Por: Ozias Alves Jr. | 16/10/2017

Na Escola Básica Professor José Brasilício, a mais antiga de Biguaçu, havia um piano que, ao meio-dia, inexplicavelmente tocava sozinho, numa sala fechada, sem ninguém dentro.

Esta é a história contada por Dilma Sodré de Oliveira, 70 (idade em 2004 quando esse texto foi escrito), ex-servente da escola. A aposentada Dilma é a única pessoa viva, num grupo de oito ex-funcionários da escola que presenciaram o fenômeno parapsicológico.

O piano no qual José Brasilício de Sousa (1854-1910) compôs o histórico hino do estado de Santa Catarina (1890) foi doado à escola que leva seu nome, no centro de Biguaçu. O instrumento ficou lá até a década de 1970. Foi retirado e hoje encontra-se no museu Cruz e Souza.

Dilma não sabe o ano exato em que o piano foi retirado. Acha que foi entre 1975 a 1979. “O piano ficava na primeira sala à direita de quem entra na escola pela frente”, conta.

Há a versão de que o piano foi retirado da escola porque estava virando “lenha”. “Não é verdade. Eu passava pano nele todos os dias. O piano não estava em mal estado”, protesta Dilma. Ela trabalhou como agente de serviços gerais na escola José Brasilício entre 1966 a 1992. Aposentou-se em 1992 aos 58 anos de idade.

 

O piano tocava sozinho sempre por volta do meio dia. Segundo Dilma, não era todo dia, mas dificilmente passava-se um mês em que o fenômeno não ocorresse.

Ao meio dia a escola estava vazia. A porta da sala onde estava o piano ficava trancada. Não tinha ninguém dentro. A gente escutava alguém tocando. Não sei se era uma música ou uma pessoa que não sabia tocar dedilhando nos teclados- tan tan tantan tum tantan”, disse tentando reproduzir o som.

Se era alguma melodia, não dava de distinguir. O piano, por causa da inatividade de tantos anos, estava desafinado.

Dilma conta que duas de suas amigas de serviço, as serventes Chica e Lila (ambas já falecidas) diziam: “Meu Deus. Quem está tocando esse piano?

Eu ia na sala. A gente escutava nitidamente alguém tocando aquele piano. Quando botava a chave na fechadura, o som parava na hora. Eu abria a sala e não via ninguém. Não tinha ninguém lá dentro”, relata a servente aposentada.

Dilma e suas amigas comentavam a história a outros funcionários da escola. Havia a ala daqueles que acreditavam tratar-se do espírito de José Brasilício de Sousa tocando seu piano de estimação. E, como em todos os agrupamentos humanos, havia os incrédulos. Alguns desses últimos diziam que “era espírito coisa nenhuma”. Eles afirmavam que era rato que entrava dentro do piano e pulando por cima dos teclados.

Esta história de ratos até me ofende. Eu nunca deixei aquele piano sujo e eu sempre limpava a sala”, observa a aposentada. “Eu abri algumas vezes o piano para ver se saía alguma coisa, mas não tinha nada. Não tinha rato, nem saía barata. Não era rato não”, observa.

Se a versão de que fosse rato fosse correta, como explicar que o piano “tocava sozinho” somente ao meio dia? Os ratos eram tão pontuais?

Outra versão era a de o piano tocava por causa do vento. “Não pode ser. O piano tinha uma tampa. O teclado ficava tampado. Como o vento poderia tocar os teclados?”, indaga Dilma.

Até que de repente por causa de uma fresca na madeira do piano, o vento canalizava e pressionava as cordas que ligam os teclados. No entanto, essa explicação não se sustenta por causa de um fato: o piano só tocava sozinho por volta do meio dia. Segundo Dilma, o “fenômeno” só acontecia nesse horário. Nenhum funcionário da escola escutou o piano tocar sozinho em outro horário fora do meio dia, ou seja, se fosse o vento, este seria tão “pontual” assim?

Dilma conta que não era apenas ela quem escutava o piano tocar sozinho. Outras oito pessoas, segundo ela, também presenciaram o fenômeno. Ela cita os nomes, mas sem sobrenome pois não sabe. Aqui os nomes que citou: 1) Dona Lila, 2) Dona Chica, 3) Dona Olívia, mãe da Aparecida, 4) Polidoro, 5) a esposa do Polidoro, 6) seu Aparício, 7) seu Leonel, pai do falecido Nilton da Farmácia Biguaçu e 6) Dona Paulina.

Com exceção de dona Paulina, todos os outros citados já são falecidos. Paulina está viva, mas com sérios problemas de saúde que a impossibilitam até de falar, segundo contava Dilma em 2004.

 

BARULHOS ESTRANHOS

Dilma trabalhou por uns cinco ou seis anos, na escola José Brasilício. Ela limpava as salas das 22h (hora da saída dos alunos) até a meia noite. Ficava sozinha na escola.

Dilma diz que nunca escutou o piano tocar sozinho à noite. Era sempre ao meio dia, enfatizou. “À noite eu escutava um barulho estranho na escola. Era um arrasto. Era alguém arrastando alguma coisa em alguma sala. Eu pensava que tinha alguém na escola, caminhando ou andando perto de onde eu estava”, relata a servente aposentada.

Tu és a primeira pessoa para quem contei essa história. Eu nunca contei porque tem gente que vai me chamar de maluca ou mentirosa. Eu escutei o piano tocar sozinho. Isso foi também testemunhado por várias outras pessoas. Agora a história dos arrastos na escola, só eu que escutei”, relata a aposentada.

Quando escutava os arrastos, eu rezava o Pai Nosso e a Ave Maria e aí me protegia. O barulho parava. Eu pedia a Deus que me desse força para continuar o meu trabalho. O barulho desaparecia e Deus estava comigo naquela hora. Eu sempre tinha coragem e muita fé em Deus”, conta a ex-funcionária da escola José Brasilício.

Ao todo, em cinco ou seis de serviço à noite, Dilma afirma ter escutado os “arrastos” umas 10 ocasiões nesse tempo. Indagada se não teve ímpeto de sair correndo da escola, Dilma respondeu que não, que não podia abandonar o serviço e precisava trabalhar para dar sustento a sua família. “Eu rezava sempre e a oração sempre me dava coragem de prosseguir o trabalho”, observa.

Eu acredito que exista espíritos. Talvez o espírito que tocava o piano era o próprio José Brasilício. Devia ser um espírito bom. Ele não iria me assustar porque Deus não ia permitir”, diz.

Conforme Dilma, depois que o piano foi removido da escola, acabaram o fenômeno dos sons ao meio dia e os arrastos da calada da noite.

 

***

 

Em dezembro de 2008, o jornal Biguaçu em Foco (JBFoco) publicou artigo do historiador Joaquim Gonçalves dos Santos intitulado “O Piano de José Brasilício”. Eis o texto:

 

Conversando com a poetisa, escritora, historiadora e fundadora da Academia de Letras de Biguaçu, disse-me que devemos lutar pela volta do piano que pertenceu a José Brasilício, para a cidade de Biguaçu, e para o mesmo lugar onde não deveria ter sido retirado.

No jornal O ESTADO, edição de 12/05/1973, na página 4, consta um artigo escrito por Gustavo Neves, narrando alguns fatos relacionados com o referido piano.

Diz o artigo em questão “que a Associação Coral de Florianópolis acaba de obter preciosa doação do Governo estadual: o piano que pertenceu ao inesquecível autor da música do Hino do Estado, Professor José Brasilício de Souza e que havia sido adquirido pelo Estado”.

Diz mais ainda que, é um velho piano de cauda “Pleyel”, que a valiosa relíquia achava-se quase esquecida numa dependência da Escola Básica “Professor José Brasilício”, em Biguaçu. Que o mesmo estava abandonado como objeto imprestável, sem os pés que teriam sido utilizados como lenha, e segue descrevendo outros fatos.

Foi a direção do Coral que comunicou a situação do piano, ao Secretário do Governo, Dr. Orlando Bértoli (1973), que autorizou os reparos orçados em Cr$ 4.500,00 (Quatro mil e quinhentos cruzeiros).

Como o referido Coral precisava de um piano, o mesmo foi entregue para aquela entidade cultural de Florianópolis, após totalmente reformado.

Necessário dizer nesta oportunidade, que nunca os pés do piano foram usados como lenha e que não estava abandonado numa sala qualquer em cima de caixotes; o estrago foi causado pelo cupim.

Precisamos saber agora, através de pesquisas e localizando os documentos, de que maneira o piano veio para Biguaçu. Se foi através de doação da família do saudoso músico, após o seu falecimento, ou se foi por intermédio do Governo estadual  que tomou as devidas providências.

E mais ainda, como conseguiram retirá-lo da Escola Básica em 1973? Com ordem ou ofício de quem de direito? Precisamos encontrar os documentos daquela época.

Só através de provas documentais poderemos requerer  que o piano em questão, retorne definitivamente  para Biguaçu, pois atualmente o mesmo faz parte do Museu Cruz e Souza, na Capital.

Biguaçu, que não tem um Museu Histórico ou um Museu de Artes, ou mesmo um Museu de Cultura, está perdendo e sempre perdeu de resgatar  valiosos patrimônios de sua história.

A escritora Dalvina de Jesus Siqueira não se conforma, inclusive eu, de que o piano de cauda “Pleyel” de José Brasilício de Souza, guardado pela Escola Básica, foi levado daqui e não retornou ao mesmo lugar.

Deixo a palavra livre a quem interessar possa, principalmente aos defensores de nossa história, e aos próximos administradores do nosso município.”

 

(*) Reportagem publicada no JBFoco de 2 de outubro de 2004 com acréscimo em 2008.

(**) Reportagem de autoria de Ozias Alves Jr (Jornalista).

 

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