Por: Ozias Alves Jr. | 12/11/2018

Em junho de 1998, o JBFoco publicou o especial intitulado “Descoberta Origem do nome Biguaçu”.

Tudo começou com uma leitura atenta do livro “História do Município de Biguaçu” (1988), de autoria de Iaponan Soares (1936-2012).

Na página 21 da citada obra, o autor escreveu:

 No “Primeiro Livro de Sesmarias”, documento raríssimo CUJA REVELAÇÃO SE DEVE AO PROF. WALTER F. PIAZZA, divulgando-o em parte através do ensaio “Introdução à História da Propriedade Rural em Santa Catarina”, temos uma amostra muito significativa de alguns dos primeiros povoadores da costa catarinense, num período que vai de 1752 a 1806.”.

Referentes a São Miguel e Biguaçu, encontramos entre os registros iniciais o nome do capitão José Bernardo Galvão, que “na paragem do Rio Embigoassu se achava de posse de 1.500 braças (…)

 Eis o grande detalhe. O rio Biguaçu era chamado de “Embigoassú”, conforme está escrito na primeira certidão de registro de terras da região, datado de 1753.

O que significa “Embigoassú”?

 

JBFoco nº 61- junho de 1998, com a reportagem de capa sobre a verdadeira origem do nome “Biguaçu”.  (Foto: Reprodução)

 

Iaponan Soares (1936-2012). (Foto Reprodução)

  

Página inteira do 1º registro de terras de Biguaçu. (Foto Reprodução)

O ESPECIALISTA

A reportagem contatou o maior especialista de línguas indígenas brasileiras, professor Aryon Dall´Igna Rodrigues (1925-2014), da Universidade de Brasília e considerado autoridade mundial sobre o assunto.

Segundo Aryon, “Embigoassú” é a corruptela de “Guambýgoasú”, que significa “cerca grande”.

De acordo com o especialista, a palavra da língua guarani, falada pelos antigos índios do litoral de Santa Catarina, evoluiu de “guambygoasú” para “embigoasú” e chegando ao atual “Biguaçu”.

Não tem nada a ver com o pássaro biguá.

 

“Biguá Grande”: uma versão que não se sustenta pela biologia e pelos registros históricos

 

A verdade é um alvo móvel: novas provas sempre devem ser levadas em conta e a “verdade”, atualizada.”

James Cameron (1954-   ), cineasta canadense.

A História nunca é completa e está sujeita a permanentes releituras. »

Walter Fernando Piazza (1925-2016), historiador catarinense.

 

Biguás. (Foto Ozias Alves Jr)

 

Árvore Biguaçu. Foto tirada na propriedade de Leonídio Zimmermann em maio de 1998. (Foto Arquivo JBFoco)

 

Rio Biguaçu. 1998. (Foto Arquivo JBFoco)

 

Raulino Reitz (1919-1990). (Foto Reprodução)

 

Afirmar que Biguaçu vem de « Biguá Grande » é o mesmo que argumentar que a origem das cidades de Léon, na Espanha, deve-se a existência de « leões » no passado remoto daquela região e de Tubarão, aqui no estado de Santa Catarina, vem do famoso peixe carnívoro dos mares.

Apesar da exatidão do som, o significado hoje atribuído está longe da verdade histórica. A cidade de León vem do latim « Legio » (legião) e Tubarão é a corruptela do nome do antigo cacique indígena da região, « Toba-nharõ ».

A mesma confusão fonética ocorreu em Biguaçu. O fato do nome atual ser parecido com « biguá » não quer dizer que tenha algo a ver com o pássaro tal como afirmar que Tubarão tem esse nome por causa do peixe.

O nome « rio de Embigoasú », conforme está registrado no manuscrito de 1753, põe por terra a versão do « Biguá Grande » conforme o professor Aryon Dall´Igna Rodrigues (1925-2014).

Por outro lado, o historiador Raulino Reitz (1919-1990), que era botânico, chamou a atenção para um detalhe desconhecido pelo grande público : se existe o « biguá açu », o biguá grande, deveria existir o « biguá mirim », a variedade que, por contraste, chamaria a atenção para os tamanhos. Na realidade, não existe.

No entanto, existe uma variedade preta chamada « biguá una » (que é o biguá do rio Biguaçu) em contraste com o « biguá tinga », que é o biguá de pescoço grande, existente em grandes rios do Brasil central.

Em resumo : na zoologia, não há registro de « biguás açús » nem de « biguás mirins ». Há apenas uma espécie conhecida como biguá (chamada também de biguá una, pois « una » significa « preto » em tupi) e uma variedade « tinga » (que significa « branco » no mesmo idioma indígena).

E mais nada. Vale lembrar que o biguá é um pássaro encontrado do Arizona (EUA) até a Argentina. E em todo o continente, não foi encontrada uma espécie « açu » dessa ave.

 

 

Estudo desvenda a remota origem do nome “Biguaçu” perdida ao longo dos séculos

 

Mapa da Ilha de Santa Catarina de 1549 Eis a chapa para o desvendamento do nome Biguaçu. (Foto Reprodução)

 

Mapa de Florianópolis e região continental. (Foto Reprodução)

 

Detalhe do mapa de 1549. (Foto Reprodução)

 

Página aberta do livro de registro de terras. (Foto Reprodução)

 

Aqui algumas das constatações resumidas do futuro livro “A Origem do Nome Biguaçu”:

  • Na biologia, só tem o registro de uma só espécie, o “biguá”. Não há registro de “biguá açus” e “biguá mirins”.
  • Não há registro de alguma cidade do Brasil que também se chame “Biguaçu”.
  • Não há outro rio do Brasil que se chame “Biguaçu” ou “Biguá Mirim”. Só há duas cachoeiras no Brasil que tem o nome “biguá”, cujos nomes realmente aludem ao pássaro em questão.
  • Só há o registro de uma lagoa chamada “Biguá” no Rio Grande do Sul. Não foi encontrada alguma “Lagoa Biguá Mirim” ou “Bigua Açu”.
  • Nos dias de hoje não encontramos biguá açus entre os biguás que vivem no rio Biguaçu.
  • Não há tradição oral no atual povo de Biguaçu a respeito da existência de “biguás açus”, de porte realmente maior do que os biguás comuns.
  • O historiador, padre Raulino Reitz (1919-1990), defendeu a tese de que Biguaçu vem de uma árvore conhecida exatamente pelo mesmo nome de “Biguaçu”.
  • A tese é muito boa. Existe uma árvore chamada “biguaçu” ou “baguaçu”, é nativa do litoral de Santa Catarina. Mas tem um problema.
  • O problema é que, segundo os registros botânicos, a árvore “biguaçu”, que possui vários nomes, não tem registro de denominação de “embigoasú”.
  • E além do mais, há um detalhe importantíssimo. O pássaro biguá vem do guarani “mbiguá”, que também significa “seta” ou “flecha”. O “biguá grande” não tem registro na biologia, mas a “seta” ou “flecha” grande é bem possível. A palavra vem de “guamby” e não de “mbiguá” e alude a uma grande cerca.
  • E se for verificar o primeiro mapa da Ilha de Santa Catarina, de 1549, onde aparece também o vale do Biguaçu. Ali consta uma singular CERCA que dá fortes indícios da origem do nome do rio que deu origem ao nome do município de Biguaçu.

Este é um resumo do futuro estudo “A Origem do Nome Biguaçu”, que o jornal Biguaçu em Foco está preparando e deverá ser lançado no futuro.

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