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Netinho Borba. (Foto Arquivo JBFoco)

 

Ozias Alves Jr

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com

Biguaçu ainda não tem um hino. Netinho Borba (in memoriam), conhecido “seresteiro” do município, compôs “Memórias de Biguaçu”, canção esta que virou o hino não oficial da cidade. Uns não aceitam essa música, pois seus versos abordam memórias de um Biguaçu que há muito já não existe mais. Eis aqui a letra:

 

Oh, Biguaçu

Berço do amor

Passou o tempo

E na história ficou

Oh, Biguaçu 

Berço do amor

Teu povo canta em louvor

 

Caramanchão feito em flor

Jovens casais a se amar

Trocavam juras de amor

É testemunha o luar

 

Quando no céu clareava

Rojões em forma de amor

Na praça o povo cantava

Em glória ao teu pescador

 

Em seus portões e calçadas

Potes e baldes havia

Seu Juvenal e sua pipa

A nossa água trazia

 

Festa prá rapaziada

Corria prá todo lado

Seu Jaburu era o alvo

Da zombaria o coitado

 

Teus seresteiros amantes

Encantavam a madrugada

Com suas canções dolentes

Despertavam as namoradas

 

No campo um grito de gol (Goool)

Era o BAC a jogar

Hoje ainda é tradição

Aqui ou em qualquer lugar

 

Hoje és um belo cenário

São fortes os filhos teus

Hoje em seu aniversário

És o orgulhos dos meus

 

A música de Netinho, cuja letra está transcrita na página 178 do livro     “BAC 50 anos- Biguaçu Atlético Clube 1955-2005- A Alegria da Cidade” (2005), de autoria de José Elias Rodrigues, fala de “Juvenal e sua pipa”.

Tratava-se de Juvenal Guilherme, o antigo distribuidor de água de Biguaçu. Antes da inauguração dos serviços da Casan em 1970, Biguaçu não tinha distribuição de água potável. A água vinha de uma “pipa”, uma espécie de tanque com rodas puxado por um burro. De casa em casa, Juvenal entregava a água. As donas de casa já o esperavam com baldes.

Outro personalidade citado na canção de Netinho era o “seu Jaburu”. Esta pesquisa não tinha informações sobre esse personagem. Parece tratar-se de um personagem de Biguaçu de antigamente viciado em jogo. Daí a razão da “zombaria da garotada”.

O leitor sabe a razão de eu, como jornalista, ter publicado uma infinidade de artigos defendendo a criação do “Arquivo Público Digital” de Biguaçu?

Pois é! Tentando descobrir quem era esse tal “Jaburu”, consultei meu pequeno arquivo digital de reportagens do JBFoco a partir de 2004 através de um programa chamado “Google Desktop”, que baixei gratuitamente do site do famoso Google. É um programa que localiza palavras dentro de arquivos de texto em Word.

Digitei “Jaburu” e eis que descobri que, na edição de 11 de outubro de 2007, o jornal Biguaçu em Foco publicou o artigo “Falta de Memória” de autoria do ex-vereador na década de 1970, Abrahão Salum Netto. Sobre o personagem em pesquisa, eis o que Abrahão contou, dando até o nome e sobrenome do homem:

João Cantisano– Sua família morava na rua Coronel Teixeira de Oliveira (centro de Biguaçu), onde hoje mora a família Prazeres. Eram dois homens e duas mulheres; o seu João tinha um roleta que funcionava nas festas e, quando dava o “jaburu”, a banca, ele ganhava; apelidaram-no de “Jaburu”. O seu irmão, Júlio Cantisano, o único casado, foi diretor do Grupo Escolar Profº José Brasilício.”

Está correto mesmo. Certa vez, estive na Escola José Brasilício e fotografei alguns documentos para reportagens. No meio deles, encontrei um livro ata de comunicações internas da escola e encontrei um informe datado de 1946 do então diretor Júlio Cantisano. Aqui vai:

 

Assinatura de Júlio Cantisano em 19 de fevereiro de 1946. Fonte: Livro de Atas da Escola José  Brasilício, pág. 04. (Foto: Reprodução)

 

E localizei outra citação sobre o dito popular “Jaburu” e de outra fonte. Está na crônica intitulada “Que Saudade”, cujo autor, o advogado Pedro Paulo dos Santos, relatou:

 

Passando pelo bar do seu Vital, vi alguns frequentadores jogando sinuca, outros gozando do seu Jaburu que com seu inseparável guarda-chuva, cruzava a praça (Nereu Ramos) naquele momento, pude ver quando ele se dirigiu a turma, reclamando, “cambada de sem-vergonhas, não respeitam ninguém, e apontando o guarda-chuvas para o Edson Virissimo, disse, “até esse que por sinal é meu parente, filho do Primo Cantido, também fica aí inticando”.”

 

Já imaginaram se a coleção de jornais de Santa Catarina da Biblioteca do Estado e outros milhares e milhões de documentos catarinenses fossem digitalizados? Você digita uma palavra chave e, em questão de segundos, na tela ficam disponíveis os documentos onde a palavra chave aparece.

Já imaginaram a rapidez e a facilidade com que os pesquisares poderão localizar informações de que necessitam? Quantos dias, meses ou anos seriam-lhe poupados?

E o pior é que há idiotas que acham uma “besteira” esse negócio de digitalização de documentos.

E voltando ao citado artigo de Abrahão Salum, tem mais um detalhe interessante revelado pelo mesmo artigo. Netinho fala do seu “Juvenal Guilherme”, o antigo distribuidor de água até 1970.

Há quem considera Juvenal Guilherme o primeiro e último distribuidor de água no período de Biguaçu “Pré-Casan”. Abrahão informa: “Artur do Panca foi o predecessor da entrega de água em Biguaçu, sucedido pelo seu Juvenal Guilherme.”

De onde Abrahão obteve essa informação? Salum contou: “Presenteou-me a sra. Lígia Cidrão Viríssimo, a Liginha do Emídio, já falecido, de tradicional família biguaçuense- Cidrão- João Acácio Cidrão- Joãozito por parte de pai e Mendes, pelo lado da mãe, dª Irecema; mãe do Ricardo (Cadinho) e do Ronaldo, com um escrito do sr. Antônio de Pádua Pereira, denominado “Dos Escaninhos da Memória”, sem data, que imagino ter sido elaborado na década de 1950.

O sr. Antônio de Pádua Pereira foi prefeito nomeado de Biguaçu de 1943 a 1945, pelo interventor do Estado, Dr. Nereu Ramos. Morou algum tempo ali na rua Coronel Teixeira de Oliveira, com sua mãe, a dª Jacinta, pertinho da minha casa.”

Ou seja, Abrahão tem guardado um documento valioso em que um ex-prefeito enumera as famílias de Biguaçu do começo do século XX.  O próprio Abrahão, hoje septagenário e criado a vida inteira em Biguaçu, conhecedor da cidade inteira (dos nativos, diga-se de passagem), comentou que desconhece a metade dos nomes citados por Antônio de Pádua.

Que significa isso? Como pessoas desaparecem completamente da memória coletiva, mesmo não sendo tão antiga assim.

 

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