Por: Ozias Alves Jr. | 08/02/2018

 

Ken-Itiro Miyahara viveu uma contradição: nunca mais quis voltar ao Japão, nem para visitar a cidade onde nasceu, mas nunca deixou de cultivar a cultura daquele país: lia compulsivamente livros, jornais e revistas em japonês. Acabou deixando certamente a maior biblioteca particular de livros em idioma japonês no estado de Santa Catarina.
Miyahara nasceu em 27 de setembro de 1936, na cidade de Kagoshima, extremo sul do Japão, na ilha de Kyushu,
uma das quatro principais que formam o arquipélago japonês.
Foto de 1936, de Ken-Itiro recém nascido com o pai, a mãe e parentes. (Fotos: Família Miyahara)
No outro lado da ilha de Kyshu, fica a famosa cidade de Nagasaki, destruída pela bomba atômica em agosto de 1945, dando fim à Segunda Guerra Mundial (1939-1945)
Era filho único de um oficial médico da marinha japonesa e de uma artista de ikebana (arte do arranjo floral), que tocava o “Shamisen”, uma espécie de violão que se toca deitado.
Ambos apreciadores das artes e da leitura, os pais de Ken-Itiro promoviam em casa saraus, ocasiões nas quais reuniam intelectuais da região para uma animada conversa sobre arte e cultura. O pai recitava clássicos da poesia e trechos da literatura antiga japonesa acompanhado pela mãe tocando “shamisen”.
Pai cirurgião num hospital militar no Japão

O pai era de origem humilde. Teve a sorte de sua vocação intelectual ter sido reconhecida. Seus estudos para médico foram custeados pelo Governo. Por isso, era um homem muito grato ao governo. Além disso, era um admirador da cultura nacional.
Sofreu muito com a derrota de seu país na 2ª Guerra Mundial e morreu um ano depois do término da mesma (1946), por causas naturais. O Japão arrasado deve ter contribuído para o estado de espírito do final de sua vida. Ken-Itiro tinha 10 anos de idade quando seu pai faleceu.

Cultura
Ken-Itiro teve uma educação exemplar. Aprendeu a ler inclusive os antigos ideogramas (muitos dos quais já em desuso), de ancestral origem chinesa, usados na antiga literatura japonesa.
Ao contrário do pai, o jovem Miyahara não dava tanta importância à cultura oriental. Sua paixão era pela cultura ocidental.
Foi um dedicado aluno de língua inglesa com o objetivo de assistir os filmes de John Wayne e Marlon Branco, que inundaram o Japão durante a ocupação do país pelo exército norte-americano.
Apaixonou-se também pelo estilo da arte ocidental. Admirava obras de Michelangelo, Van Gogh e Gauguin, entre outros mestres da pintura ocidental.
Miyahara tornou-se também um crítico mordaz de certos aspectos da cultura japonesa. O espírito militarista que levou o país à catástrofe da 2ª Guerra Mundial ainda perdurava, só que desta vez, no Pós-Guerra, transformado numa ideologia de uma vida de trabalho levado ao extremo.

Fotos da família em 1936

Paradoxalmente essa ideologia levou ao “Milagre Japonês”, mas, por outro lado, levou a extremos que Miyahara passou a abominar, como homem idealista, de vocação artística, de temperamento poeta.
Por isso, decidiu ir embora do Japão para nunca mais voltar. Queria levar uma vida ocidental, com valores ocidentais e seguir sua vocação artística.
Antes de embarcar, estava indeciso: ir para os Estados Unidos ou aventurar-se no Brasil?
Ele ficou encantado com notícias sobre o pantanal mato-grossense e na versão segundo a qual o Brasil era o “País do Futuro”, versão essa popularizada pelo escritor Stephan Zweig, fugido do nazismo que conseguiu refúgio no Brasil.
O ano era 1955 e Miyahara encontrava-se com 19 anos de idade.

Imigração

1955. Miyahara com 19 anos, despedindo-se da mãe antes do embarque no navio que o levaria ao Brasil

Recém-chegado, na Colônia de Pilar do Sul,SP

Ken-Itiro decidiu viajar para o Brasil. Sozinho, seu rumo era a colônia de agricultores japoneses Pilar do Sul, no interior de São Paulo.
Pouco tempo depois, foi transferido para a colônia de Bragança Paulista. Foi trabalhar na fazenda de Denzo Togo, que se tornaria seu futuro sogro.
O sr. Togo era conselheiro regional da colônia. Este chegou ao Brasil no famoso Kasato-Maru, o navio que trouxe em 1909 os primeiros colonos japoneses ao Brasil.
Miyahara era de espírito inquieto, independente, enfim, livre pensador, rebelde a viver uma vida em contraste com sua consciência e aptidão artística. Erudito, rebelava-se contra certas imposições da cultura vigente. Não se sabem os detalhes do que levou ao conflito (ele não comentou detalhes sobre o assunto com a família), mas, em resumo, eis que o jovem Miyahara veio a saber da existência de uma ilha no sul do Brasil chamada “Santa Catarina” e de uma capital provinciana- “Florianópolis” e o destino providenciou o resto.
Sua cidade Kagoshima é parecida com a de Florianópolis quanto ao fato de ser banhada pelo mar. Além do mais, Ken-Itiro era apaixonado pelas pinturas do artista impressionista francês do século XIX, Guaguin, famoso por seus quadros tropicais retratando a ilha do Taiti. Não é a toa que Florianópolis, que na década de 1950 era um paraíso da pesca e na natureza ainda preservada, foi uma paixão a primeira vista.

Primeiros tempos

Foto tirada no Pântano do Sul quando Miyahara estava hospedado na casa da família Oda.1959 ou 1960

Miyahara instalou-se na localidade pesqueira de Pântano do Sul, na casa do pescador japonês, Noboru Oda.
Noboru também era natural de Kagoshima, terra natal de Miyahara.
A família Oda chegou em 1955 a Armação do Pântano do Sul, vilarejo próximo a Pântano do Sul (daí a referência do nome), no sul da Ilha de Santa Catarina, cuja região central fica a capital do estado de Santa Catarina, Florianópolis.
Se não aparecer algum historiador contestando, os Odas foram a primeira família de japoneses a instalar-se na Ilha de Santa Catarina. Tornaram-se sucedidos empresários da área da pesca e “embaixadores” dos japoneses que começaram a se instalar em Florianópolis.
Miyahara contou com a hospedagem, hospitalidade e fraternidade da família Oda nos primeiros tempos em Florianópolis.
A natureza da ilha inspirou-o a pintar, mas teve de deixar de lado a arte em busca da sobrevivência já que Florianópolis na época era uma pequena cidade provinciana, longe da capital que se tornou hoje. Não dava para viver de arte, pelo menos naquela época.
O amigo Noboru Oda ajudou-o a iniciar um negócio de frutas e verduras. Após uma venda excelente durante a tradicional Festa da Laranja, no bairro Trindade, Ken-Itiro instalou um tablado de frutas e verduras no antigo Terminal Rodoviário de Florianópolis, na rua Mauro Ramos.
Estabelecido, Ken-Itiro não esqueceu de sua prometida: Yukiko Togo, filha de Denzo Togo, conselheiro da colônia agrícola de Bragança Paulista, do interior de São Paulo. Miyahara casou-se com Yukiko.

Negócios

Casamento com Yukiko Togo

Com a filha recém-nascida em frente ao sacrário budista

Inteligente e culto, Miyahara logo tornou-se fluente em português. Homem de visão e animado com as perspectivas de êxito comercial, Ken-Itiro manda chamar um patrício que conheceu na colônia de Bragança Paulista, chamado Atsunori Kawano. Tal como ele, era excelente cozinheiro de pratos brasileiros.
Kawano veio para Florianópolis e, pouco tempo depois, mandou trazer sua esposa, Setuko, cuja história será contada no próximo verbete.
Juntos, conseguiram um box no Mercado Público Municipal de Florianópolis. Miyahara era um trabalhador dedicado e disciplinado. Dormia pouco, mas sempre estava disposto a enfrentar a estafante rotina de trabalho no comércio de frutas, verduras e legumes.
Trabalhou nesse ramo durante 20 anos, quando resolveu mudar, atendendo a sua vocação de artista. Transformou seu box no Mercado Público em loja de artesanato e materiais de pintura.
Ao contrário da época em que começou, Florianópolis já tinha crescido por causa da instalação de uma universidade federal, da Eletrosul, entre outras empresas, e o público que gosta de artes cresceu na proporção que viabilizou a instalação de uma loja de artes.
A mudança do negócio- de comida para artigos de artes- ocorreu por volta de 1975.

Leitura

Com a filha numa das muitas viagens. Década de 1970

Em Foz do Iguaçu com a filha Yukimi. Anos 1970

Entre os japoneses de Florianópolis, Miyahara tornou-se referência. Quando precisavam de livros em idioma japonês, recorriam a ele.
Ken-Itiro era um ávido leitor tanto de livros quanto de jornais e revistas em japonês editados tanto no Japão quanto em São Paulo. Estava sempre atualizado das novidades tanto da colônia quanto do Japão.
Além disso, quando algum patriota queria saber sobre um “kanji” antigo, era só falar com o sr. Miyahara, que ele explicava.
Quando morreu, Ken-Itiro deixou uma biblioteca de mais de 5 mil obras em sua língua nativa. Ele viveu 46 anos no Brasil. Fazendo os cálculos, Miyahara acumulou a média de 100 livros por ano.
Hoje essa biblioteca encontra-se guardada pela filha Yukimi em sua casa, no Morro da Cruz, em frente ao centro de Florianópolis.
Ela não sabe japonês o suficiente para ler e aceita até doar os livros, mas desde que a Biblioteca Pública não dê outro destino que não o de estar disponível ao público. Mesmo sendo uma biblioteca de obras numa língua oriental e de raros leitores em Florianópolis, isso não quer dizer que aqueles livros não devem ser catalogados e guardados para futuros pesquisadores que dominem o japonês.
O sr. Miyahara deixou também dezenas de álbuns fotográficos, pois como desenhista, não resistia em fotografar cenas, paisagens e pessoas queridas, material este que poderia ser mais tarde servir de modelo para pinturas e desenhos.

Contraste

No box com materiais artísticos

Quando algum turista patrício de passagem no Mercado Público de Florianópolis lhe perguntava se era japonês, Miyahara respondia em chinês, no “dialeto” oficial chamado Mandarim.
Miyahara nunca mais quis voltar ao Japão, nem para uma simples visita de turismo de rever a cidade onde nasceu, um contraste para um homem que nunca relegou seu idioma pátrio e era bem informado sobre as notícias de seu antigo país.
Por outro lado, quando surgiu a Associação Nipo-Catarinense, participou de várias diretorias e foi sócio fundador.

Saúde
A típica comida do Brasil, com feijoadas, churrasco de carne “gorda”, mocotós, vapatás, entre outros pratos, não é nada saudável a médio e longo prazo.
Ken-Itiro adorava comidas brasileiras, onde a gordura, o sal, carnes nada “lights” vêm em protuberância.
Essa dieta alimentar acabou abalando sua saúde renal e cardiovascular. Em 1996, salvou-se por um triz de uma infecção generalizada e uma descompensação cardiovascular.

Última viagem
Saído do hospital, Miyahara decide realizar um desejo de sua vida: conhecer o interior do Brasil.
Inicia pelo pantanal matogrossense várias viagens, ocasiões nas quais renderam-lhe grandes desenhos. Como bem lembra a filha, foram uma “deliciosa herança visual de olhos cansados de um velho sonho.”

Falecimento
Debilitado pela doença renal e cardíaca, enjoado das privações provocadas pela debilidade, Ken-Itiro Miyahara resolveu dar um fim ao sofrimento.
Era a manhã de 28 de agosto de 2001, em Florianópolis. Suspendeu secretamente a doença e, antes de dormir, disse à esposa que estava cansado. Fez um “haraquiri”, um suicídio comum aos samurais devotados com alguma causa perdida. No caso de Ken-Itiro, a morte era uma questão de tempo; os remédios só estavam prorrogando sua vida para alguns dias ou meses.
Cansado do sofrimento, resolveu ter uma morte tranqüila ao adormecer e, durante o sono, a parada cardíaca abreviou-lhe sua passagem por esta vida.

A vida prossegue
Sua filha única Yukimi continua com o legado do pai, no box do Mercado Público de Florianópolis especializado em materiais de pintura e desenho técnico e artístico.
Miyahara é lembrado como uma pessoa que viveu intensamente sua vida- viajou muito, trabalhou muito, leu muito, comeu muita comida brasileira deliciosa, desenhou muito e fez muitos amigos.

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