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Você sabia que já existiu um samurai AFRICANO no Japão?

Um jornalista nascido na Costa do Marfim, África, e residente na França chamado Serge Bilé, hoje com 59 anos de idade, desenterrou a história desse personagem que existiu na vida real, mas completamente desconhecido do grande público. O resultado foi o livro “Yasuke- Le Samuraï noir” (Yasuke- O Samurai Negro), lançado em janeiro do ano passado na França e ainda sem tradução no Brasil.

O samurai em questão foi um escravo capturado em Moçambique  elevado para a Índia, onde, mais tarde, acabou parando no Japão em 1579 acompanhando seu amo, um padre jesuíta italiano chamado Alessandro Valignano (1539-1606), que tinha viajado para lá por força de uma missão de inspeção de ordem, a Companhia de Jesus. Na época, padres jesuítas, maioria portugueses, encontravam-se no Japão com o objetivo de propagar o cristianismo.

Qual o nome do escravo africano em questão? Qual sua tribo? Qual língua materna falava? Ficou conhecido apenas pelo seu nome japonês, Yasuke. Seria a corruptela de “Iusufe”, o provável nome africano desse personagem histórico?

Este africano tinha 1,88m de altura e era bem negro. Quando chegou ao Japão, provocou literalmente o maior rebuliço. Afinal de contas, os japoneses na época nunca viram um homem negro na vida.

Capa do livro de Sérge Bilé lançado ano passado (2018). (Foto Internet)

 

Reportagem do jornal alemão Die Presse (A Imprensa) de 26 de junho de 2018 sobre o lançamento do livro do jornalista Serge Bilé. O título em alemão é “Ele era o primeiro samurai negro do Japão”. (Foto Reprodução)

 

Serge Bilé e seu livro sobre o samurai negro que viveu e lutou no Japão no século XVI. (Foto Divulgação)

COMO VIROU SAMURAI

Oda Nobunaga (1534-1582), um Daimyo, como eram chamados os Senhores da Guerra do Japão Feudal, cidadão este cujo nome tudo mundo que se interessa por cultura japonesa sabe de quem se trata sem maiores explicações, ficou espantado por aquele “gigante”. Para os japoneses, geralmente de baixa estatura, aquele negro de quase 1,90m impressionava.

Mas o que deixou impressionado o daimyo Nobunaga foi a cor da pele do africano. O japonês, conforme conta Bilé, pensou que aquela cor era, na realidade, uma lata de tinta preta jogada naquele gigante.

E o que fez o senhor feudal japonês? Mandou dar um banho no africano e escovar as costas do negro para ver se a “tinta” saia. Admirou-se que a pele realmente era negra que nem carvão e, por mais água e esfregões de escova, a cor não saia. Impressionante, pensaram os japoneses na época.

O que aconteceu depois com Yasuke? Nobunaga ordenou que o africano fosse treinado como samurai (se com o consentimento do amo, não sabemos, pois é preciso ler o livro).

O que é “samurai”? Em japonês, significa “servir o senhor”, ou seja, o guerreiro que luta sob ordens de seu senhor, no caso aqui o citado Nobunaga.

A ideia de Nobunaga é que Yasuke impressionasse os inimigos por sua altura e força. E foi o que aconteceu. Nos registros japoneses, Yasuke foi descrito como um notório guerreiro.

O escravo tornou-se o PRIMEIRO samurai estrangeiro do Japão, isso 300 anos antes do “samurai” branco interpretado por Tom Cruise no cinema, no filme “O último samurai” (2004).

 

GUERRA

Aqui não se tem o objetivo de contar a história toda, mas em resumo bem “resumido”, Yasuke participou de batalhas, inclusive daquela que ocorreu em 1582 quando um general rebelde chamado Akechi Mitsuhide atacou as forças de Nobunaga. Pressentindo a derrota, Nobunaga cometeu seppuki, aquele suicídio em que o daimyo ou os samurais cometem cortando a barriga com uma faca em nome da honra.

Yasuke conseguiu fugir e juntou-se às forças do filho de Nobunaga, Odu Nobutada (1557-1582). Pouco tempo depois, naquele mesmo ano de 1582, este último também foi derrotado por Mitsuhide.

Agora sob comando do filho do antigo daimyo, Yasuke lutou bravamente, mas acabou sendo capturado. Pelo costume samurai, em nome da honra, ele teria de cometer seppuku ou ser executado, mas o general vencedor, o já citado Mitsuhide, decidiu poupar-lhe a vida por entender que se tratava de um estrangeiro e também para não indispor com os padres jesuítas. Yasuke foi entregue ao seu antigo amo.

História completamente desconhecida no ocidente, no Japão Yasuke inspirou até joguinhos eletrônicos e uma equipe da TV japonesa viajou a Moçambique com a esperança de encontrar descendentes do antigo “Samurai Negro”, mas lá era completamente desconhecido.

 

PESQUISADOR

Serge Bilé já era conhecido pelo seu livro “Quand les Noirs avaient des esclaves blancs (2008) (trad.: “quando os negros tinham escravos brancos”), sobre a história igualmente desconhecida da escravidão branca na África. Para quem não sabe, nem tem ideia do assunto, também houve europeus brancos capturados que viraram escravos na África e o número desses escravos chegou a um milhão, vítimas estas capturadas tanto por traficantes negros como por árabes. Você sabia disso?

Escritor prolífero, Bilé pesquisa sobre a história da África e seus povos. Em 1995, por exemplo, ele produziu um documentário também instigante. Muito se publicou sobre Hitler, a 2ª Guerra Mundial, holocausto judeu, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, mas pouco ou nada se publicou sobre a história dos soldados africanos que faziam parte do exército francês capturados pelos alemães durante a queda da França em 1940.

O que aconteceu a esses soldados sobre quem a historiografia oficial teve pouca curiosidade de saber? Acabaram fuzilados pelos nazistas e essa história foi resgatada por Serge Bilé.

 

A PESQUISA

Voltando à história do samurai Yasuke. Onde o autor conseguiu encontrar documentos sobre esse singular personagem da vida real?

Nas cartas publicadas geralmente em português pelos padres jesuítas em missão no Japão, muitas das quais publicadas em livros dos séculos XVI e XVIII. Vale lembrar que os padres escreviam muito. Por onde passavam, deixavam longos relatórios pormenorizados. Também há registros japoneses sobre o antigo escravo que virou samurai.

Em suas entrevistas às televisões francesas, Bilé contou que não sabe os idiomas português e japonês. Como conseguiu ler os documentos nesses idiomas nos quais baseou-se para escrever seu livro?

Para ler os documentos japoneses, contou com a preciosa ajuda de um conterrâneo seu, também da Costa do Marfim, especialista em japonês.

E Bilé enfatizou a seguinte constatação: a história, como se diz popularmente, é “escrita pelos vencedores”. As atenções não vão para os “outros”, no caso, os “não europeus” e membros de outros povos, raças, etnias, classes sociais etc.

Por ser escravo e negro, Yasuke acabou esquecido pela história ocidental.

 

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