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Faleceu no final da tarde deste domingo (25/10/2020), no hospital da Unimed em São José, o juiz de Direito aposentado e escritor, Carlos Ronald Schmidt, 84, que assinava artisticamente como “C. Ronald”.

Seu Carlinhos, como também era conhecido, faleceu vítima de um câncer nos pâncreas infelizmente descoberto 12 dias atrás. A doença foi descoberta em 13 de outubro último e C. Ronald passou duas semanas internado.

Retornou para casa na sexta-feira (23/12). Participou de um almoço de família em sua casa, na rua Marechal Deodoro, ao lado da estação de ônibus recém reinaugurada e em frente à loja Koerich, no centro de Biguaçu.

Passou o sábado, porém na madrugada deste domingo (25/10), passou mal com muitas dores. Foi levado às pressas para o hospital da Unimed, onde faleceu aos 84 anos. Completaria 85 anos em 2 de dezembro deste ano.

  1. Ronald, que publicou 30 livros de poesia, iria publicar outros dois neste ano de 2020, mas a pandemia acabou adiando.

Schmidt deixou a esposa dª Neide e os filhos André, Bernardo (Bino), Ariadne e Amarilis.

Em anexo, uma breve biografia de C. Ronald que foi um dos expoentes da moderna poesia catarinense.

 

C. Ronald: O “pianista” dos versos

Ozias Alves Jr

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com

 

Tudo começou quando Carlos Ronald Schmidt quis aprender piano. Seus pais enfureceram-se porque, para eles, tocar piano era coisa de “maricas”. Parece absurdo, mas isso era ideia corrente nos anos 1940, quando o fato ocorreu. Perdeu-se um pianista que não quis passar por perto de qualquer insinuação maldosa de “pederasta” ou “viado”, mas Santa Catarina ganhou um consagrado poeta High Quality que transformou a sensibilidade que seria integrada à música numa extensa estrada que se chama “Poesia”, a “viagem” na qual não se precisa sair do lugar para vagar entre o Céu e a Terra, como lembrava o célebre Shakespeare.

No rol dos mais conceituados poetas de Santa Catarina, Carlos Ronald reside em Biguaçu desde a década de 1970. É casado com Neide Maria Silva Campos, “filha da Terra” e neta e sobrinha respectivamente de Alfredo Álvares da Silva (Fedoca) e Ulmar Sardá da Silva, antigos ex-prefeitos de Biguaçu. O casal tem quatro filhos.

Descendente de alemães, dos quais herdou a disciplina, C. Ronald, assim como ele assina em seus livros e é conhecido no meio literário, veio ao mundo em 2 de dezembro de 1935, em Florianópolis. Passou a infância nas ruas João Pinto e Tiradentes, onde também viveu no século passado o escritor Luís Delfino, que Carlos admira muito.

De família de boas condições financeiras, Schmidt teve uma juventude tranquila. Estudou no tradicional Colégio Catarinense. Aos 17 anos, já andava em seu próprio carro, conquistando as garotinhas do pedaço. Era “la Belle Epoque” de Florianópolis.

Em 1958, ingressou na faculdade de Direito, formando-se em 1962. Em 1966, passou no concurso para Juiz de Direito. Fez carreira na magistratura nas comarcas de Concórdia, Guaramirim, Braço do Norte e Biguaçu, onde aposentou-se nos anos 70.

Começou a escrever aos oito anos de idade. Teve seus primeiros poemas publicados nos jornais O Estado e Gazeta. Jovem, entrou para o “Grupo Litoral”, um clube de escritores e intelectuais que se reuniam para discutir literatura e artes e também para avaliar os trabalhos dos colegas. Entre os integrantes do grupo estavam Iaponan Soares, os irmãos Paschoal e Nicolau Apóstolo, Pedro Garcia, Rodrigo de Haro, entre outros.

Antes, havia o “Grupo Sul”, encabeçado pelo romancista Salim Miguel. Também dos mesmos moldes, os integrantes do grupo de Salim, alguns dos quais filiados ao Partido Comunista, deram um caráter mais político aos seus trabalhos artísticos. Já o Grupo Litoral não dava muita importância ao assunto. Ligava-se à ideia da “Arte pela Arte”.

O primeiro livro publicado de C. Ronald foi “Poemas” (1959). No ano seguinte, publicou “Cantos de Ariel”. Mas Schmidt não gosta desses livros. Considera-os fracos por terem sido escritos na juventude, sem a estética que possui hoje, já maduro e exigente.

Além dessas duas obras, Carlos publicou os seguintes livros de poemas- “As Origens” (1971), “Ânua” (1975), “Dias da Terra” (1978), “Gemônias” (1982), “As Coisas Simples” (1986), “Como pesa!” (1993), “A Cadeira de Édipo” (1993), “Cuidados do Acaso” (1995) e “Todos os Atos” (1997).

O autor possui uma obra traduzida para o italiano “Dettagli dell’Assenza” (Detalhes do Ausência) (1975). C. Ronald escreve também em espanhol. Tem um livro inédito naquele idioma intitulado “ El água que hierde” (A Água que ferve). Não escreve apenas poesia. Ele já possui 10 peças de teatro, entre elas “A Limousine de Goethe”, sobre a perseguição no Brasil aos descendentes de alemães durante a 2ª Guerra Mundial . Não os publicou ainda porque considera o material insatisfatório. “Sou muito exigente com meu trabalho”, observa. Pelo conjunto de suas obras, ele recebeu em 1996 o prêmio Othon D’Eça, conferido pela Academia Catarinense de Letras.

Ronald não usa macacão de piloto como Gabriel Garcia Marquez quando senta na escrivaninha, mas escreve seis horas diárias, o mesmo ritmo de trabalho do famoso escritor colombiano. Com relação a seus poemas, recebe frequentemente elogios da crítica especializada. “À primeira vista, sua poesia é difícil, não passa todavia a impressão de um problema de penetração no seu contexto. Só os habituados às leituras sem artesanato intelectual ou atacados de preguiça mental esbarram naquela primeira impressão; efetivamente não é poesia para ser lida apenas com os olhos, exige a participação do cérebro”, analisou Theobaldo Jamundá (in memoriam), sobre o trabalho de C. Ronald, o “pianista” que explora a música das palavras.

Em 2013, C. Ronald foi eleito para a Academia de Letras de Santa Catarina.

C. Ronald com sua biblioteca pessoal. Ele tinha o costume de só ficar com os livros que mais apreciava e os encadernava. (Foto Acervo Família)
Poeta tinha 84 anos de idade. (Foto Acervo Família)
Em sua mesa de trabalho literário. (Foto Acervo Família)
C. Ronald. (1935-2020). (Foto Acervo Família)

 

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