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Em Biguaçu, há duas comunidades indígenas. Trata-se da tribo guarani mbyá, uma das três etnias existentes no estado de Santa Catarina.

Perguntar não ofende, mas na escola que atende essa comunidade indígena, há livros didáticos no idioma guarani? Os estudantes indígenas têm à disposição manuais, dicionários, gramáticas e outros materiais didáticos em seu idioma nativo?

Tirando uma cartilhazinha de alfabetização, se ninguém provar o contrário, não há mais nada. A prefeitura de Biguaçu e o governo do Estado não disponibilizam uma verba, por mínima que seja, para pagar alguém cujo objetivo seria aprender o idioma para redigir esses materiais didáticos.

Quando estive em 2013 no município de José Boiteux, situado no interior do vale do Itajaí, com o objetivo de coletar informações para o meu livro “Parlons Xokleng”, sobre a língua e cultura dos índios da etnia xokleng (diga-se de passagem, completamente diferentes dos guaranis mbyá de Biguaçu), não encontrei um departamento na prefeitura local dedicado ao estudo e produção de material didático para a escola xokleng da reserva indígena existente naquela região.

Eu desejava conseguir uma gramática ou algum manual de aprendizado do idioma xokleng com o objetivo de aprender os rudimentos do idioma e produzir um capítulo de introdução da citada língua, capítulo este obrigatório em todos os volumes da série Parlons, coleção da editora francesa L´Harmattan cuja “ambição” é abordar cada um dos 6 mil e poucos idiomas existentes do planeta.

Não, não encontrei na cidade de José Boiteux um “Núcleo de Estudos da Língua Xokleng”. Se o ensino da língua nativa é obrigatória nas escolas que atendem a comunidade indígena, segundo determinou a Constituição de 1988, no mínimo deveria haver tal tipo de instituição cujo objetivo seria produzir o material didático necessário para o desenvolvimento da disciplina naquela região.

Não, não existe. Em termos de Brasil, é pedir muito. A prefeitura de José Boiteux não investe numa coisa dessas. O governo do Estado também não tem investimento nesse sentido.

Em resumo: não há livro didático algum em língua xokleng. Nem dicionário. Se tiver algum material, está sendo escrito ou o foi recentemente por iniciativa de um índio chamado Nanblá Gakran, o único membro dessa comunidade até o presente momento a conquistar o mestrado e o doutorado em linguística pesquisando sua própria língua nativa, o xokleng, idioma este não falado pela maioria dos índios dessa etnia, diga-se de passagem.

Almas do Brasil. (Foto Maristela Giassi)

 

FALTA

Em suma: pouco sabemos das línguas dos índios catarinenses. Nas universidades catarinenses, não há manuais, dicionários e gramáticas das línguas indígenas guarani, xokleng e kaingang. Conhece-se, estuda-se e prestigia-se o inglês, o francês, o alemão, entre outras línguas europeias nas universidades catarinenses do que os idiomas nativos locais.

Isso é bom ou ruim? Depende do ponto de vista, mas o fato é no mínimo muito estranho. A universidade catarinense não tem um único especialista que saiba e tenha produzido manuais ensinando as línguas nativas catarinenses.

A pergunta que encabeça este artigo: por que devemos preservar, zelar e estudar nossos índios?

A primeira resposta é: se a Constituição de 1988 deu o direito da educação bilíngue aos indígenas (ter formação básica e fundamental na escola tanto em português quanto no seu idioma tribal), é evidente que, 31 anos depois da promulgação da Carta Magna, o país precisa sair desse “mundo do faz de conta” e começar a produzir material didático para que essa determinação seja cumprida de fato. Se no município há índios, que a prefeitura local ou o governo do estado invistam um mínimo para pagar o salário de alguns pesquisadores (sejam brancos, sejam índios) que façam esse trabalho: elaborar os materiais didáticos.

Será que isso é algo fora do comum ou uma tarefa hercúlea?

A segunda resposta é simples: o conhecimento sobre as línguas e culturas dos índios pode fornecer-nos preciosíssimas informações para o avanço do nosso próprio conhecimento científico.

 

LÍNGUA PIRAHÃ

Dou um exemplo. Num recanto remoto da floresta amazônica, há uma tribo indígena de apenas 400 indivíduos conhecidos como “pirahãs”, uma das 225 tribos indígenas existentes no Brasil, sem falar de outras 70 de “isolados”.

Os pirahãs são índios singulares. Em primeiro lugar, eles não falam outra língua que não a sua própria. Só há pouco tempo que alguns deles estão aprendendo a falar português.

Em segundo lugar, além de serem os únicos índios brasileiros a não desenvolverem um sistema próprio de matemática (só limitam-se a dizer “pouco” ou “muito”), os pirahãs não possuem mitos de criação. Como assim?

Nós temos a Bíblia, que conta como teria sido o início do mundo, como Deus criou a terra e as suas criaturas. Os pirahãs talvez sejam os únicos índios a não terem lendas explicando como foi o início do mundo. Eles vivem num “eterno presente”. Não se interessam em tentar especular como foi o início do mundo e, curiosamente, na língua deles não há os tempos “passado” e “futuro”. Tudo é expresso no presente.

Mas por que estamos falando dos pirahãs? Parece que esse povo foi descoberto apenas no século XX e o governo brasileiro nunca se interessou em enviar pesquisadores que pudessem conviver com eles, aprender seu idioma e produzir relatórios que gerariam uma bibliografia básica a respeito da língua e cultura desse povo minúsculo. Repetindo: os pirahãs são apenas 400 indivíduos. Talvez só no Morro do Ivo, no bairro Prado, Biguaçu, tenha mais moradores do que toda a tribo pirahã.

O tempo passou e na década de 1970 uma organização evangélica dos Estados Unidos enviou um casal de missionários para viver entre os índios pirahãs. Eram o pastor Daniel (Dan) Everett e sua esposa.

Como o nome já indica, os missionários têm como “missão” pregar a religião cristã e converter os índios, que professam suas religiões nativas.

Um dos passos iniciais desses missionários é aprender o idioma da comunidade e, aos poucos, já tendo o domínio da língua, ampliar o trabalho de evangelização. Muitos desses missionários aprendem de tal maneira os idiomas nativos que passam a produzir em seguida traduções da Bíblia.

Aqui não se tem o objetivo de contar a história dessa missão, a não ser comentar que o idioma pirahã chamou muito a atenção do missionário Dan Everett que, num determinado momento, decidiu dedicar-se à linguística e à pesquisa da língua desses indígenas.

 

CONTROVÉRSIA

O que de tão “extraordinário” Everett descobriu? Em resumo bem radical: o idioma pirahã não possui “recursividade”.

O que é isso? Aqui não se tem o objetivo de detalhar um assunto que é erudito demais para o leitor comum, porém a “recursividade” é um recurso existente em 99,9999% das línguas CONHECIDAS pela comunidade científica. Trata-se da possibilidade que permite que as frases possam estender-se ad infinitum. Entendeu? Não. Não importa. O assunto é complexo. Só saiba que o erudito norte-americano, Noam Chomsky (1928-    ), considerado um dos maiores linguistas do mundo, é o formulador da teoria da “Gramática Universal” segundo a qual a origem da capacidade do homem de falar deva-se a alguma próxima a “gene” e TODAS as línguas do mundo que surgem desse “software” alojado no cérebro têm características UNIVERSAIS (daí o nome “Gramática Universal”), entre as quais a “recursividade”. Isto é, que todas as línguas dos povos do planeta terra, segundo Chomsky, caracterizam-se pela existência da “recursividade”.

Em seus artigos e livros, Everett observou que a língua dos pirahã não possui a “recursividade”, ou seja, a teoria de Chomsky da Gramática Universal não está correta.

O que acabou gerando isso? Uma gigantesca briga no meio acadêmico. De um lado, Chomsky e seus adeptos tentando desqualificar Everett; de outro, os defensores do estudo do ex-missionário.

 

POLÊMICA

Em 2011, professores do MIT (Massachusetts Institute of Technology), dos EUA, movidos pela curiosidade, elaboraram um software específico para verificar se a língua pirahã tem ou não “recursividade”. Qual foi o resultado? Eles confirmaram: realmente não tem. Everett está corretíssimo. Pelo menos, é o que esses professores do MIT disseram.

Foi mais lenha com gasolina na fogueira das vaidades do meio acadêmico e, inclusive, essa sumidade chamada Chomsky acusando, no calor das emoções, Everett de “charlatão”, o que chocou certos eruditos que conhecem o ex-missionário hoje linguista.

Por que tantos ataques a Everett? O motivo é simples. Quem é o “ocidental, branco e civilizado” que sabe falar pirahã?

A resposta é: hoje são três, o próprio Everett, sua ex-esposa e o missionário que o substituiu. E acabou.

Quer dizer, um cidadão conhecedor de uma língua que apenas outros dois “civilizados” sabem e mais ninguém, sai literalmente do mato e afirma que a mais importante afirmação da teoria do maior linguista mundial de todos os tempos, Noam Chomsky, está completamente errada. Entenderam o tamanho da encrenca?

 

AVANÇO DA CIÊNCIA

Pois bem! Voltando ao título deste artigo: “por que devemos preservar, zelar e estudar nossos índios?”

Se Everett não tivesse tido a oportunidade de viver entre os índios pirahãs e aprendido sua exótica, desconhecida e singular língua que ninguém sabe a não ser os próprios nativos escondidos no cafundós do Judas no meio da maior floresta tropical do planeta, hoje a teoria de Chomsky seria a “verdade absoluta sem contestação e universalmente aceita”, pois não teríamos algum exemplo que demonstrasse o contrário de sua principal afirmação segundo a qual “todas as línguas do mundo tem recursividade”.

O esforço da Ciência é entender o mundo, descobrir as leis “universais”, conseguir construir fórmulas através das quais podemos enquadrar tudo no mundo. A “Gramática Universal” de Chomsky busca isso e é a mais sofisticada teoria tentando descobrir qual é a origem da língua humana.

Tudo “encaixava-se” até que apareceu essa tal de língua pirahã. Esse nome deve provocar verdadeiras úlceras no estômago de Chomsky, um erudito brilhante, mas não infalível.

Em resumo: a língua de um obscuro e minúsculo povo simplesmente colocou por terra, se ninguém conseguir provar que Everett errou, a maior teoria linguística de todos os tempos. E o interessante é que nas nossas universidades, ainda continuam ensinando “Gramática Universal” de Chomsky sem citar pelo menos o trabalho de Dan Everett. Uns por ignorância mesmo e outros, como foi no caso da Universidade de Brasília, a esmagadora maioria dos professores de linguística simplesmente boicotou a palestra de Everett realizada nessa instituição em 2011, ocasião em que detalhou sua pioneira pesquisa. Quer dizer, os professores não quiseram sequer discutir o assunto. Haja posição radical.

 

ESPÍRITO CIENTÍFICO

Repetindo mais uma vez: “por que devemos preservar, zelar e estudar nossos índios?” Porque suas línguas, suas culturas, suas cosmovisões, sua medicina, seus mitos, enfim, suas existências, podem fornecer dados para podermos entender melhor o mundo e, assim, podermos nós, os “homens brancos”, os “descendentes de europeus” e os “civilizados”, podermos formular nossa ciência com mais informações, principalmente as que desconhecíamos.

Se chegarmos a dizer que “em todas as línguas do mundo, há o recurso tal”, temos de ter a gramática de todos os seis mil e poucos idiomas. Se algum estiver de fora, corremos o risco de ter surpresas

E voltando a Biguaçu e Santa Catarina respectivamente. Será que conhecemos bem os índios guarani mbyá, xokleng e kaingang? Como podemos conhecê-los com profundidade se não temos ainda manuais de seus idiomas? Como podemos entender a medicina deles e o conhecimento de ervas de seus pajés se não sabemos a língua deles?

Como podemos melhorar a educação em geral (tanto dos próprios indígenas como também das crianças “brancas”, entre outras etnias) se não conseguimos sequer aprender as línguas indígens?

Onde houver índios, estes têm de ser estudados. Temos de reservar um percentual (o mínimo que seja) para financiar pesquisas com os índios. Temos de chegar um dia e ter TODAS as línguas indígenas brasileiras e, quiçá, sul-americanas, devidamente estudadas, enfim, sem deixar uma única sem o devido registro.  Nunca podemos deixar de pensar que em alguma delas possa haver informações inéditas que nos ajudem a fortalecer nosso conhecimento e dissipar quaisquer “vãs filosofias” que nos levem a caminhos equivocados.

Os índios são um patrimônio que não podemos perder.

 

Ozias Alves Jr (Editor)

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com.

 

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