicamente a citada biografia de Pedro Bial que, em qualidade, está mais para BBB (Big Brother Brasil) do que algo à altura do esforço empreendido pelo biografado.

 

Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

Biografia de Roberto Marinho, por Pedro Bial. (Foto Reprodução Livraria Cultura)

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