Por: Ozias Alves Jr. | 12/03/2018

A história do advogado e membro da Academia de Letras de Biguaçu, Alfredo da Silva, 82, explica-se pela seguinte constatação: foi um homem que nunca perdeu oportunidades. Nascido literalmente no meio do mato no interior de Santa Catarina, Alfredo não vacilou nunca em agir quando deparou-se com alguma oportunidade para melhorar de vida.

“Fico espantado com a juventude de hoje, que convive com mais oportunidades do que a minha geração, não aproveita nada. Com o surgimento da internet, com a informação transbordando e as oportunidades de se instruir e trabalhar, no mínimo esperava que a juventude hoje fosse mais informada, instruída e humanizada. O número de instruídos deveria ser bem maior e o de delinquentes deveria ser bem menor. Mas ocorreu o contrário e isso realmente me deixou surpreso”, comenta.

Alfredo Silva, 78, nasceu em 29 de novembro de 1934, na localidade de Rio da Prata, hoje município de Anitápolis, interior de Santa Catarina. É um dos nove filhos dos agricultores José Alfredo da Silva e Luíza Vargas da Silva (ambos in memoriam).

O avô paterno de Alfredo também tem o mesmo nome de Alfredo da Silva. Natural de Santo Amaro da Imperatriz, este ancestral, numa ida a Florianópolis, conheceu a descendente de italianos Maria Cristina Parmezano, cuja família morava numa casa quase debaixo da ponte Hercílio Luz, no Estreito.

Casaram-se e mudaram-se para Rio da Prata, Anitápolis, na época uma colônia agrícola em expansão. Entre os filhos do casal, estava José Alfredo, pai do entrevistado.

Já sobre a família de sua mãe Luíza Vargas, Alfredo informa que era oriunda de Tubarão e migrou para a mesma região de Rio da Prata.

Os pais de Alfredo eram agricultores. Plantavam milho, feijão, batata, mandioca, aipim, alface couve e repolho. Vendiam para armazéns de Anitápolis e estes revendiam os produtos para atravessadores de Florianópolis e Tubarão.

A população de Anitápolis era majoritariamente de origem alemã, com os quais a família de Alfredo convivia harmoniosamente. Na década de 1930, havia raríssimas famílias afrodescendentes na região de sorte que Alfredo, aos cinco anos de idade, assustou-se quando viu um homem negro pela primeira vez. Pensou seriamente que poderia ser um homem feito de carvão e, se o mesmo recebesse um jato d´água, poderia ter a tinta descolada. Coisas de pensamento de criança.

 

Família muda-se para Criciúma e depois para Tubarão

 

MINAS- E por falar em carvão, em 1941, Alfredo mudou-se com a família para Criciúma. Seu pai ouviu maravilhas sobre as minas de carvão de lá e resolveu tentar a sorte por lá. O pai foi trabalhar na famosa usina Próspera, aquela que mais tarde fundaria um time de futebol de mesmo nome.

A viagem de Rio da Prata para Criciúma foi feita a pé. Seus pais puxavam uma mula que transportava dois cestos. Os dois irmãos menores ficavam em cada lado desses cestos. Como tinha 6 para 7 anos de idade,  Alfredo ia a pé porque já sabia andar.

Foram cinco dias de caminhada num caminho de terra precário, a “rodovia” da época. À noite, dormiam em ranchinhos à beira do caminho. Seu pai pedia permissão aos donos permissão. Na época, havia muita solidariedade.

O pai de Alfredo, logo que chegou a Criciúma, conseguiu emprego de mineiro, mas não se adaptou. Arrendou um terreno numa cidade próxima a Criciúma chamada Cocal e logo passou a plantar, o que fazia antigamente em Anitápolis.

Nessa época, Alfredo passou a trabalhar com o pai na lavoura. Mais tarde, em 1945, quando Alfredo tinha 11 anos de idade, prestes a completar 12, seu pai resolveu mudar-se para o bairro Humaitá, em Tubarão, onde passou a trabalhar como operário da construção civil.

Nessa época, Alfredo passou a trabalhar de vendedor de “camboim”. Tratava-se de uma raiz arrancada de banhados. Cortado e rachado, era uma excelente lenha. Vale lembrar que bujão de gás não existia na época e, se existia, era apenas para as famílias mais ricas. O fogão era à lenda e Alfredo ia de casa em casa vender molhes de lenha de camboim, carregados por seu cabrito.

Em Tubarão, já se encontrava um tio seu chamado Vitorino Fernandes, dono de um bar e restaurante. Alfredo conseguiu um emprego lá. Era quem preparava o café feito num fogareiro cujas chamas eram alimentadas através de uma bomba de ar, uma tecnologia da época, lembra o entrevistado.

 

Bolsa de estudo em colégio bom vira promessa não cumprida

 

OPORTUNIDADE ILUSÓRIA- Alfredo começou a estudar quando morava em Rio da Prata e, em Tubarão, voltou à escola. Não se lembra direto, mas em 1949 ou 1950 começou a ser construído o futuro Ginásio Coração de Jesus, a mais importante escola de Tubarão. Seu pai era um dos operários contratados para a obra.

Alfredo estudava à tarde no Grupo Escolar Hercílio Luz, mas antes de ir para a escola, ao meio dia, passava no canteiro de obras. Ele trazia numa maletinha de madeira a comida e o café para seu pai. A dita maleta de madeira foi construída pelas mãos habilidosas de seu pai.

Padre Dionísio, diretor do ginásio em construção, numa visita ao canteiro de obras, viu Alfredo levando a comida para seu pai. Gostou do menino. Perguntou m que ano se encontrava e o jovem respondeu estar terminando o primário.

“ Então por que não entra no ginásio que vai ser inaugurado ano que vem? Vamos arranjar uma bolsa prá você. Só precisa passar na prova de admissão”, disse-lhe o padre.

Alfredo ficou entusiasmado. Afinal de contas, era uma grande oportunidade- estudar em “Escola de Rico” sem precisar pagar (um alívio para bolso de família de trabalhadores).

Alfredo fez a prova de admissão e passou. No ano seguinte (1950 ou 1951), ingressou no ginásio do Coração de Jesus.

Mas como diz o ditado, “alegria de pobre dura pouco”. Mal tinha completado dois meses de estudo no ginásio, na época escola para famílias mais abastadas, eis que o padre Dionísio chamou-o para uma conversa em seu gabinete. Constrangido, medindo as palavras com delicadeza, eis que o padre disse que não tinha como mantê-lo na escola, pois não tinha mais verba para bolsas de estudo. Ou seja, Alfredo não tinha mais bolsa de estudos e, portanto, tinha de sair daquela escola.

Mas o jovem não ficou chateado. Em contato com o Grupo Escolar Hercílio Luz, a escola pública onde tinha formado-se no primário no ano anterior, conseguiu matrícula para fazer o curso complementar. Mais tarde, ingressou no “Curso Normal Regional”, equivalente ao ginásio, mas para formação de professores.

 

Ao servir um cafezinho, Alfredo ganha a oportunidade de virar radialista

 

RÁDIO TUBÁ– Era 1951. Alfredo encontrava-se com 17 anos de idade. Era por volta das 6h30 quando ele estava no restaurante de seu tio preparando o café para atender funcionários da empresa de ônibus Santo Ângelo.

Eis que em certa ocasião, Edgar Lemos, diretor da rádio Tubá, apareceu mais cedo do que o habitual e disse: “Alfredo, quero um cafezinho bem fresquinho”.

O jovem preparou e, quando entregou a xícara, disse imitando a voz do locutor da rádio: “Café Castro: 100% melhor”.

Castro era uma marca de café da época na região. O diretor da rádio disse: “Diga de novo”. Alfredo repetiu: “Café Castro: 100% melhor”.

“Quer trabalhar na rádio”, perguntou Lemos. O jovem respondeu surpreso: “Oh, seu Edgar. Mas eu nunca vi um microfone na minha vida”.

O diretor combinou para que Alfredo aparecesse às 13h daquele mesmo dia para fazer um teste de locução na sede da rádio. O jovem não perdeu a oportunidade. Fez o teste, que consistia em ler várias propagandas.

“A voz é boa, mas você tem de ler como se estivesse conversando”, aconselhou Lemos.

Alfredo fez o teste, mas o diretor não anunciou o resultado nem quando iria chamá-lo para trabalhar na estação. Em todo o caso, Alfredo ficou confiante de que iria um dia trabalhar como radialista. Era só questão de tempo e paciência. Enquanto não vinha a contratação, o jovem passou a ler em voz alta e pausada tudo que era rótulo de garrafa e embalagens em geral, só para sentir a sua voz.

 

Locutor toma porre na sexta de carnaval e Alfredo vira radialista no sábado

 

LOCUTOR– E a oportunidade apareceu num sábado de carnaval. O apresentador do programa das 10h ao meio dia simplesmente não apareceu, pois tinha tomado um porrete na noite anterior.

O diretor da rádio apareceu no bar onde Alfredo trabalhava. “Vitorino. Estou precisando o Alfredo urgente”, disse o diretor ao tio e patrão do jovem.

Lemos explicou a situação, mas Vitorino disse que não tinha como liberar o sobrinho porque o bar estava lotado naquela manhã de sábado de carnaval.

Mas o diretor argumentou e, no final, o tio acabou cedendo. Alfredo foi correndo para a rádio, cuja sede não ficava longe do restaurante. E fez bonito. Sua voz saiu perfeita. Após o programa, voltou para o restaurante e alguns fregueses que o escutaram passaram a dizer: “Olha o locutor!”

E foi assim que Alfredo iniciou uma carreira de locutor de rádio.

Em 1952, aos 18 anos de idade, Alfredo acabou sendo convocado a servir o exército. Teve de se mudar para Florianópolis. Serviu no 14 BC (hoje 63), com sede no bairro Estreito.

Na época, ainda não tinha formado-se no curso normal regional. No entanto, o comandante do 14 BC permitiu-o continuar os estudos para se formar. Ingressou na Escola Técnica Sena Pereira. Mais tarde, após concluir o curso normal, fez um curso de técnico de contabilidade no Grupo Escolar Haroldo Callado.

Era setembro de 1953, data que Alfredo lembra-se perfeitamente, quando sua família o visitou no quartel do exército. Vieram despedir-se dele, pois estavam mudando-se para a vila de Maripá, situada além de Toledo e Cascavel, interior de Paraná. Era outra frente de expansão agrícola e o pai de Alfredo mudou-se para plantar milho, feijão e mandioca, além de atuar como desmatador.

 

Jeitinho ajuda a dar baixa no Exército

 

 DIONÍSIO CERQUEIRA– No exército, Alfredo fez um curso e acabou sendo promovido a cabo. Poderia ser promovido a 3º sargento, mas não quis seguir carreira, pois soube que, se aceitasse o posto, teria de mudar-se para o Mato Grosso.

“Pela legislação militar, eu poderia pedir baixa do exército se conseguisse nomeação em algum cargo público. Então procurei o secretário estadual de educação da época, o professor Abelardo, que morava no Estreito. Eu tinha acabado de me formar no ginásio”, conta.

Era carnaval e Alfredo apareceu no Lira Tênis Clube, onde encontrou o secretário Abelardo.

Explicou a situação com as seguintes palavras: “Preciso de um grande favor do senhor, professor Abelardo. Preciso de uma nomeação como professor do curso primário.”

“Por quê?”, indagou.

“Porque estou no exército e quero pedir dispensa. Pelo regulamento militar, só saiu se tiver uma nomeação como funcionário público”, explicou o jovem.

“Então, não vai no meu gabinete na quarta-feira de cinzas. Venha na quinta”, orientou o secretário tomando um whisky.

E deu tudo certo. O secretário o nomeou para uma vaga de professor na cidade de Dionísio Cerqueira, fronteira de Santa Catarina com a Argentina.

Apesar da distância, Alfredo aceitou o cargo, conseguiu a dispensa do exército e no dia seguinte, embarcou num ônibus numa longa e cansativa viagem, feita em estradas sem pavimentação daquela década de 1950.

Mas havia um problema. Já havia uma professora nomeada na escolinha de Dionísio Cerqueira. O secretário Abelardo orientou Alfredo a informar àquela professora que só ficaria um mês lá “para acertar a situação” e depois retornaria para Florianópolis. Ou seja, Alfredo não estava ali para tirar a vaga dela.

A professora era do PSD, partido do secretário de educação. Eis a razão dessas explicações todas. Conforme o combinado, um mês depois, Alfredo retornaria a Florianópolis.

 

No papel, salário era dois mínimos, mas na prática só a metade

 

INUSITADO- Na capital, Alfredo passou a trabalhar como professor primário e, para incrementar a renda, conseguiu emprego na antiga loja de roupas “Modelar”.

Mesmo sendo uma empresa particular, a loja promovia um concurso para escolher seus funcionários. Alfredo submeteu-se ao exame e passou.

O rendimento era dois salários mínimos, conforme estava especificado no edital do concurso particular de admissão. No entanto, quando recebeu seu primeiro salário, Alfredo constatou que era apenas um. Foi questionar com o dono da loja, um judeu chamado Jacques Schweidson, que foi autor de livros como “Saga Judaica na Ilha do Desterro” e “Judeus de Bombacha e Chimarrão”, a razão disso:

“Por enquanto, você está na experiência”, disse o proprietário da loja salientando que poderia pegar em mercadorias o equivalente ao salário que faltava. Foi então que Alfredo trocou o salário que faltava por roupas.

Em 1955, Alfredo deixou o emprego de vendedor na loja Modelar. Razão: estava sendo inaugurada uma nova rádio em Florianópolis, a “Diário da Manhã”.

Quando serviu o exército, Alfredo fez um programa na rádio Anita Garibaldi. O comandante do batalhão deu-lhe autorização, mas salientou que o jovem tinha de trabalhar fardado.

Nessa época, apresentava o programa “Retalhos d´Alma”, junto com um J.J. Barreto, um médico muito popular na época, que tinha o hábito de dizer palavrões e gozações.

“Eu me lembro que o doutor J.J. Barreto dizia para as mulheres grávidas, que o procuravam por causa de dores. Ele dizia: agora está doendo? Mas antes não estava, né!!!”

 

Trabalho em rádio dura duas décadas

 

DIÁRIO DA MANHÖ Morando numa pensão na rua Marechal Deodoro, no centro de Florianópolis, Alfredo procurou a direção da rádio Diário da Manhã em busca de emprego. O diretor que o conhecia disse: “Nossa equipe já está montada, mas quem sabe você queira inaugurar a Diário da Manhã de Lages”.

Alfredo aceitou o convite e mudou-se para Lages, onde ficou por dois anos, até julho de 1957. Voltou para Florianópolis. Motivo: soube que a matriz da rádio na capital iria inaugurar transmissão por ondas curtas 31 metros, que permitiam que a estação foi ouvida no planeta inteiro. “Eu queria ser escutado no mundo inteiro. Mesmo que meu salário iria diminuir, resolvi mesmo assim voltar para Florianópolis”, observou.

Dito e feito. Alfredo conseguiu um programa e, em pouco tempo, passou a receber cartas dos mais diversos países. Era de marinheiro brasileiro que se encontrava no Japão, de ouvinte do Chile, da Europa etc.

Ao todo, Alfredo trabalhou quase 20 anos como radialista na Diário da Manhã e um ano e meio na rádio Guarujá. Em 1970, encerrou seu trabalho como radialista. Motivo: havia passado num concurso para professor do curso de sociologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e, pelo regulamento, tinha de ter dedicação exclusiva, ou seja, não poderia ter outro emprego.

Mas para conseguir o emprego de professor de sociologia, foi literalmente uma aventura.

Em 1958, Alfredo ingressou na faculdade de história da antiga Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, instituição que antecedeu a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Esta última surgiu em 1960.

Em 1962, formou-se em história e passou a atuar como professor da matéria na Escola Técnica Sena Pereira e depois no Instituto Estadual de Educação (I.E.E).

Em 1964, passou no concurso para a Escola Técnica Federal, situada na rua Mauro Ramos, em Florianópolis. Nessa época tinha três empregos. Dois de professor e na rádio.

Em 1967, Alfredo ingressou na faculdade de Direito da UFSC. Em 1970, um ano antes de se formar, eis que apareceu a oportunidade de trabalhar no curso de Sociologia daquela universidade.

 

Concurso para professor de Sociologia: A Grande Oportunidade

 

UFSC- Tudo começou quando a UFSC abriu concurso, mas Alfredo constatou que não havia aberto vagas para professor do curso de história, no qual havia formado-se.

Um amigo, o professor Nereu do Valle Pereira, diretor do departamento de Ciências Humanas da UFSC, disse-lhe: “Por que não faz então concurso na minha cadeira, a sociologia?”

Alfredo respondeu: “Oh, professor Nereu. Eu só tive sociologia um ano no curso de didática.”

Nereu retrucou: “E então? Então já tiveste sociologia no currículo. Então faça a prova”.

E a conversa prosseguiu e, no meio da mesma, Nereu questionou: “Mas você tem algum trabalho publicado em sociologia?”

Alfredo suou frio. Claro que não, mas não poderia admitir. Se admitisse, sua candidatura à vaga de professor da matéria já encerraria ali mesmo. Mas com presença de espírito, Alfredo respondeu: “Bem, eu só não trouxe. Pensei que não precisava”.

Ele foi autor de várias apostilas de história e OSPB que redigiu para seus alunos na época de professor primário e ginasial. Mas o que fazer se não tinha nada em sociologia?  Como se diz no ditado popular, “aí é que a porca torcia o rabo”.

“Preciso desse emprego. O que vou fazer”, martelou-se. Então ele teve a ideia simples, mas “brilhante”.

Era sexta-feira e o prazo final de encerramento da inscrição era às 18h de segunda. Foi então que Alfredo dirigiu-se para a antiga livraria Lunardelli, no centro de Biguaçu, de seu amigo, o livreiro Odilon Lunardelli (in memoriam).

Comprou um manual de sociologia de um autor de sobrenome Fontoura e uma caixa de papel estêncil.

 

Livro é escrito num fim de semana para inscrever-se em concurso

 

LIVRO EXPRESSO– “Fui prá casa e coloquei uma garrafa térmica cheia de café ao lado da máquina de escrever e fui ler ao mesmo tempo que escrevia”, conta Alfredo.

Como não havia xerox, o papel estêncil era usado para fazer cópias. A ideia de Alfredo era escrever um pequeno livro datilografado com cópias artesanais em estêncil.

Qual o título do livro? Pensou e pensou até que chegou ao título ideal: “Roteiro de Sociologia para Iniciantes”.

Trabalhou o fim de semana todo e na manhã de segunda estava com os originais. Ao todo, imprimiu 25 cópias.

Procurou um amigo chamado “Aguiar”, dono de uma oficina silk screen. “Aguiar, preciso de uma capa para meu livro”.

“E prá quando você quer?”, indagou Aguiar.

“Prá ontem”, respondeu Alfredo explicando que precisava o mais rápido possível, pois às 18h tinha de entregar o livro na inscrição do concurso da universidade.

“É impossível. Meu desenhista ainda vai almoçar e essas coisas demoram. Não sei se ele consegue terminar a capa antes das 18h”.

“Mas eu pago o almoço dele”, disse Alfredo.

“Então vai falar com ele”, sugeriu o amigo.

Alfredo convenceu o desenhista a ficar na oficina na hora do almoço. Disse que iria levar para ele uma “marmita” caprichada.

“Não precisa não, seu Alfredo. Uma batatinha frita e um bife já estão bem na conta”, disse-lhe o desenhista.

O desenhista, cujo nome era “Douglas” (o sobrenome o entrevistado já não se lembra mais),  desenhou e pintou uma capa colorida. Em seguida, imprimiu e a oficina fez a encadernação das 25 cópias. Parecia até um “livro” de verdade.

Antes de partir para a UFSC, Odilon foi à livraria Lunardelli. “Odilon, vou deixar 10 livros para você vender na livraria”.

“Qual o preço que vou colocar aqui na vitrine?”, questionou o livreiro.

“O preço que tu quiseres”, disse o autor.

“Humm. Dá prá vender por 8 cruzeiros (dinheiro da época)”.

Na inscrição do concurso, Alfredo deixou para a mesa examinadora cinco exemplares de seu livro escrito às pressas. Fez as provas e passou. Durante 21 anos, foi professor do curso de sociologia da UFSC. Ingressou em 1970 e saiu em 1991, quando aposentou-se.

 

Após a aposentadoria, Alfredo dedica-se à advocacia

 

DIREITO– Depois da aposentadoria, Alfredo passou a atuar como advogado. “Eu já advogava antes, mas depois que me aposentei como professor de sociologia, passei a me dedicar à advogacia”, observa.

Alfredo fez uma especialização e um mestrado em direito. Só não fez doutorado. “Minha dissertação de mestrado teve como título “Autonomia Municipal em Face às Associações”. Pesquisei os municípios de Florianópolis, Joinville e Lages”, observa.

Sobre a justiça, Alfredo lamenta que seja tão demorada. “É preciso aumentar o número de varas, juízes e promotores e também resolver o problema de excesso de recursos. Processos simples precisam ser resolvidos na hora. É verdade que surgiu o juizado especial, mas infelizmente sua estrutura é pequena e acabou engolido numa avalanche de processos. Não é possível termos uma justiça cuja maioria dos processos só tem um fim em 10, 20 ou 30 anos. É inconcebível”, observa.

Sobre sua vida como advogado, Alfredo lembra-se de vários casos, entre os quais um caso de ingratidão que ele levou na esportiva, sem ressentimentos.

Foi num divórcio que ele advogou gratuitamente por pena da cliente, uma senhora muito pobre de São José que queria casar-se com um cidadão oriundo de São Paulo cujo divórcio não saia.

O processo de divórcio estava num cartório de São Paulo, mas o mesmo estava demorando uma eternidade para enviar o documento via correio.

De tanto a mulher literalmente encher a paciência de Alfredo que este resolveu viajar a São Paulo só para pegar o dito documento num cartório do bairro Jardim América.

Trouxe e anexou o documento ao processo que estava tramitando no fórum de São José.

“ A senhora está contente agora?”, perguntou Alfredo.

“ Sim, estou contente, mas que o senhor é muito enrolão, é”, disse a mulher na queima-roupa.

Quando contou essa história, Alfredo ri às gargalhadas, mas no fundo do fundo, foi um típico caso de  ingratidão.

 

Advogado entra para a Academia de Letras de Biguaçu

 

CULTURA– Em 2003, Alfredo foi convidado para fazer pare da Academia de Letras de Biguaçu. Ele gosta de escrever contos e faz seus versos.

Em 1971, publicou um livro intitulado “Paz 14 x 3”, baseado no sistema da organização urbana, uma teoria da sociologia em voga na época.

Como membro da academia de letras, participou de várias antologias.

Sobre o mundo de hoje, um verdadeiro contraste com relação aos anos de sua juventude, entre as décadas de 1930 e 1940, Alfredo ficou espantado com o surgimento da “internet”. “Nunca vi tanta informação transitando pelos computadores e tanta comunicação instantânea, bem diferente do meu tempo em que a gente se comunicava por cartas e, quando muito, por telex”, conta.

Alfredo queixa que não sabe nada de informática, não tem e-mail nem sabe mexer num computador. “Cheguei à conclusão que sou um analfabeto digital.  Se não fizer alguma coisa para resolver esse poblema, vou morrer como analfabeto digital”, observa.

Ele comenta que na justiça do trabalho, se não souber usar a informática, não se consegue mais advogar porque os processos são protocalados digitalmente. “Essas coisas de informática são resolvidas pelo meu filho e a equipe de nosso escritório”, conta.

O advogado comenta que hoje o mundo parece mais violento do que antes. “Mas isso é uma falsa impressão. Na realidade,  hoje a violência aparece mais por causa da mídia e da informática. Antigamente a notícia demorava muito. Hoje quando acontece um assassino horrível, é noticiado quase que instantaneamente. Por isso, dá a impressão de que a violência aumentou. Mas tem um detalhe: ela realmente aumentou porque a população aumentou muito, demais. Vilarejozinhos que conheci na minha juventude, hoje já são cidades enormes”, observou.

Alfredo tem três filhos, frutos de dois casamentos. Seu filho mais velho é Alfredo Silva Jr (1975), hoje advogado em Biguaçu, Renata (1982) e Gustavo (1985).