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Na comunidade árabe de Florianópolis, tenho alguns grandes amigos, entre os quais Abdel Aziz Bahsain.

Natural do Marrocos, Bahsain é um talentosíssimo artesão e possui uma barraca de comida típica marroquina na feira vegana, realizada toda quarta-feira na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Trabalha com sua esposa, uma portuguesa com cidadania brasileira.

Nas pausas para o chá nas aulas da UFSC, nossas conversas versam-se sobre língua, cultura e literatura árabes.

Em nosso último encontro semana passada, Abdel Aziz contou-me que, antes de vir para o Brasil, morou na Espanha, mais especificamente numa cidadezinha chamada Figueres, que vem a ser o vilarejo natal do ilustre e mundialmente famoso pintor, Salvador Dalí (1904-1989).

Abdel contou que, apesar de ser uma cidade realmente pequena e pacata, Figueres possui uma belíssima biblioteca pública. Ele frequentava o local para tomar emprestados livros… árabes.

Sim, a biblioteca daquela cidade tinha vários acervos: além das obras em espanhol (evidentemente, pois estamos falando da Espanha), havia seções com livros em inglês, francês, alemão e em idiomas “exóticos” como chinês e árabe (!!!)

Abdel Aziz adora ler e reclamou não haver livros em árabe nos acervos das bibliotecas públicas da Grande Florianópolis. Enfim, para manter o prazer da leitura em seu idioma, só mandando importar ou pedir emprestado livros em árabe junto a amigos da comunidade árabe de Florianópolis.

Eu lhe contei que certa vez a biblioteca pública de Biguaçu recebeu uma generosa doação de livros em inglês e em francês, mas dessas obras nada restou. Tudo acabou descartado sob a alegação de que não há público em Biguaçu quem lê em inglês ou em francês. Interessante argumento!

E a conversa foi prosseguindo quando perguntei a Abdel se chegou a encontrar autores literários marroquinos traduzidos para o português aqui no Brasil. Sua resposta foi um redondo “não”.

Poucos dias depois lembrei-me dessa conversa ao receber o habitual e-mail semanal de lançamentos recentes da “L´Harmattan”, editora francesa onde eu particularmente consegui publicar cinco livros sobre idiomas minoritários brasileiros.

Um dos livros lançados foi o terceiro volume de uma série intitulada “Écrivains Marocains du Monde- États-Unis d´Amérique” (Trad.: Escritores Marroquinos do Mundo- EUA).

Se não estiver enganado, trata-se de um dicionário literário elencando escritores marroquinos espalhados pelo mundo e a lista de obras desses autores tanto em idiomas ocidentais como também em traduções.

Não conheço literatura árabe, muito menos marroquina, mas tenho a impressão de que, se existir alguma tradução para o português de autores marroquinos, o número é próximo do inexistente. Uma pesquisa no google não me ajudou a encontrar uma resposta mais precisa. Autores marroquinos traduzidos para o inglês ou francês são num número estonteante, mas em português brasileiro é numa total pobreza.

No site do Instituto de Cultura Árabe do Brasil, li a respeito de um escritor marroquino radicado em Brasília desde 1997, Abderrahman Belhaddad, que publicou um livro aqui em poesia e prosa, mas em árabe, idioma que ele ensina na Universidade de Brasília, onde trabalha como professor e pesquisador.

Em miúdos, o Brasil não conhece nem faz a mínima ideia do que é ou pode ser a literatura marroquina. Se existir algum escritor marroquino traduzido para o português brasileiro, será literalmente uma agulha no palheiro.

Sobre a já mencionada L´Harmattan, com sede em Paris, França, constata-se que essa editora publicou uma infinidade de livros sobre o tema “literatura marroquina”. Nem estamos falando de outras editoras.

Mencionei o recém lançado terceiro volume de “Escritores Marroquinos do Mundo”, mas não citei o nome do autor. Trata-se de Najib Redouane. Só pela L´Harmattan, esse autor já publicou 30 livros, TODOS sobre literatura marroquina.

Tem de tudo: coletânea de poesias, traduções de contos, estudos de autores, biografias literárias, análises de obras, tudo sobre autores do Marrocos. Para ser mais exato, só apenas em dois dos 30 livros é que autor desvencilhou-se desse “hiperfoco”: analisou a literatura de países vizinhos como Argélia e Tunísia, mas que têm características muito próximas as do Marrocos: são países do Saara, falantes de árabe, francês e bérbere etc.

É impressionante a diferença de cenários. Para traduzir, é preciso publicar e para publicar, é preciso vender e, para vender, é preciso um público leitor com razoável formação escolar que tenha adquirido o hábito da leitura, o que no Brasil é algo bastante problemático.

O Brasil não é um país qualquer. Figura entre os 10 maiores países do mundo tanto em economia quanto no número de falantes de seu idioma. No entanto, o Brasil figura entre os últimos colocados tanto em testes internacionais de escolarização quanto na quantidade de livros publicados.

É lamentável a dimensão dessa pobreza intelectual. Continua sempre válida a célebre frase de Monteiro Lobato (1882-1948): “um país se faz com homens e livros”. Complemento: de bibliotecas, literaturas “exóticas” e de curiosidade cosmopolita!

 

 

Ozias Alves Jr (Editor)

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com.

 

Livro sobre literatura marroquina recém lançada na França. No Brasil, não há publicações a respeito como também em diversas outras áreas. (Foto Reprodução)

Livro sobre literatura marroquina recém lançada na França. No Brasil, não há publicações a respeito como também em diversas outras áreas. (Foto Reprodução)

JBFoco Online – Segunda-feira (16/09/2019)

 

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