Por: Ozias Alves Jr. | 22/11/2018

A cabeleireira chama-se Clara é oriunda do interior de Lages. Ela nos relatou a história de sua infância pobre e o grande “luxo” de nunca ter faltado água corrente na sua humilde casa.

Todo fim de semana seu pai limpava o canal através do qual sua casa era abastecida de água vindo de um ribeirão distante uns quatro ou cinco quilômetros.

O pai dela percorria toda essa distância tirando gravetos, folhas, consertando alguma margem erodida, enfim, a manutenção do canal para que o fluxo da água não fosse interrompido.

O trabalho não era fácil, mas todo fim de semana durante décadas a fio o pai de Clara fez essa limpeza fizesse sol, chuva ou a temperatura estivesse abaixo de zero. Vale lembrar que a região é a mais fria de Santa Catarina.

Sempre tivemos água em casa. Em compensação, conheci alguns vizinhos que não tinham água em casa, mesmo morando quase que às margens do mesmo ribeirão”, contou Clara.

Outra história é de uma senhora de Tijucas, cujo nome fica aqui no anonimato. Ela passou a juventude numa localidade na foz do caudaloso rio Tijucas.

Seu pai era pescador, sua mãe uma pequena comerciante. Seus pais tiveram nove filhos.

Apesar das dificuldades financeiras, a família vivia em fartura alimentar. A mãe dela plantava verduras e hortaliças, criava galinhas, marrecos, patos e porcos.

Já seu pai pescava robalo, tainha e anchovas no mar em frente e peixes de água doce no rio Tijucas, ao lado.

Na propriedade deles, havia muitas árvores frutíferas como goiabeiras, jaca, ingá, sem falar de outras exóticas frutas silvestres. A família tinha também vaca leiteira e, se não tivesse algum boi, certamente a mãe conseguiria carne bovina seca (na época não havia geladeira) porque era comerciante que percorria Tijucas numa carroça. Arroz, feijão e farinha também não faltavam.

Paradoxalmente a senhora tinha inúmeros vizinhos que passavam literalmente fome e costumavam pedir para sua mãe frutas, ovos e alimentos em geral.

Sua mãe nunca negou. Pelo contrário. O espírito cristão falou mais alto.

Mas, pensando bem, por que essas famílias passavam fome? A família da senhora que contou essa história tinha comida a vontade porque plantava, criava, pescava e negociava. Ali ficava a foz do caudaloso rio Tijucas e o mar da enseada entre Tijucas e Governador Celso Ramos, na época um santuário de peixes e frutos do mar em geral.

Por outro lado, a terra era fértil, dava de tudo e a mata local esbanjava de árvores frutíferas das mais diversas espécies. Além do mais, nem estamos falando de caça, que naqueles anos 1940 e 1950, ainda havia na região.

A pergunta é: como é que tinha gente que passava fome nessa região tão repleta de recursos para alimentação? A resposta é muito simples: é a danada da preguiça.

Tijucas não é o Nordeste brasileiro. Lá os nordestinos passam fome porque o clima não ajuda. É uma região semiárida onde volta e meia não chove na época em que devia chover. Quando isso ocorre, não dá de plantar e o gado morre de sede e fome.

Os nordestinos não têm culpa disso. Eles sofrem por causa de um clima que não ajuda. No entanto, passar fome era injusticável em Tijucas nos anos 1940 e 1950. As famílias que enfrentavam fome lá eram única e exclusivamente por obra da preguiça. Não havia outra explicação.

É por isso que a senhora que contou essa história, na sua simplicidade, explica boa parte dos dramas da humanidade: a existência de tanta gente preguiçosa neste mundo.

 

Ozias Alves Jr

Editor

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