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Recebi do sr. Nelson Adams Filho (e-mail: nelsonadamsfilho@gmail.com) a seguinte mensagem: “Busco fontes históricas em Biguaçu sobre ações da IIª Guerra nessa região. Como te relatei estou fazendo pesquisa para meu próximo livro. Já busquei algo em Salim Miguel, mas quero ampliar.

Outros livros, trabalhos de pesquisas, fontes orais. Encontraríamos algo nas bibliotecas locais? Escolas ou na biblioteca municipal (deve ter aí).

Ou algum historiador local que eu possa entrevistar?! Tens alguém a me indicar. Irei até aí! Foi o colega e professor Luís Nilton Corrêa (filho da Dona Dalva, do bairro Prado, e fundadora da Casa Lar) quem passou-me teu contato.

Aguardo orientações tuas. Grato pela atenção. ABS. Nelson Adams Filho. Torres – RS”.

 

RESPOSTA

Em primeiro lugar, parabéns pelo tema inédito de pesquisa: o cotidiano de Biguaçu durante a 2ª Guerra Mundial.

Sr. Nelson escreveu: “Encontraríamos algo nas bibliotecas locais?” Bom! Talvez mais da metade do acervo da biblioteca pública de Biguaçu não existe mais depois da recente “reforma” para deixá-la mais “bonita”. Ou seja, esqueça a biblioteca de Biguaçu.

Historiadores locais? Recomendo o historiador Joaquim Gonçalves dos Santos, da Academia de Letras de Biguaçu (e-mail: celio.joaquim@yahoo.com.br). Também pode conversar com o historiador da cidade vizinha de Governador Celso Ramos, professor Miguel Simão (fone/zap: (48) 9- 8805-4351).

 

JORNAIS

A biblioteca pública do estado de Santa Catarina está atualmente disponibilizando o PDF de sua coleção de jornais na internet através do site http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/

Pesquise principalmente o jornal O Estado, na época o mais importante do estado e sediado em Florianópolis. Os exemplares da época da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) já estão disponíveis no referido site.

Sobre Biguaçu na 2ª Guerra Mundial, as informações que tenho seriam estas:

 

SALIM LEMBRA O CLIMA DE DESCONFIANÇA DURANTE A 2ª GUERRA MUNDIAL

 

CLIMA DE DESCONFIANÇA (com relação aos descendentes de alemães) instaurou-se durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1995). Em Biguaçu, não foi diferente, como lembra Salim Miguel na página 228.

“(…) os rapazes foram convocados, empunham armas (revólveres e espingardas, verdadeiras peças de museu), percorrem as ruas, atentos a tudo, o fiapo de luz que se escoa pela fresta de uma janela, uma carroça de laranja que passa em direção a Florianópolis, um barulho suspeito, quando se dá a prisão do espião perigoso, logo trancafiado, que na manhã seguinte se demonstrou mero ladrão de galinha.”

O escritor complementa: “ (…) teme-se a ação dos quinta-colunas que tentam retransmitir informações para os nazifascistas, precisa ficar de olho nos integralistas, alguns ex-colegas e amigos de tempos nem tão distantes, da Aliança, como os Reitz e os Scherer.

“Scherer”? Será que Salim referia-se a parentes diretos do ex-prefeito de Antônio Carlos, Ivens Scherer?

 

PERSEGUIÇÃO AOS “ALEMÃES”

Salim Miguel conta: “ (…) logo o ataque indiscriminado a tudo que dizia respeito aos alemães, bens e pessoas, mesmo os antinazistas, bastava o sobrenome; em Biguaçu são raras as perseguições, mas chega a notícia do ocorrido no Clube Germânia, Florianópolis, e não só ele, também residências de alemães haviam sido apedrejadas, famílias hostilizadas, até as que não tinham nenhuma simpatia pelo nazismo, vizinhos se evitando, e o pai (de Salim Miguel), a repetir, horror, horror, que horror, não é assim que se deve agir (…) “(Pág. 126 e 127).

 

2ª GUERRA MUNDIAL

Salim participou da vigilância de Biguaçu “contra os nazistas”. Ele conta: “ Alerta-se: Biguaçu também necessita dar sua contribuição ao esforço de guerra. A preparação tem que ser logo. E se nos invadem? Navios de guerra alemães não se aproximam? Foram entrevistos pertos de Itajaí, de São Miguel, por barcos de pescadores. “

Acrescenta: “Um dia, seu João Dedinho aparece na venda, vai bater papo, discutir a situação, pedir: teus filhos maiores podem ajudar no patrulhamento da cidade, estamos fazendo plantões diurnos e noturnos, mais necessários durante a noite.” (Pág. 182).

Nem o padre da época escapou da desconfiança. Conta o escritor:

Rodeavam a casa do padre, dizia-se que era favorável ao Eixo, pertencera, pertencia melhor dizendo, embora não mais se manifestasse de público, ao Partido Integralista, tinha (tinha ou não, eis a dúvida que permeava todos) uma pequena estação retransmissora, que recebia e repassava informações até alto mar, avisando da movimentação de embarcações, teria, quem sabe, com isso ajudado a afundar barcos brasileiros, olhava-se com suspeição para os descendentes de alemães, quase todos haviam pertencido ao bando de traidores, aos integralistas, aos camisas-verdes, aos galinhas-verdes-sem-vergonha, haviam sim! E como diferenciá-los dos que não eram?

Lá um dia a notícia espantosa, embarcação não identificada andava beirando o litoral catarinense, fora entrevista perto de São Miguel, sumira, reaparecera, parece submarino alemão, mas como identificar submarino alemão, terá desembarcado gente, onde se esconderiam, ou embarcara agentes infiltrados que necessitavam sair do país, estivera perto de Florianópolis, fora percebido quase no porto de Itajaí. Começa a romaria até São Miguel, as pessoas querendo ver o submarino e comprovar o que tanto se propalava.” (Pág. 183).

 

PESQUISA

É o início de uma pesquisa a respeito. Infelizmente a esmagadora maioria dos que vivenciaram esse período já morreu e as “criancinhas” da época já são septuagenários ou octagenários.

 

CONCLUSÃO

Por que reproduzi um e-mail e a resposta ao mesmo neste editorial? Para defender mais uma vez sobre a necessidade de se criar um Arquivo Público Digital de Biguaçu.

Uns vão dizer: Biguaçu já tem um Arquivo Público. Sim, é verdade, criado em 1993 com documentos salvos de papéis jogados ao relento no pátio da secretaria municipal de obras de Biguaçu.

Mas arquivo público significa documentos organizados, numerados, catalogados, identificados, que podem ser rapidamente localizados em buscas.

A pergunta é: Biguaçu tem alguma coisa próxima disso? Boa parte de seus documentos estão disponíveis na internet? Estão escaneados e passados pelo OCR, o software de reconhecimento de caracteres que permite a localização de palavras chave no meio dos textos?

Parece-me que a resposta é um redondo “não”. A campanha continua, pois sempre há pesquisadores “pesquisando” algo e precisamos de nossa memória melhor organizada.

 

 

Ozias Alves Jr

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com

 

JBFoco Online – Terça-feira (27/08/2019

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