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Deivison Pereira

E-mail: deivisonjornalista@gmail.com

 

Ele chegou aos 40 anos de idade, 1,72m de altura, 77 quilos, olhos castanhos, casado há 15 anos, 2 filhos, pais idosos, formado em administração, dono de uma bem sucedida imobiliária. Gostava de festas, churrasco com os amigos e familiares em especial; costumava divertir os que estavam por perto. Bom contador de histórias, ótimo ouvinte, sua provável mais destacada qualidade. Quem precisava de um ombro amigo, nele, encontrava alguém que escutava de verdade, demonstrava interesse e paciência; um sujeito e tanto.

Houve um tempo em que ele mudou, mas quase ninguém percebeu. Um pouco menos de alegria, um pouco mais de isolamento. Poucos amigos e familiares comentavam que devia estar cansado; muito trabalho, um filho de 13 anos, uma de 10, sem contar o trânsito, ah, maldita falta de mobilidade. Certo dia, num almoço em família, ele falou que andava muito cansado. Disse que não via graça nas coisas das quais antes gostava. Em outra ocasião, num encontro casual com um amigo, dentro de um supermercado, falou que invejava quem já havia morrido. Credo, teria dito o amigo, ainda assim ele confirmou que às vezes tinha vontade de acabar com tudo. Despediram-se. O amigo pensou que ele precisava é de um bom churrasco, cerveja gelada e um bate-papo especial. Logo, esqueceu a conversa, nem lembrou de marcar o tal churrasco.

A esposa o flagrou várias vezes olhando para o nada. Perguntava carinhosamente onde estavam seus pensamentos. Ele dizia que em lugar nenhum. A convivência traz uma intimidade tão boa quanto perturbadora. Os filhos já o notavam triste e perguntavam o que havia acontecido. O pai estava com 75 anos e sua mãe com 70. Pais têm olhos especiais, enxergam além de aparelhos de exames clínicos sofisticados e mais longe que os bons telescópios. O chamaram para conversar. Seriam dívidas? Problemas no casamento? Teria se envolvido com outra pessoa? Seus pais já sabiam que essas coisas não iriam tirar a alegria dele, mas não custava perguntar, quem sabe o filho pudesse se abrir. Seus 4 irmãos notaram a mudança dele. Dois chegaram a procurá-lo, outros dois diziam que é o estresse do dia a dia. “Quem não está estressado hoje em dia?”, diziam eles.

Numa manhã de sábado ele acordou cedo, antes das 7 horas. Tomou banho e fez a barba. Preparou o café para a família e deixou a mesa de um jeito como nunca antes; daria inveja a quem diz saber preparar uma mesa de café da manhã. Um bilhete encostado à garrafa térmica dizia: “Até logo. Amo muito vocês”.

Ao meio-dia a esposa estava preocupada, ele jamais saia sem o celular, estava há mais de 4 horas fora de casa. Possivelmente na casa de algum amigo, pensava ela, mas nem uma ligação? Havia saído de carro. Seus pensamentos foram interrompidos por um dos cunhados. O irmão mais velho do seu marido entrou sem bater na porta e com os olhos cheios de lágrimas e a boca trêmula. Pensou que tivesse acontecido algo com a esposa dele ou com um dos seus 3 filhos. O cunhado tentou falar, mas ao abrir a boca a voz deu lugar ao choro e foi logo abraçando-a. Ela perguntava o que foi, que aconteceu? O irmão do seu marido dizia “ele se foi, ele se foi”. A esposa ainda não havia entendido. Quando seu outro cunhado entrou na sala perguntou pelas crianças. Elas estavam tomando banho de piscina na casa de um amigo perto dali. Esse outro cunhado disse que ela teria que ser forte; ele foi encontrado já sem vida. Um grande terreno que alguns chamavam de bosque, bonito e com muitas árvores, há uns dois quilômetros de sua casa. Eles contaram como alguns rapazes o encontraram. Ela lembrou de ter perguntado por que ele havia comprado uma corda e por que uma nova escada.

“Ele chegou aos 40 anos de idade, mas não aos 41. O homem estudioso, trabalhador, bom amigo; como pôde fazer aquilo?”. A frase assim ou parecida foi repetida dezenas de vezes naquela noite de sábado. Alguns riam ao lembrar dos muitos bons momentos e em seguida se entregavam ao choro. Pior de tudo, muitos diziam: “Como não percebemos, por que não fizemos nada para ajudá-lo?”. Pais, filhos, esposa, familiares, amigos, colegas, vizinhos, quase todos, pouco a pouco, falavam dos sinais que ele havia dado. Agora pareciam gritos de socorro tão fortes, mas que ninguém ouviu. Um dos amigos disse que não era momento de sentirem culpa. Outro amigo fez questão de dizer que ninguém deve cometer o grave erro de pensar ou mencionar que a pessoa que comete suicídio fica numa situação ruim com Deus. Afinal de contas, dizia o amigo, se Deus perdoa até criminosos por que puniria quem se mata? Ninguém faz isso por alegria. Só o Senhor para julgar. Ele estava entre os mais de 800 mil em todo o mundo que cometem suicídio todos os anos; uma pessoa a cada 40 segundos tira a própria vida; crianças, adolescentes, adultos e idosos. A maioria dá sinais. Muitos, segundo especialistas, quando já decidem pelo suicídio, demonstram o que os estudiosos chamam de – falsa calmaria. Parece que a pessoa deprimida e abalada por seus pensamentos inquietantes, ao decidir tirar a vida, vê nisso um certo alívio; o sofrimento está com os dias contados. Sua aparente melhora dias antes e o café da manhã já sem ele. Depois de alguns anos de muito sofrimento e olhares perdidos ao longo do nada, do nada de não conseguir ver a saída, de que sempre há uma saída. Ele havia decidido: Chega!

 

Deivison Pereira.

E-mail: deivisonjornalista@gmail.com

 

Deivisom Pereira. (Foto Divulgação)

 

JBFoco Online – Quinta-feira (26/09/2019)

 

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