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Miguel Simão

Historiador- Governador Celso Ramos

 

Quando a tarde caia mansamente no arraial dos Ganchos, Maria Pera descia à praia para caminhar nas águas claras do mar. Era um costume de muitos anos, e era ali nas águas que ela aliviava a tensão do dia, tranquilizava-se e até sentia suas pernas melhorar durante a noite quando ia dormir. Essa caminhada pelas águas de um canto ao outro da praia serviam também para refletir sobre sua caminhada nesse mundo.

Ficava na praia horas e horas a passear nas águas do mar, era tão bom que ela não sentia o tempo passar.

A pele morena da mistura de índio com negro nem sempre era aceita no arraial dos Ganchos, e os mais preconceituosos eram exatamente os antepassados do esposo Guilherme Simão.

Coisa do destino ou não, Maria Pera foi cair exatamente nessa família, numa história que mais parece um filme.

O avô de Guilherme Simão Alves era dono de escravos e tinha residência em Canto dos Ganchos e quando faleceu em 1838 deixou 4 escravos de posse da viúva e dos filhos.

Assim como Simão Alves, (avô de Guilherme), seus filhos não gostavam dos negros, olhavam com desprezo e achavam que eles tinham que ser escravos e pronto.

Num belo dia deixaram na porta de João Simão, dentro de um balaio uma menina. Maria Ricardo Pereira dos Santos, trouxe um documento de certidão onde constava João Pereira e Maria Joaquina dos Santos como pais. Do nome restou-lhe o apelido de Maria Pera por causa do Pereira do pai.

A vida do casal não era nada fácil, João Pereira era um negro escravo desertado e Maria Joaquina de família de índios. Com dó, João Simão resolveu criar a menina.

Aos 14 anos, Maria Pera como era conhecida, casa com Guilherme, o filho do homem que lhe criou. O casamento durou 51 anos, quando Guilherme Simão Alves veio a falecer em 1942. O Arraial dos Ganchos era uma comunidade simples de pescadores e poucos agricultores e artesãos.

Do casamento teve cinco filhos: Eusébio Simão Alves, Juliana Maria (Alves) da Silva, Guilherme Simão Filho, Margarida Maria Lino e João Guilherme Simão Alves.

Maria Pera se dedicava a vida de dona de casa que na época era bastante difícil, visto que além de cuidar dos filhos, tinha que cozinhar e limpar a casa, e ainda abastecer a casa com lenha, sem contar a lida com a limpeza dos peixes.

Era rezadeira e parteira, tratava as pessoas com remédios caseiros que ela mesma plantava no quintal da casa.

Em suas caminhadas na praia acompanhada pelas filhas Juliana e Margarida, Maria Pera falava de suas lutas. Lembrava dos dias difíceis que teve de superar e das dificuldades para criar os filhos praticamente só, sem ajuda de ninguém. Olhava para o morro e lembrava do tanto de vezes que subiu em busca de lenhas. Das colheitas do café que era em abundancia e das farinhadas. De tudo isso ela lembrava, sabendo que seu sacrifico valeu a pena pela criação dos filhos.

Maria Pera trabalhou muito, foi mulher de luta e de garra.

E no dia 12 de janeiro de 1946, se despede da velha casa de paredes brancas com janelas abertas para o mar. Despede-se dos filhos e dos netos, e parte para a eternidade na certeza que cumpriu sua caminhada na terra. Nessa terra em que nasceu, e que a cada dia teve que vencer obstáculos diante das diferenças que havia.

Deixou um legado de trabalho, de luta e de honestidade que muito nos orgulha. Mas deixou também a luta contra o preconceito racial, pois era na casa dela que outros negros vinham se abrigar quando vinham para essa região conhecida por não aceitar negros. Maria Pera acolhia todos e ordenava os filhos que atendessem bem e não deixasse ninguém maltratá-los. Homens e mulheres, que vinham de Tijucas, de Biguaçu e regiões adjacentes encontravam na casa de Maria Pera segurança, para que pudessem caminhar em Ganchos tranqüilos.

Maria Pera a negra dos Ganchos.

Da Genealogia da família de Maria Pera

Filhos: Eusébio Simão Alves, Juliana Maria (Alves) da Silva, Guilherme Simão Filho, Margarida Maria Lino e João Guilherme Simão Alves

João Guilherme Simão Alves (1901 – 1948) casou com Maria dos Anjos (Nunes) Alves (1900 – 1996)

Filhos: João Simão Filho, Orlando João Simão, Antônio João Simão, Alcebíades João Simão, Ondina Maria (Alves) da Silva, Jorge João Alves, Manoel João Alves e José João Alves.

 

João Simão Filho (1920 – 1974) casou com Iolanda dos Santos Simão (1925 – 1997)

Filhos: Maria Iolanda (Simão) Baldança (1946), Edvaldo João Simão (1948 – 2015), Edealtina Iolanda (Simão) Nicácio (1948), Eli Iolanda ( Simão) dos Santos (1952), Edi Iolanda Simão (1953- 1955) Pedro João Simão (1954), Jorge João Simão (1956 – 1958), Miguel João Simão (1960), Edmir João Simão (1963), Edir Iolanda (Simão) Nazário (1964), Maria Natália Simão (1968).

 

 

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