Por: Amanda Arruda | 28/06/2018

Se o pior acontecer, meu amigo, ouça o meu conselho de agora, porque quando o amanhã chegar e tudo já houver ocorrido, eu não mais poderei te alertar sobre nada. Então é melhor que você preste muita atenção no que estou dizendo para que eu possa ser inteiramente compreendida. Eu sei que talvez essas palavras sejam apenas jogadas ao vento como um grito no vácuo que ninguém quiçá escute. Mas por você, a quem não tenho mal algum a desejar, eu tentarei bradar o mais alto e claro que me for possível.

Se o pior acontecer, meu amigo, todos vão perder os próprios direitos e suas próprias garantias. Alguém poderá invadir seu lar a qualquer momento, apenas porque alguém ali pensa. E para eles, pensar é perigo. Se o pior acontecer, eu não sei qual órgão do teu corpo será mais temido: o teu cérebro ou tua garganta. Você e todos os outros terão medo do próprio tom de voz e da própria mente, a menos que nunca tenham possuído nem um nem o outro, pois talvez a sua voz tenha se autosilenciado pelos anos de censura que já existiram outrora e nos deixou de herança essa mentalidade de pensar apenas dentro de nós mesmos, sem quaisquer preocupações com a profundidade das coisas do mundo real.

E é por causa disso que haverá gente lutando e morrendo. Ninguém morrerá por si mesmo. Morrerão por quererem o melhor para os outros. Todos terão seu brado perdido e herdarão um mundo de silêncio. Enquanto isso, os poderosos irão roubar os nossos bolsos, assaltar as nossas almas, massacrar a nossa tez, silenciar as nossas opiniões, censurar nossos poemas, enrijecer-nos as cordas vocais e apunhalar-nos com a bruta espada que amordaçará o nosso eu. Eles nos manterão escravos ao poder deles, por meio do embrutecimento da vida. Você não poderá abraçar um amigo na rua, não poderá dizer uma só palavra, não poderá dar um só sorriso, porque a mordaça estará em todos os lugares, vigiando-te. Você, talvez, poderá ter a sorte de sobreviver, e se a tiver, poderá dizê-lo, mas não esqueça: você será apenas um sobrevivente, mas sem nunca haver estado vivo antes. Serás sempre um morto sem sequer perceber isso. Só existe vida quando o povo é soberano de si mesmo.

Se o pior acontecer, tu estarás em casa vendo sua televisão e lendo o seu jornal da manhã, enquanto outros estarão sangrando em paus de arara por você. Para tentar reconquistar a liberdade que perdeste, se é que um dia a tiveste, porque talvez você nunca tenha se permitido ser livre. Mas não serão apenas esses que sangrarão. Irão sangrar também crianças, mulheres gestantes, e talvez o teu próprio coração sangre pela dama noturna que levará aquele amigo ou aquele irmão que fará falta para sempre. Se o pior acontecer, nós pagaremos todos os impostos. E dessa vez, eles não serão pagos com moedas, nem cheques, nem notas, mas sim com as gotas do sangue corrente em nossas veias.

Meu amigo, não peças para que o pior aconteça. Porque se o pior acontecer, o que restará é uma sanguínea taça de veneno e é você quem deverá juntar os cacos de sua cólera. Paremos de procurar rivais. Nós precisamos nos unir, deixar de lado as rixas políticas e parar de procurar inimigos que nunca hão de ter. Devemos procurar melhorar as coisas e não piorá-las. Devemos ser livres e bradar sempre em favor de nossa própria liberdade. Quebre este Cálice, meu amigo. Este cálice de silêncio é fino demais, e um só brado teu bastará para estilhaçá-lo. Deixai que os livros falem mais alto que o barulho do chumbo. Deixai que o amor nos corações falem mais alto do que a desesperança. Precisamos deixar de sentir a ameaça do outro e procurar compreender quem é a verdadeira ameaça.

E se o pior acontecer, meu amigo, não venha dizer-me que não te avisei.

(*) Amanda Arruda, 17, faz parte da nova geração de escritores de Biguaçu. Quem quiser adquirir o romance “A Heroína que virou Lenda”, entre em contato pelo fone (48) 9-9645-7045 ou pelo e-mail amandaarruda2001@yahoo.com.br.

 

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