Por: Ozias Alves Jr. | 14/11/2018

Ozias Alves Jr

E-mail: ozias@jbfoco.com.br

 

Na zona sul de São Paulo, mora uma anônima senhora que escreve teatro humorístico numa língua exótica que se encontra em vias de extinção. Ela se chama Maria Conceição Aquino Lopes Madeira de Carvalho, 83, mais conhecida como Mariazinha Carvalho.

Ela nasceu em Macau, antiga possessão portuguesa no sul da China entregue àquele país em 1999. Mariazinha fala uma língua chamada “Patuá di Macau”, um dialeto do português misturado com cantonês, malaio, panjabi e umas “pitadinhas” de inglês.

Indagada se ela já foi tema de reportagem de alguma “Folha de São Paulo” ou “Globo”, a resposta foi não. O fato de que ela ser uma prolífera autora de peças de teatro num dialeto português raro não despertou a curiosidade dos grandes jornais do Brasil. Mas se eles não fizeram isso, este diário comunitário de uma cidade do interior da Grande Florianópolis está aqui para fazer justiça a memória dessa senhora que mora na Vila Cruzeiro, zona sul de São Paulo. Aqui vai sua história.

Mariazinha nasceu em 9 de novembro de 1935, em Macau. Seus pais são o funcionário público, Antônio Constantino de Souza Lopes, e a dona de casa, Alda Maria Aquino Lopes. Maria teve um irmão.

A escritora aprendeu a falar o patuá com sua avó, Eugênia de Souza Lopes, de origem chinesa. A idosa era surda e só falava patuá, pois não sabia português. Para se entender com a avó, a qual adorava, Maria tornou-se muito fluente em patuá, idioma este que já estava em plena diminuição do número de seus falantes na década de 1960.

Mariazinha lembra que em Macau havia certa segregação. “Macaense casava com macaense, chinês, considerado o “Low Class”, com chinesa e português com portuguesa”, observa. Isso transmitia-se também na visão do patuá, idioma este não muito bem visto na época, considerado uma deturpação do velho e bom português.

A escritora lembra que o patuá deve ao poeta José dos Santos Ferreira, o Adé, o movimento pelo qual essa língua passou a ter literatura. Era uma mudança de mentalidade. O que antes era considerado um idioma “deturpado”, o patuá passou a ser considerado uma “obra de arte” após os livros do citado poeta promovendo a língua até então relegada a segundo plano. “Eu me tornei seguidora de Adé”, lembra Mariazinha cuja biblioteca não a desmente. Possui todos os livros do citado autor, alguns dos quais em aspecto de bastante usado. Afinal de contas, ela leu e releu e volta e meia lê mais uma vez as poesias e crônicas do escritor que deu ao patuá um manto de elegância e sensibilidade.

Mariazinha encenando uma de suas peças em 2009 na Casa de Macau. (Foto Luís Manoel Ramos)

Teatróloga Mariazinha Carvalho completa 83 anos em novembro deste ano de 2018. Na foto, ao lado de seu esposo Chicoi. (Foto Rogério Luz)

José dos Santos Ferreira, o “Adé”: inspiração da teatróloga do idioma Patuá di Macau. (Foto Blog Memórias Macaenses)

Nos Bastidores do Poder

Mariazinha chegou ao Brasil em 1966, aos 31 anos de idade. Tendo vivido em Hong Kong, casado com um inglês e mudado-se para a Inglaterra, tido uma filha (Julie Maria Coatswith- nascida em 28 de julho de 1958), separado-se, eis que veio para o Brasil onde voltou a casar, com seu namorado de juventude durante seis meses, Francisco Xavier da Silva Madeira de Carvalho (nascido em 18 de outubro de 1933).

Maria trabalhou como secretária durante oito anos do famoso Golbery do Couto e Silva (1911-1987), o famoso general que influenciou nos anos finais da ditatura militar no Brasil. Quando Golbery foi convidado a assumir cargo no governo federal e, para isso, teria de mudar-se para Brasília, Mariazinha não quis mudar-se, apesar do general ter feito reiterados convites. Ela agradeceu, mas observou que a mudança iria ser bem problemática para ele e sua família. Golbery aceitou e não protestou, mesmo sabendo que não iria ter a secretária extremamente eficiente e conhecedora dos hábitos do general.

“A senhora me protege”, dizia o general a Mariazinha. Motivo: a secretária tinha habilidade de selecionar o joio do trigo com relação a jornalistas e certas pessoas que sempre eram uma dor de cabeça ao general, que na época dirigia uma companhia de petróleo no Rio de Janeiro.

O JBFoco não explorou na entrevista esse período de tempo da história de Mariazinha, literalmente nos bastidores da história do Brasil. Sim, ela era a secretaria do general cujas articulações culminaram na reabertura e a volta do regime democrático (1985). Ou seja, Golbery era o “guru” dos militares.

Não perguntamos a ela se algum jornalista ou historiador a entrevistou para saber mais sobre do general Golbery. Sim, um historiador que estiver pesquisando sobre a história dos militares no poder no Brasil (1964-1985) e mais particularmente a história do general Golbery, peça chave da reabertura (1985), terá (o que é recomendável) de entrevistar Mariazinha.

 

Teatro

Com o surgimento em 1989 da Casa de Macau, um clube social localizado em São Paulo para reunir os imigrantes oriundos daquela antiga possessão portuguesa no sul da China, Mariazinha passou a escrever peças de teatro, assunto pelo qual apaixonou-se. Como dito antes, sua fonte de inspiração foi o falecido poeta Adé.

A primeira peça escrita por Maria em língua patuá foi encenada em 1992, nas dependências da Casa de Macau.

Mariazinha não sabe quantas peças já escreveu. “Tenho de vasculhar as gavetas daqui de casa”, observou. Mas certamente mais de 10, todas humorísticas.

Sim, as peças são comédias, paródias, literalmente tirando o sarro de situações vividas pela autora. As peças, como visto antes, refletem bem o espírito do idioma, que é a comédia, a brincadeira, a coisa engraçada.

Aliás, ela, conforme contou, “escreve por brincadeira”. Confessou que sua imaginação é “fraca”, ou seja, ela não inventa quase absolutamente nada. Ela extrai as histórias do dia-a-dia, das situações que presenciou. A imaginação entra na famosa fórmula “aumento, mas não invento”.

Dentre as peças que escreveu, a intitulada “O Passaporte” é a que ela mais gostou.

 

“O Passaporte”

Trata-se da confusão gerada por duas velhinhas que estavam indo a fila da padaria, mas, sem saber, entraram na fila da emissão de passaportes, pois a repartição pública ficava ao lado da padaria.

A peça explora os maus entendidos linguísticos entre falantes de português e de patuá.

As velhinhas fofoqueiras entraram na fila do passaporte por engano quando o funcionário público português faz as perguntas de praxe para a emissão do passaporte. Então ele pergunta: “Moradia?”

As velhinhas, que só falam patuá, entenderam a pergunta como “Morrer que dia?”

– “Só Deus sabe quando a gente morre”, responde uma das idosas. E a peça segue numa sucessão de mal entendidos linguísticos.

A estrutura da peça lembra o programa de TV, “A Praça é Nossa”, do SBT. Lá existe um quadro da velhinha quase surda que não entende direito o que as pessoas dizem e, no final, ela deturpa tudo e tira conclusão hilariantes.

Segundo observa Mariazinha, no caso de sua peça citada, o funcionário público português comporta-se como 99,9% dos portugueses em Macau: não se interessam em aprender a falar patuá, mesmo que às vezes é preciso saber para evitar mal entendidos.

Sim, quando perguntou “moradia” e as velhinhas acharam que o questionamento era “morrer que dia?”, ele poderia acabar com o mal entendido explicando em patuá.

A peça em questão passa-se em Macau das décadas de 1950 ou 1960 quando ainda havia muitas velhinhas que se expressavam em patuá e tinham sérias dificuldades em expressar em português.

 

O Dia em que o Teatro Brasileiro morreu de tanto rir

A entrevistada não se lembra da data, mas certo dia da década de 2000 a trupe de teatro em patuá que ela dirige na Casa de Macau apresentou-se no teatro Maria della Costa, em São Paulo.

No palco, encontravam-se atores, diretores, críticos de arte, todos ligados diretamente e indiretamente ao teatro e a teledramaturgia.

Mariazinha Carvalho foi convidada para encenar uma peça sua para mostrar ao público- selecionado- como é uma encenação de teatro todo falado no “patuá português de Macau”, idioma este que 99,9% do público ali presente não fazia a menor ideia da existência e como era.

E o espetáculo começou e Mariazinha e seus amigos encenaram. Qual a reação do público? Nunca se soltou tanta gargalhada por metro quadrado. Literalmente tinha gente que fez jus ao ditado: “urinou-se de tanto rir”.

A razão de tanta graça não era o conteúdo da peça em si, cuja língua o público não entendia completamente. O engraçado foi escutar um “português” tão engraçado, tão diferente, tão cômico. “Que língua louca é essa?”, perguntavam-se alguns no mar de gargalhadas descontroladas no teatro Maria della Costa.

 

Música, Brincadeiras e o 1º Drama

Outra peça que Mariazinha muito gosta e de sua autoria é “Venância co Karlota” (“co” significa “com”). Esqueci de mencionar. Esta foi a peça apresentada no Teatro Maria della Costa, em São Paulo, conforme relatado antes.

Segundo Mariazinha, ela estava muito inspirada na oportunidade em que escreveu a dita peça e a sequência do diálogo foi muito engraçada, ou seja, se a peça fosse comparada a um bolo, Marizinha acertou todos os ingredientes na medida certa.

Outra faceta das peças é a apresentação de músicas. Sim, as peças são a oportunidade de se lembrar de antigas canções macaenses. Vale lembrar que as apresentações de teatro na Casa de Macau são a oportunidade de, além de ouvir a língua crioula, escutar as canções da região.

Uma das canções que Mariazianha mais aprecia e deixa-a nostálgica é “Adeus Macau; Macau, terra minha.”

E nas peças, ela costuma fazer paródias musicais. Por exemplo, a famosa canção “New York, New York” de Frank Sinatra (1915-1998). Numa peça de Mariazinha, virou “Macau, Macau”, uma canção em homenagem à cidade e seu povo.

E por falar em música, Mariazinha aprecia muito o Rock´n´Roll anos 1950. Em 1955, quando o gênero estourou com Chuck Berry (1926-   ) e Bill Harley (1925-1981), Mariazinha tinha 20 anos de idade e encontrava-se em Macau. E ela muito dançou o gênero, que foi a “coqueluche” entre os jovens de sua época.

 

2º Esposo

Nascido em 18 de outubro de 1933 em Timor Leste, Francisco Xavier da Silva Madeira de Carvalho , o “Tchicói” tinha 18 meses de idade quando foi levado para Macau, terra de seus pais.

Mariazinha, que se separou aos 40 anos de idade do primeiro esposo, um inglês, veio a casar, em segundas núpcias, com Francisco, o qual conheceu na adolescência e com o qual namorou durante seis meses. Na segunda união, Mariazinha não teve filhos.

A filha de Mariazinha do primeiro casamento, Julie Maria Coatswith, nascida em 28 de julho de 1958, deu-lhe três netos e um bisneto.

 

Piada sempre

A gozação é tão grande que até em peça “séria”, como Romeu e Julieta, os macaenses fazem alguma coisa para “esculhambar”. E fizeram com a famosa peça de Shakespeare.

No entanto, já para o patuá, a leitura acabou diferente. Como a ordem é “avalhacar”, os macaenses não tiveram dúvida: engravidaram a Julieta.

“Patuá não se adapta a coisa séria”, disse Mariazinha.

 

Homenagem

Certa vez Mariazinha leu num jornal um obituário de um amigo da comunidade macaense que havia morrido recentemente. Ela achou o texto muito bem escrito e ficou emocionada com a homenagem que fizeram ao morto. Foi então que ela falou a Rogério Luz, um amigo e autor de um blog sobre língua e cultura macaense, também imigrante de Macau que vive em São Paulo, num dos encontros no clube Casa de Macau:

– Rogério. Que inveja. Que homenagem linda fizeram para nosso amigo (fulano de tal). Quando eu morrer, também quero uma homenagem assim. Eu quero que você escreva uma homenagem póstuma para mim tão bonita quanto. Escreva bem bonito para me deixar emocionada. Faça isso, yôu san amutchái (trad. Meu querido).

Pois é! Admirador de Mariazinha, Rogério ficou temeroso. “E se eu, no dia em que Mariazinha morrer, estiver impedido de escrever ou não encontrar as palavras certas para escrever?”, disse o entrevistado.

Então Rogério bateu cabeça e decidiu antecipar-se escrevendo uma homenagem póstuma para Mariazinha. Escreveu, corrigiu, releu, editou, acrescentou, retirou, enfim fez um texto melhor possível para expressar a admiração pela grande amiga, que representa literalmente a cultura e a língua macaense que, infelizmente, está em vias de extinção, ou seja, no dia em que Mariazinha morrer, certamente irá junto com ela o patuá de Macau.

Temendo que o computador fosse roubado ou perder o texto por força de algum vírus ou sabe-se lá onde ficou dentro dos labirintos do HD, Rogério não teve dúvida: publicou ANTECIPADAMENTE a homenagem póstuma de Marizinha.

Quando abriu o computador e acessou o blog que Rogério mantem na internet com notícias sobre a língua, cultura e história de Macau, Mariazinha levou um susto:

Ai, ai, ai. Mas ainda estou viva!!! E agora, eu vou morrer como?”

Na realidade, foi um mal que veio para o bem. Como ela ficaria emocionada com sua homenagem postura se ela não a leria porque o texto só iria ser escrito depois de sua morte?

Aliás, ela tem aí a possibilidade de vir a escrever uma nova peça de teatro fazendo gozação com a homenagem póstuma feita sem que a homenageada ainda morresse.

 

IDADE AVANÇADA

Prestes a completar 83 anos neste ano de 2018, Mariazinha não anda bem de saúde. A idade já está cobrando a fatura e ainda com juros e correção monetária. Afinal de contas, ela nasceu cedo demais (1935) e a natureza não perdoa.

Na ocasião da entrevista, em abril de 2015, ela estava com dores nos ossos da bacia. Tanto é que ela ficou sentada no sofá. Não conseguia levantar-se.

No entanto, seu humor estava intacto. A entrevista foi uma sucessão de risos tal como sua literatura. Vamos torcer para que ela tenha mais 10 ou 20 anos de vida, pois certamente serão mais peças a serem escritas e muitas gargalhadas a serem dadas.

 

LIVRO

O ano de 2016 será de “Jubileu” ou coisa assim de Macau. Na ocasião, deverão haver comemorações na antiga possessão portuguesa no sul da China.

Na ocasião da entrevista, o JBFoco deu a ideia de que as peças de Mariazinha fossem reunidas num livro e que a Casa de Macau use sua influência para angariar os fundos para a publicação.

Mariazinha comentou que as peças “estão nas gavetas” de sua casa.

Então o JBFoco disse: “como todo o respeito, mas que sua casa seja revirada de cabo a rabo e que todas suas gavetas sejam reviradas e seu computador vasculhado para reunirmos todos seus escritos”.

Os entrevistados ali presentes concordaram em número, gênero e grau com o que disse. O teatro de Mariazinha tem de estar publicado em livro. Vale lembrar que ela nunca publicou um livro seu e que seu teatro é um acervo único escrito numa língua única e com um detalhe: é uma literatura não só pertencente a Macau, mas também ao Brasil.

Sim, ao Brasil. Em primeiro lugar, ela escreveu TODAS suas peças em patuá aqui no Brasil. Em segundo lugar, há peças que ela descreve situações aqui no Brasil sob o olhar de uma imigrante macaense.

Portanto, seu livro é uma obra tão importante tanto para o Brasil quanto para Macau.

Mariazinha, a priori, não se mostrou entusiasmada. Afinal de contas, ela escreve de brincadeira e nunca pensou em publicar livro.

Mas o amigo dela, Rogério Luz, lembrou a ela que o teatro em patuá é candidato a “Patrimônio Imaterial da Humanidade” e, sendo ela a mais importante escritora de teatro nessa língua aqui no Brasil, um livro reunindo sua obra é de fundamental importância para aumentar a biblioteca sobre a língua e convencer a Unesco a conceder o citado título de “Patrimônio da Humanidade”.

 

AVISO

Receba gratuitamente notícias da comarca de Biguaçu em seu whatsapp. Clique no link abaixo, adicione nosso número (4898484-7539) e dê um OK.

bit.ly/WhatsJBFoco….

 

Que Língua é esta?

O leitor ficou curioso sobre como é essa língua chamada “Patuá di Macau”? Aqui algumas frases para o leitor ter uma ideia do idioma

Bon día/ Tchôu san- Bom dia.

Bo tarde– Boa tarde.

Bo nóte- boa noite.

Como vôs tá vai? Como vai você?

Iôu tá bê i vôs? Estou bem e você?

Bên, obrigado– Bem, obrigado

Papiaçam- papear/ conversar

Iôu falá patuá– Eu falo patuá (de Macau)

Iôu nunca falá patuá- Eu não falo patuá.

Vôs falá patuá? O senhor fala patuá?

Vôs falá francês? O senhor fala francês?

Vôs falá inglês? O senhor fala inglês?

Vôs falá português? O senhor fala português?

Vôs falá Tchina? O senhor fala chinês?

Un tchinho– um pouco.

 

Na Café- no café

 

– Tchina, vôs trazé unga café pa iôu? Garçom, traga-me um café.

Café simple ô co lête? Café preto ou com leite?

Simple. Simples (ou seja, sem leite, preto).

Na an kuza? Mais alguma coisa?

Unga sanduitche– Um sanduíche.

Toma vósa sanduitch. Aqui vosso sanduíche.

Quantu tá custá? Quanto custa?

Tá custa vinte pataca. Custa vinte patacas (antiga moeda de Macau).

Sân úide caru. É muito caro.

 

Rôpa– vestido

 

Quantu tá custa vôsa rôpa? Quanto custa este vestido?

Vinte pataca– Vinte patacas.

Tá barátu– Está barato.

 

You nadi vai- Eu não vou.

Tô monon-tonton– Estou meio aéreo/a (frase unissex, ou seja, pode ser dita por homens ou por mulheres).

Uidi misku- muito pão duro.

 

VERBOS

 

– Djá comprá- comprei

– Lôgo comprá– comprarei

– Tá comprá– comprando.

 

Tá fulá arôs– estou comendo arroz.

 

PRONOMES PESSOAIS

Yôu– eu.

Vôs– tu

Ilotro– ele

Ilôtra– ela

Nozôtro– nós

Vosôtro- vós

Ilôtro– eles/ elas

 

Báfu cumprido- tagarela

 

Trecho de uma Peça escrita pela autora

NÔS MAQUISTA-MAQUISTA

 

Por Mariazinha Lopes Carvalho

Nosôtro tudo, maquista-maquista ispalhado na mundo fora, quelóra ficá vêlo, virá-virá pensá, co coraçám chipido, ôlo mulado,  di nossa infância/juventude na Macau.  Pensá di nossa vóvó-vôvô, atio-atio, titi-titi, mamá-papá, amigo-amigo.  Qui tanto já vai-ia, qui saudádi! Di tanto qui já dessá nosôtro, ilôtro já pôde abrí unga “Casa de Macau de Céu” grándi qui grándi, bunito qui bunito nuncassã? 

Hoji, iou vêm pa abri ôlo di vosôtro tudo maquista-maquista. Uvi, prestá atençám. Vosôtro já pará pa pensá unchinho como nôs sã unga “raça” uide especial/singular/unique? Qui modo? Olá, quelóra pichote azinha-azinha nôs ta falá 4 lingu:  Português, Inglês, Chinês e Patuá, qui capaz! Qui ôtro genti têm estunga capacidadi?  Pa nôs sã uide fácil.  Qui  manéra? Dessá iou isplicá.  Nôs já nacê nunga terra qui sã di Portugal, têm vizinhança Ongcông qui sã di Inglaterra, cercado di china-china pa tudo vanda, nossa vóvó/vôvô falá patuá.  Nôs divéra têm sórti. Destunga manéra quelóra dôs maquista encontrá  nossa conversa certo lôgo virá unga chauchaulada.  Somente unga maquista pôde entendê ôtro maquista.    Olá!

 “Carlota my dear friend, I haven´t seen you for a long time, how are you.” 

“Olá Venância, estou bem graças a Deus.  E tu como estás de saúde?” 

“M-hâi quêi chêng sân.  Iâu-si tâu-tông iâu-si tôu-tông.  Chân hâi má-fán.” 

“Aia sâ assi-ia, vôs tamêm já ficá vêla-ia, dói aqui, dói ali.” 

Têm maquista inda más  capaz, falá 4 lingu nunga só tacada (frase).  Querê uví? 

“Ontem  encontrei com a minha amiga Malichai no Shopping.  Qui medónha, cara marelo, ôlo patucado.  I was really shocked. I have never seen her like this before.  Chân hâi iâm kông.” 

Assi iou-sa amigo-amigo maquista ispalhado na tudo vanda di mundo, lembrá, nôs sã genti di sorti porque já nacê na Macau.  Si alguém perguntá “quim sã vôs?”, respondê  co pêto inchido di orgulho: “Nôs sã MAQUISTA”.

 

AVISO

Receba gratuitamente notícias da comarca de Biguaçu em seu whatsapp. Clique no link abaixo, adicione nosso número (4898484-7539) e dê um OK.

bit.ly/WhatsJBFoco