Por: Ozias Alves Jr. | 22/09/2018

A ESTRADA QUE TROUXE A GUERRA

 

No século XVIII, o sul do Brasil era uma imensa floresta virgem e vastidões de campos selvagens. Nessa região habitada por índios, a população de origem portuguesa era escassa.

Eis que em 1728 foi aberta a estrada entre Rio Gande a São Paulo com o objetivo de conduzir o gado dos campos do Rio Grande do Sul até Sorocaba, interior de São Paulo.

Sorocaba significa « lugar de descanso » na língua indígena tupi. Talvez referia-se ao fato de que ali era o « ponto final de descanso » do gado trazido dos campos do Rio Grande do Sul. Os animais eram abatidos e ali mesmo era produzida a carne seca, o principal alimento dos escravos que trabalhavam nas « Minas Gerais », onde concentravam-se as minas de ouro, diamante e outros metais preciosos. Daí a origem no nome « Minas Gerais ».

Ao longo da referida estrada, que cortava os campos e florestas do meio do que hoje é o território do estado de Santa Catarina, foi fundada a cidade de Lages em 1771.

 

No centro, a estrada aberta em 1728 para ligar o Rio Grande do Sul a São Paulo, passando pelo interior de Santa Catarina e Paraná. (Google Images)

 

Com o tempo, ao longo dessa rota de tropeiros, os famosos condutores de rebanhos de gado, foram surgindo fazendas e povoações. Mas havia um problema : a estrada em questão passava justamente por dentro do território dos índios xokleng.

Lages situa-se numa região de planalto com extensas florestas de « pinheiro araucária », árvore que produz o « pinhão », importante fonte de alimento para os xokleng. Nômades, esses índios vagavam pelos campos e matas do interior de Santa Catarina. Viviam da caça e coleta de frutos, raízes, larvas ou qualquer coisa que pudesse ser comida.

Os intrusos brancos europeus estavam cortando as árvores, matando os animais e tirando o pinhão, um dos alimentos mais preciosos dos índios. O resultado não haveria de ser outro : guerra aos invasores.

 

A ORIGEM DOS ÍNDIOS CATARINENSES

 

Qual é a origem dos xokleng ? Pesquisas arqueológicas concluíram que os primeiros grupos humanos chegaram ao Sul do Brasil por volta de 5.500 antes de Cristo e que o litoral catarinense acabou ocupado por volta de 3 mil anos A.C.

O antigo povo que ocupava o território de Santa Catarina é chamado pelos antropólogos de „sambaquieiro“ porque ossadas desses antigos índios foram encontradas nos „sambaquis“, como são chamados uns misteriores depósitos de conchas. Naquelas „montanhas“ de cascas e conchas de mariscos e ostras amontoadas pelos índios, foram encontrados os vestígios desses primitivos ocupantes de Santa Catarina.

Quem eram eles? Que língua falavam? De onde vieram? Não se sabe. A arqueologia afirma que, já na era cristã, o território onde hoje é o estado de Santa Catarina, passou a ser ocupado por tribos vindas de outras regiões do interior do continente sul americano, como a dos guarani, kaingang e xokleng. Eram três grupos rivais.

Os guarani, chamados de „carijós“, viviam em pequenas aldeias agrícolas no litoral. Foram dizimados ao longo dos séculos XVI e XVII pelos „Bandeirantes“. Vindos de São Paulo, esses aventureiros escravizavam índios para levá-los às grandes plantações de cana de açúcar no litoral de São Paulo, 700 quilômetros ao norte de Santa Catarina.

Sim, nos séculos XVI e XVII, os portugueses passaram a plantar cana para produzir o açúcar que era exportado para a Europa e a mão de obra para essas plantações foi buscada na escravização de índios.

Mas a experiência não teve vida longa, pois os índios, não acostumados ao trabalho servil, eram sensíveis às doenças transmitidas pelos brancos, contra as quais não tinham imunidade. Com o tempo, os portugueses tiveram de buscar escravos na África para solucionar a falta de mão de obra das grandes lavouras de cana.

 

Mapa de Santa Catarina antes da chegada dos europeus (século XVI), com as regiões onde viviam as tribos indígenas nativas da região. (Foto: Google Images)

 

 

Os xokleng viviam na faixa entre o litoral e o planalto central do estado de Santa Catarina. Disputavam com os vizinhos kaingang o domínio dos ricas florestas de araucária, de onde extraíam o indispensável pinhão.

Os antigos bandeirantes preferiam „caçar“ os guaranis, um povo agrícola do litoral que também criava animais domésticos. Os xokleng eram nômades, sem tradição em agricultura e pecuária. Não serviam como escravos nas grandes plantações de cana-de-açúcar e, ainda por cima, os xokleng viviam em pequenos grupos dispersos sertão adentro. Atacar os guarani, que viviam em pequenas cidades, era menos arriscado e mais lucrativo para o arrebanhamento de grande número de escravos em pouco tempo de expedição do que arriscar a vida vagando sertão adentro atrás dos selvagens xokleng.

Isso explica como os xokleng não foram afetados pelo intenso tráfico de escravos indígenas dos séculos XVI e XVII, ao passo que os guarani carijós quase entraram em completa extinção.

Bandeirantes capturando índios carijó (guarani) do sul do Brasil. Pintura de 1830 de Jean-Baptiste Debret. (Google Images)

XOKLENG: TRÊS CLÃS

Os xokleng não eram um povo unido, mas dividido em três clãs principais.

O primeiro era chamado de ngrokòthi-tõ-prèy, que vivia mais ao norte do atual estado de Santa Catarina. Vagavam também pelo sul do Paraná.

O segundo grupo chamava-se angying, do sul de Santa Catarina.

Já o terceiro, o laklãnõ, vivia pelas matas do vale do rio Itajaí.

 

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O DESERTO QUE NÃO ERA BEM UM „DESERTO“

 

Território por onde viviam os xokleng no século XIX. (Google Images)

No século XVIII, Santa Catarina era um grande „deserto“. Na época, apenas o litoral era ocupado por três minúsculas cidades. Eram São Francisco do Sul (1658), Laguna (1676) e Desterro (1726- hoje chamada de Florianópolis).

Quando usamos a palavra „deserto“, era na perspectiva dos europeus, pois, na verdade, havia os índios xokleng e kaingang no interior desse território.

As três cidades foram fundadas justamente pelos bandeirantes que antes vieram a Santa Catarina „caçar“ índios guarani.

Somadas as populações das três cidades, não davam 3 mil habitantes. Ora, Santa Catarina e o vizinho Rio Grande do Sul faziam fronteira com as colônias espanholas.

E se os espanhóis resolvessem invadir e anexar o sul do Brasil, tão escassamente povoado pelos portugueses?

O problema preocupou o governo português que resolveu criar a capitania de Santa Catarina em 1738. A região, antes sob jurisdição de São Paulo, foi desmembrada para formar uma nova capitania- a de Santa Catarina, em alusão à Ilha de Santa Catarina, que se tornou a capital.

Como primeiro governador foi designado o brigadeiro do exército colonial português, José da Silva Paes (1679-1760), que já havia lutado contra os espanhóis na região da cidade de Colônia do Sacramento, fundada em 1680 no atual Uruguai pelos portugueses nas margens da foz do rio da Prata, na margem oposta a Buenos Aires.

Por causa dessa cidade, surgida dentro do território espanhol segundo estabelecido pelo antigo Tratado de Tordesilhas (1494), encrueceu a tensão entre portugueses e espanhóis.

Colonos do arquipélago dos Açores foram trazidos para colonizar Santa Catarina. O motivo era óbvio: tentar aumentar a população da região para fazer frente à eventual invasão espanhola e, se possível, fornecer soldados para Colônia do Sacramento.

Entre 1748 a 1756, mais ou menos 3 mil deles foram assentados. A população „dobrou“, mas o número era de pouco mais de seis mil „almas“ numa região relativamente vasta.

Os colonos açorianos não se embrenharam no sertão. Permaneceram concentrados no litoral onde tiravam o sustento na pesca e na agricultura de subsistência.

 

A GUERRA

 O governo português temia os espanhóis e, por isso, trouxe os colonos açorianos e incentivou a fundação de cidades no interior do território. A cidade de Lages, situada no interior de Santa Catarina, fez parte dessa estratégia de colonização do „sertão“ o melhor e mais rápido possível.

Por causa de Colônia do Sacramento, os espanhóis invadiram o sul do Brasil em 1777, ocuparam a Ilha de Santa Catarina (hoje Florianópolis) por um ano, mas saíram após o Tratado de Santo Idelfonso (1778), com as novas demarcações de limites entre as terras portuguesas e espanholas na América do Sul.

Os portugueses e espanhóis nunca mais voltaram a digladiar-se, mas outra guerra acabaria eclodindo, desta vez com os índios xokleng por causa dos ataques desses últimos a fazendas e  viajantes na estrada Rio Grande do Sul-Sorocaba, como também em outras povoações nascentes.

 

NAPOLEÃO BONARPARTE E A GUERRA CONTRA OS BUGRES

 

Combate aos bugres. Pintura de 1827 de autoria de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês que integrou a Missão Francesa (1816) que fundou a „Academia Real de Belas Artes“, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Debret é autor do livro „Voyage pittoresque et historique au Brésil (1834)“. (Google Images)

 

Em 1808, Portugal foi invadido pelo general Junot (1771-1813), por ordem de Napoleão Bonaparte (1769-1821). O rei português Dom João VI (1767-1826) fugiu para o Brasil naquele mesmo ano de 1808.

O interessante é que, pouco tempo depois de ter chegado ao Brasil, em 5 de novembro de 1808, ele assinou uma „carta régia“ declarando guerra aos índios „bugres“ no sul do Brasil.

Por que assinou esse decreto? Infelizmente sobrou pouca documentação, mas para que o rei assinasse uma declaração de guerra, certamente os ataques dos índios contra os fazendeiros e tropeiros que conduziam as manadas de gado pela estrada que cortava a serra catarinense rumo a Sorocaba, São Paulo, estavam fora do controle e chegou ao conhecimento das autoridades.

Mas a própria carta já dá uma pista sobre os motivos. Dom João VI escreveu para comandantes militares baseados em Santa Catarina: „(…) desde o momento em que receberdes esta minha Carta Regia, deveis considerar como principiada a guerra contra estes barbaros Indios.“[1].

O mesmo documento afirmava que fazendeiros e moradores vinha abandonando suas propriedades ao longo da mencionada estrada com medo de novos ataques dos „bugres“.

Num artigo intitulado „Notas para a História da Fundação de Lages“, publicado na Revista do Instituto Histórico Geográfico (IHG) de Santa Catarina, volume XII, Florianópolis, 1944, um historiador da região de Lages chamado Vidal Ramos, transcreveu uma carta de Correia Pinto, o fundador de Lages, endereçada ao governador de São Paulo, a quem era subordinado e de quem recebeu a ordem de embrenhar-se naquele „sertão“.

Escreveu Correia Pinto (hoje nome de cidade na região de Lages): „(…) índios q. habitão naquelas campanhas, p.a não infestarem a extrada geral por onde se tranzitão mtos milhares de cavalgaduras e gados cada anno (…).

Correia Pinto observou que a estrada Rio Grande do Sul-Sorocaba, nas margens da qual encontra-se Lages, era percorrida por milhares de tropeiros conduzindo gado. Portanto, era de fundamental importância afastar os índios da citada estrada.

 

Índios botocudos da Ilha de Santa Catarina. Desenho de Jean-Baptiste Debret (1768-1848). Imagem esteriotipada dos índios xokleng, que na realidade não assim. Em primeiro lugar, não havia botocudos na Ilha de Santa Catarina (atual Florianópolis). Em segundo lugar, não usavam roupas como as que aparecem na pintura. Em terceiro lugar, onde estão os „botoques“, os „piercing“ de madeira no lábio inferior? Certamente a pintura foi feita por Debret no Rio de Janeiro ou na França, a partir de histórias que certamente falar desses índios. (Google Images)

INDEPENDÊNCIA E COLONIZAÇÃO

Eis que o Brasil tornou-se independente em 1822. Mas o problema da colonização do sul do Brasil continuava. A região continuava escassamente povoada por colonos „brancos“.

O governo do novo país resolveu imitar o exemplo americano de imigração: trazer colonos da Europa para os quais seriam dadas ou vendidas terras. O objetivo era formar colônias agrícolas com homens livres. Vale lembrar que a agricultura do Brasil daquela época era realizada por grandes fazendas com mão de obra escrava.

Vale lembrar que a Europa já encontrava-se superpovoada nessa época e era o início da Revolução Industrial, que resultou como consequência o surgimento de fábricas, o crescimento demográfico das cidades industriais, o esfacelamento das profissões artesanais que não suportaram a concorrência dos novos produtos industrializados, a ampliação do desemprego e a especulação de terras que levou inúmeros sem terra e meeiros do continente europeu à miséria e desesperança.

O continente americano, com tantas áreas não povoadas e florestas de perder de vista, tornou-se uma grande oportunidade para companhias de colonização adquirirem terras e investir em colônias agrícolas.

O grande „deserto“ do sul do Brasil tornou-se a „Meca“ e os interesses uniram-se. O governo brasileiro queria colonizar essas terras para evitar que se repetisse a invasão espanhola como a de 1777, os agentes das companhias de navegação queriam faturar com o transporte de colonos para a América do Sul, as companhias de colonização queriam negociar terras e milhões de pobres da Europa, principalmente camponeses, vivendo no turbilhão de mudanças provocadas pela Revolução Industrial, desejavam a oportunidade de mudar de vida adquirindo sua sonhada fazenda para viver com mais dignidade.

Foi assim que colonos alemães, italianos, poloneses, entre outras nacionalidades, vieram para Santa Catarina ao longo do século XIX.

Mas eles não imaginavam que iriam enfrentar índios ferozes que lutariam literalmente com unhas e dentes por aquelas mesmas terras.

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EM BUSCA DE TERRA PARA PLANTAR E VIVER

Carlos Hunsche, pesquisador da história da imigração alemã no Rio Grande do Sul, informou que a passagem de navio da Alemanha ao Brasil custava em 1824 o equivalente hoje a 700 dólares, uma soma considerável na época.

Os colonos simplesmente vendiam o pouco que tinham na Europa para pagar a passagem só de ida rumo ao Brasil. Eles nem se importavam que, ao embarcar nessa aventura, tinham de renunciar automaticamente à nacionalidade alemã.

A Alemanha, por exemplo, era um país superpovoado e os camponeses, quando possuíam a terra, não dispunham de grandes áreas. Quando a propaganda das companhias de colonização afirmava que receberiam lotes por volta de 77 hectares, seus olhos brilhavam, pois isso correspondia a um „latifúndio“ na Alemanha, coisa que eles nunca imaginariam que poderiam ter um dia na vida em seu país de origem.

Eis a razão por tantos deixarem tudo, inclusive chegando ao extremo até de renunciar a cidadania alemã, para aventurar-se no desconhecido Brasil, na época literalmente o „fim do mundo“.

A primeira leva de imigrantes alemães chegaram ao Rio Grande do Sul em 1824 e em Santa Catarina em 1828.

 

DOIS POVOS E DUAS CONCEPÇÕES DE MUNDO

As companhias de colonização omitiam ou faziam de conta que não sabiam da existência dos índios nas florestas de Santa Catarina. No mapa, já estavam traçadas as futuras colônias e cidades que os imigrantes europeus fundariam no interior de  Santa Catarina.

Os xokleng viviam em grupos pequenos e médios em busca de alimentos. Para uma sociedade nômade, o importante é haver uma grande extensão de terra para que não se esgotem os recursos alimentares rapidamente.

Os imigrantes europeus que chegaram para ser assentados nas florestas do interior de Santa Catarina no século XIX tinham uma cultura totalmente diferente: a da propriedade privada. Mal instalavam-se, os colonos derrubavam a floresta para abrir os campos de cultivo. Passavam a caçar os mesmos animais que os índios xokleng necessitavam para sua sobrevivência e exploravam as mesmas fontes de frutos e outros alimentos tão vitais para os índios.

O que esperar dos índios diante de uma situação dessas que não a guerra?

Por outro lado, no século XIX, não havia qualquer preocupação em se respeitar os direitos dos índios. Aliás, eles oficialmente nem tinham direitos. Eram considerados uns „bichos“ que precisavam ser exterminados se não aceitassem a rendição e a submissão.

 

CIDADES SURGINDO NAS DERRUBADAS DA MATA

Em 1850, surgiu a cidade de Blumenau, às margens do rio Itajaí-Açu, por colonos alemães liderados por um certo farmacêutico chamado Otto Bruno Blumenau (1819-1899). Em 1851, surgiu Joinville, hoje importante cidade industrial do norte de Santa Catarina.  Ao longo da segunda metade do século XIX, dezenas de cidades foram surgindo onde outrora era uma floresta virgem e a o número de colonizadores brancos aumentava a cada ano nas terras dos índios.

Os xokleng intensificaram seus ataques para tentar conter o avanço dos invadores.

 

O FIASCO DA FORÇA DE PEDESTRES

Para se proteger do ataque dos índios „bugres“, os tropeiros que conduziam as manadas pela estrada que passava por Lages rumo a Sorocaba, São Paulo, passaram a contratar batedores. Os escolhidos para essa tarefa eram aqueles exímios conhecedores dos caminhos do sertões e a capacidade de detectar a presença de bugres pela floresta, como também na defesa dos viajantes.

Vale lembrar que os índios tinham a habilidade de vigiar pela mata fechada sem serem percedidos e de atacar de surpresa. Por isso, eram tão temidos.

E não tinha quem não os temesse, inclusive soldados profissionais. Em 30 de outubro de 1814, nas águas termais onde hoje situa-se a cidade de Santo Amaro da Imperatriz, a 31 quilômetros de Florianópolis (Desterro), um destacamento foi massacrado num ataque surpresa realizado pelos „bugres“.

Em 1836, esses índios atacaram nas proximidades de Camboriú, cidade do litoral catarinense.

Em 25 de abril daquele mesmo ano de 1836, o governo da Província de Santa Catarina resolveu criar a „Força de Pedestres“,  um destacamento da polícia cujo objetivo era garantir a segurança das cidades e povoações contra os índios „bugres“.

Mas foi um fiasco. A Força de Pedestres tinha poucos homens e o Dr. Blumenau, fundador da colônia Blumenau, cuja casa foi atacada em dezembro de 1952 pelos bugres, não resistiu a um comentário irônico. Numa carta, comentou a cada cinco tiros que os soldados da Força de Pedestres davam, quatro não acertavam o alvo devido ao estado de velhice e ferrugens das armas dos soldados dessa força.

No início, a Força de Pedestres era formada por apenas 17 homens- um sargento, um cabo e 15 soldados. Por volta de 1856, 20 anos depois de sua criação, já encontravam-se com 70 soldados, mas nunca chegavam a tempo nos locais onde os bugres haviam acabado de atacar.

Em 1856, o governador de Santa Catarina na época, João José Coutinho, defendeu que a tática mais correta era atacar os índios de surpresa dentro de seus acampamentos e exterminar o maior número possível deles. O problema era que os „Pedestres“ não conseguiam alcançá-los, que dirá encontrar seus acampamentos.

Em 1879, a Força de Pedestres acabou dissolvida por causa de sua total ineficiência no „campo de batalha“.

 

CATEQUISTAS: OUTRO FRACASSO

Com o fracasso total da Força de Pedrestes, pensou-se numa solução alternativa. Por que não contratar padres jesuítas para catequisar os índios e convencê-los a viver numa reserva chamada Missão?

Essa ideia não era nova no Brasil. Ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII,  padres jesuítas catequizaram muitas tribos indígenas nas mais variadas regiões do continente chamado Brasil.

Mas a questão era: isso daria certo com os arredios índios bugres? Em 1849, houve a primeira tentativa. Não deu certo. Nenhum bugre foi convertido.

Em 1868, dois padres capuchinhos- Virgínio Amplar e Estevam de Vicenza- foram contratados para catequizar os bugres, mas também foi um fracasso. Motivo: os padres recusaram-se a embrenhar-se na mata. Pode uma coisa dessas?

Em 1877, houve outra experiência, mas foi outro fiasco também.

Enquanto isso, os ataques dos índios, as mortes e prejuízos aos colonos continuavam. Foi então que surgiu um grupo de assassinos profissionais, os „Bugreiros“. Iniciava-se o Genocídio.

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O ÍNDIO, O COLONO E O BUGREIRO: EIS OS „ATORES“ DA TRAGÉDIA

Muitas vezes os índios bugres atacavam tão subitamente que os colonos não tinham nem tempo de pegar seus rifles. Aqui não é objetivo detalhar todos os casos de ataques documentados que resultaram em mortos e feridos.

Logo que eram informados a respeito do ataque de bugres, os colonos das vizinhanças formavam uma tropa para caçar os índios nas matas.

Foi nesse cenário que surgiram os „bugreiros“, os „batedores de mato“, mas que se tornaram assassinos profissionais especializados em localizar os índios na mata usando técnicas de camuflagem e exterminando-se sem piedade em ataques surpresas.

 

BUGREIROS

 

Bugreiros. Foto de 1904. (Foto: Arquivo Público de Blumenau)

 

As tropas de bugreiros compunham-se geralmente de 8 a 15 homens, maioria dos quais aparentados em si. Seguiam um chefe.

No início, eram pagos pelo próprio governo de Santa Catarina.

Na Sibéria existe homens tão adaptados ao frio absurdo que faz naquela região do planeta, que são capazes de literalmente viver ao relento tal o conhecimento que eles têm da natureza local. O mesmo pode ser dito dos bugreiros, que tinham notório conhecimento de como penetrar na mata sem deixar rastros, como camuflar-se, como conseguir alimentos silvestres entre outras habilidades de sobrevivência neste ambiente.

Quando entrevistei o índio Namblá Gakran, cuja história foi relatada no início deste livro, ele comentou que Martinho Bugreiro, o mais famoso e sanguinário dos bugreiros, cujo bando foi uma verdadeira „máquina de matar índio“, aprendeu técnicas de camuflamento na mata com os próprios xokleng, com os quais teria vivido na juventude.  Segundo Namblá, Martinho fugiu após ter envolvido-se com a mulher de um índio. Para não morrer, sumiu.

Essa informação foi-me uma completa surpresa. Li dois dos principais livros do antropólago Sílvio Coelho dos Santos (1938-2008), que dedicou sua carreira ao estudo dos xokleng. Ele entrevistou não só um dos últimos bugreiros que ainda encontrava vivo em 1972, como também a filha do famoso Martinho Bugreiro. Em momento algum Sílvio comentou que Martinho havia vivido com os xokleng. Se não for uma „lenda urbana“ dos atuais xokleng, a história é romance de aventuras e tragédias bem mais intenso do que se imaginava.

Os bugreiros não usavam cachorros para localizar os índios. O motivo é óbvio: cachorros latem e fazem barulho.

No entanto, os índios tinham cachorros. Como aproximar-se do local de descanso dos índios sem que os cachorros latissem chamando a atenção da aproximação dos bugreiros?

Os bugreiros tinham uma técnica. Como percorriam longas distâncias na mata, suavam aos borbotões. Como não dava tempo de tomar banho nem de trocar de roupa, o suor impregnava nas vestimentas.

Então eles viravam as roupas ao contrário. Por uma razão que não imagino qual seja, os cachorros dos índios sentiam o cheiro e se retiravam sem fazer barulho.

 

Tropa de bugreiros. Foto do final do século XIX. (Acervo Prof. Sílvio Coelho dos Santos)„VÓNH VE KŨ“: A HORA DO ATAQUE

 

Vónh ve kũ significa „amanhecer do dia“ na língua xokleng. É aquela hora que ainda está escuro, mas o sol está nascendo.  É justamente nesse horário preciso que os bugreiros atacavam.

Era meio da noite ou início da madrugada quando os bugreiros localizavam o acampanhamento dos índios. Os assassinos esperavam que os indígenas se deitassem ao redor ou perto do fogo. A cama era o próprio chão forrado com um tapetes de fibra vegetal.

Num canto do acampamento, os índios deixavam seus arcos e flechas num cabide.

Como escreveu o agricultor Silvesto Schuck (1956-   ), um poeta da língua hunsrückisch residente em Santa Maria do Herval, norte do Rio Grande do Sul, cuja história consta no livro „Parlons Hunsrückisch“ (2013), „oft mool layt te taywel im xate » (trad. : souvent le diable se cache dans l’ombre.)

Fazendo jus a este verso, os bugreiros passavam a noite inteira imóveis a uma certa distância vigiando os índios.

Devagar, próximo do „vónh ve kũ“, eles se aproximavam quando os índios encontravam-se no mais profundo sono. Como precaução, alguns dos bugreiros alcançavam os cabides dos arcos para cortar as cordas dos mesmos.

A um sinal do líder, os bugreiros partiam para o massacre com seus facões. Muitos dos índios eram decapitados em pleno sono, sem imaginar o que estava acontecendo. O barulho do facão cortando a cabeça e atingindo o tapete no chão era o som daquele inferno.

Quem acordasse depararia-se com a visão dos bugreiros matando furiosamente tudo e todos que estivessem na frente. Crianças, mulheres e idosos não eram poupados. A ordem era matar o maior número de índios em poucos minutos.

No final, os bugreiros faziam questão de poupar algumas poucas mulheres e crianças. Por quê? Para levá-las prisioneiras para que o povo as visse nas cidades. Era a „prova“ de que os bugreiros realmente cumpriram a missão.

Os assassinos cortavam as orelhas dos índios mortos e transportavam-nas num cesto. Por cada par, recebiam o pagamento. Claro, um par de orelhas significava um índio a menos e uma quantia em dinheiro a receber.

No início, eles eram pagos pelo governo do Estado. Mais tarde, quando começaram as manifestações de cidadãos que se disseram horrorizados com tamanha brutalidade, conforme noticiados nos jornais, o governo foi pressionado a parar com essa matança.

Quando o governo não mais pagava pelos „pares de orelhas“, particulares continuaram contratando-os para „limpar“ da presença de índios nas matas de suas propriedades.

E o massacre dos índios xokleng pelos bugreiros prosseguiu até 1946!!!

 

MARTINHO BUGREIRO

Martinho Bugreiro (1876-1936), o mais famoso dos caçadores de índios. Foto de 1932. (Foto: Arquivo Público de Blumenau)

Foi o mais célebre, o mais conhecido e o mais respeitado de todos os bugreiros que atuaram no Genocídio contra os xokleng.

Seu nome era Martim Marcelino de Jesus ou simplesmente „Martinho Bugreiro“.

Não era considerado assassino ou matador, mas sim um herói, um civilizador do sertão, alguém que está livrando a „Civilização“ dos terríveis bugres.

Sobre ele e seu grupo, segundo relata o antrópólogo Sílvio Coelho dos Santos, foi até publicado um romance intitulado „Os Últimos Dias da Gruta Verde“, de autoria de Ernesto Venéra dos Santos (Editora livraria Santos, São Bento do Sul). Não informou o ano da publicação, mas vem da década de 1960.

Martinho nasceu em 1876 em Bom Retiro, cidade situada às margens da estrada em direção a Lages.

Segundo informações do antropólogo Silvio Coelho dos Santos, baseando em duas entrevistas (1967 e 1970) com a filha do próprio personagem, Matilde Marcelino,  Martim Marcelino começou a vida como trabalhador rural e mais tarde, já casado e com filhos, era dono de uma pequena fazenda de criação de gado.

Não se sabe o que o levou a abandonar a atividade e virar o terrível caçador de índios. Martinho não manteve contabilidade, nem diário nem escreveu sobre suas aventuras no sertão na caça dos famosos índios. Era analfabeto. A história de suas aventuras pelo sertão foi relatada por jornais e alguns livros de memórias de algumas testemunhas desses tempos.

O jornal Novidades, editado em Itajaí, em sua edição de 12 de março de 1905, noticiou detalhadamente uma expedição de Martinho contra os bugres e informou sobre a morte de um bugreiro do grupo de Marcelino, Ignácio Castanheiro, abatido pelos índios.

Comovidos, moradores de Blumenau arrecadaram dinheiro a título de amparo a ser entregue à viúva do bugreiro morto.

Na Biblioteca Fritz Müller, da cidade de Blumenau, encontra-se um manuscrito com o registro não só de todos os bugreiros participantes daquela expedição de 1905 como também os nomes das empresas e dos cidadãos que contribuíram financeiramente para pagar os serviços do bando de Martinho como também o quanto foi arrecadado para que o dito chefe dos bugreiros levasse em mãos para a viúva de Ignácio.

Martinho gabava-se de ter perdido as contas de quantos índios chegou a matar, como se fosse algo digno de se comemorar.

Faleceu em 1936 vítima de paratifo. Certamente tendo ganhado bom dinheiro na atividade de matar índios, mas deixou a família em precária situação financeira, pois suas terras não estavam devidamente legalizadas.

 

POLÊMICA EM TORNO DE MARTINHO BUGREIRO

 

Martinho Bugreiro, enfaixado na mandíbula, com mulheres e crianças xokleng prisoneiras. Foto de 1905. (Foto Arquivo Público de Blumenau)

Antes de redigir este livro, estava navegando na internet e entrei num site de mensagens. O tema era Martinho Bugreiro. Uma internauta escreveu que não passava de um assassino cruel.

No meio das mensagens, encontrei a de um cidadão que afirmou ter o maior orgulho de ser  descendente direto de Martinho Bugreiro.

Não é preciso dizer que a figura de Martinho Bugreiro suscita grande polêmica. Ele foi um assassino, sem a mínima sombra de dúvida. Mas espera aí: se não existissem os bugreiros, como o interior de Santa Catarina teria sido colonizado?

Ninguém aqui está defendendo o Martinho Bugreiro, mas é fácil hoje amaldiçoar a memória dele.

Se os críticos fossem aqueles pobres colonos coitados que venderam tudo na Europa para embarcar só com a passagem de ida num navio rumo ao Brasil e aqui conseguissem o tão sonhado pedaço generoso de terra e vissem tudo ruir por causa dos ataques dos bugres, o que faria? Voltar? Abandonar a terra? Lutar? Ou pagar os bugreiros para ver se matassem os „desgraçados“ dos índios selvagens que tantos prejuízos estavam provocando?

É verdade que nada justifica matar seres humanos, ainda mais que estes últimos estavam lutando legitimamente por suas terras, mas o que o leitor teria feito se fosse um daqueles antigos colonos do interior de Santa Catarina assolado pelos ataques dos índios?

A resposta não é fácil.

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„O CORPO É QUE NEM BANANEIRA“

 

Em suas pesquisas, o antropólogo Sílvio Coelho dos Santos conseguiu localizar, na década de 1960,  um bugreiro chamado Júlio Ramos, que lhe contou orgulhoso como, durante um ataque aos xokleng, cortou a facão uma índia de uns 14 anos de idade. Entrando pelos ombros, o metal desceu até o estômago, „cortando que nem bananeira.[2]

Quando entrevistei Namblá Gakran (1963-  ), este lembrou-se da referência à „bananeira“. A palavra provocou-se revolta íntima e levantou dolorosas lembranças, não suas porque não era nascido na época dessas atrocidades, mas lembrou as histórias contadas por seu avô, que era criança no ínicio do século XX e presenciou um desses ataques surpresa dos bugreiros.

Sílvio também entrevistou outro bugreiro, desta vez Ireno Pinheiro, em 1972, na cidade de Santa Rosa de Lima, sul de Santa Catarina. Ele também usou o mesmo termo „bananeira“: „O corpo é que nem bananeira, corta macio“, comparou Ireno[3].

Ireno contou outro detalhe. Como relatado antes aqui neste livro, os ataques aos índios geralmente davam-se bem no início da manhã para surpreender os índios em pleno sono e na mais completa surpresa.

Mas Ireno contou que os bugreiros também agiam de dia matando índios com tiros desferidos por seus rifles Winchester, tal como se fosse caçar veados e javalis na mata.

 

OS NOMES DOS BUGREIROS

 

No sul de Santa Catarina, os bugreiros mais famosos, respeitados e considerados como „heróis“ foram Veríssimo, Maneco Ângelo e Natal Coral.

Na época, matar índios era considerado „benfeitoria“, „serviço de utilidade pública“.

O jornal em língua alemã editado em Blumenau o „Blumenau Zeitung“, certa vez noticiou em 1904 com a seguinte manchete: „Como se civiliza no século XX“, com fartos elogios aos bugreiros.

Já no grupo de Martinho Bugreiro, segundo Sílvio Coelho dos Santos,  encontravam os seguintes „profissionais“ da matança de índios: 1) José Rodrigues Marcelino (apelidado José Bolantim), 2) Jacinto José de Souza (também chamado de Jacinto Inácio Marcelino), 3)  Inácio Castanheiro, 4) Antonio Castanheiro, 5) José Castanheiro, 6) Manoel (Neco) Castanheiro, 7) João Faustino, 8) Leodoro Faustino e 9) José Faustino.

 

RELATO DE UMA TESTEMUNHA E UMA LIÇÃO QUE APRENDI

 

João Damásio Martins (1919-2001). (Foto: Ozias Alves Jr)

 

Por que registrei os nomes dos bugreiros? Explico.

Era 1999 ou 2000 quando eu ia com minha esposa à casa do senhor João Damásio, situada na cidade de Tubarão, sul de Santa Catarina.

O pedreiro aposentado, João Damásio, viúvo que se casou em segunda núpcias com a idosa tia de minha esposa, dª Licinha (Alice Raul), era um grande contador de histórias.

Seu João tinha uma memória prodigiosa e lembrava-se de muitos detalhes, mesmo que de fatos ocorridos 50 ou 60 anos atrás.

Como jornalista, tenho como norma pessoal levar sempre uma máquina digital comigo. Motivo: nunca se sabe se a notícia não pode aparecer na sua frente.

Mas em 2000, eu não tinha esse costume. Além do mais não havia máquinas digitais e não gostava de gravar fita cassete.

Foi com João Damásio que escutei, pela primeira vez, as histórias dos bugreiros. Fiquei fascinado com a história ao mesmo tempo horrorizado com aquela tragédia, uma mancha na história de Santa Catarina.

João conheceu dois dos bugreiros que atuaram no bando de Martinho Bugreiro. Ao redor de uma mesa de bar ou numa roda de amigos, os bugreiros relatavam as histórias e aventuras pelos sertões à caça dos índios.

Nunca gravei ou anotei os relatos de João Damásio, apesar de que era uma história interessantíssima para uma reportagem ou artigo.

Meu jornal chama-se „Biguaçu em Foco“ (www.jbfoco.com.br) e Tubarão é uma cidade situada a 247 quilômetros ao sul de Biguaçu. Portanto, não me interessei em publicar uma reportagem só porque meu jornal tinha como foco apenas a cidade de Biguaçu e Tubarão é  uma cidade distante, bem fora da minha área de cobertura.

Eu só escrevia reportagens, artigos e matérias apenas de Biguaçu. Que besteira! Que bobagem! Que tolice! História boa não tem limites geográficos! Perdi a oportunidade de ter feito uma reportagem especial, super bem detalhada, quem sabe com inúmeros capítulos, reconstituíndo a história dos últimos bugreiros, segundo as memórias do falecido tio de minha esposa.

Arrependi-me absurdamente. João tinha uma memória realmente muito prodigiosa e contava uma infinidade de detalhes interessantíssimos. Citou o nome dos bugreiros que conheceu, contou até mesmo onde moravam os filhos ou os netos desses. Relatou-me histórias do famoso Martinho Bugreiro.

Não imaginei que um dia, 13 ou 14 anos depois, iria escrever um livro sobre o assunto e que a reportagem que deveria ter escrito na época agora faz falta a esta obra.

Por isso, como jornalista, essa experiência acabou dando-me uma lição: jornalista que é jornalista mesmo anda com máquina digital no bolso 24 horas por dia, inclusive em viagens de descanso.

Entre as histórias relatadas por João Damásio tendo como tema os „bugres“, foi a de uma família desses índios encontrada no sul de Santa Catarina. Li no livro de Silvio Coelho dos Santos que em 1949 foi encontrado pai, mãe e um filho e que os pais morreram de gripe não muito tempo depois desse encontro.

 

Família de xokleng encontrada no interior de Orleans, sul de Santa Catarina, em 1949. (Foto: Acervo Prof. Sílvio Coelho dos Santos)

 

Quando li isso, lembrei-me. Sim, João Damásio contou essa história. Aliás, ele mesmo foi testemunha ocular desse encontro. Contou-me João que um intéprete foi trazido do Paraná e que o jovem índigena relatou a este tradutor que era o único sobrevivente de uma família de 14 irmãos, todos mortos pelos bugreiros.

Infelizmente João Damásio faleceu em 2001. Se ainda estivesse vivo, iria procurá-lo para pedir que me contasse novamente a história para que eu pudesse ir atrás dos filhos ou netos dos bugreiros que vivem em Tubarão ou nas cidades circunzinhas.

Infelizmente perdi a oportunidade. Restou-me uma lição: nunca se sabe se, num horário de descanso ou numa ida a um supermercado, não aparece uma boa história a sua frente para registrar. Por isso, é preciso sempre andar com a máquina digital a tiracolo. Eis a lição pessoal que tive.

 

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RELATO MAIS DETALHADO SOBRE MARTINHO

José Deeke, diretor da Colônia Hansa, no interior do Vale do Itajaí, redigiu dois manuscritos em alemão. Um chamava-se „Die Botocuden am Rio Plate“ (1923) (Trad.: Os (Índios) Botocudos no Rio Plate“ e „Das Munizip Blumenau und Seine Entwicklungsgeschichte“ (Trad.: O Município de Blumenau e a História de seu Desenvolvimento), documento este que foi traduzido por José Ferreira da Silva sob o título de „Os Indígenas do Itajaí“, do „Blumenau em Cadernos“ tomo VIII, nº 6/7, Blumenau.  (1967).

Neste último trabalho, Deeke publicou uma entrevista que fez com o famoso Martinho Bugreiro. Trata-se de um documento raro sobre esse personagem da vida real.

 

REGISTROS DA GUERRA

José Deeke fez também um levantamento minuncioso sobre os registros de ataques dos índios xokleng aos colonos no vale do Rio Itajaí entre 1852 a 1914.

O autor informa que há alguns brechas porque faltaram alguns números dos jornais para a consulta. Ao final, Deeke registrou 41 brancos mortos e 22 feridos pelos índios naquela região.

Num outro caderno manuscrito, hoje guardado no Arquivo Público de Blumenau, outro autor informou que entre 1890 a 1913, morreram 35 colonos no Vale do Itajaí.

Já no vizinho estado do Paraná, um livro em polonês registrou 40 mortos pelos índios bugres. O livro entitula-se Pamietnik Emigrantów, Ameryka Poludniowa, Instetut Gospodarstwa Spolecznego, Warszawa, 1939. (Trad.: Memórias de Emigrantes (Poloneses) na América do Sul. Instituto de Economia Social, Varsóvia, 1939). A obra foi citada pelo antropólogo Silvio Coelho dos Santos.

O Paraná, estado situado ao norte de Santa Catarina, tem uma peculiaridade: se em Santa Catarina, há mais colonos vindos da Alemanha e Itália, lá no Paraná há mais concentração de descendentes de colonos poloneses, ucranianos e russos.

Num outro livro polonês citado por Sílvio Coelho, de autoria de R.C. Wachomicz, intitulado Na Pionierskin Szlak. Pamietnik Emigrantov, nakladem wydawnictwa „Polonia Warszawa“ (1965) (Trad.: Caminhos dos Pioneiros. Memórias dos Emigrantes. Publicado em „Varsóvia, Polônia“), o autor conta nas páginas 97 e 98 dessa obra a história de um massacre de operários mortos pelos bugres em novembro de 1908. A maioria dos mortos era de origem polonesa.

 

„SELVAGENS DESALMADOS“ 

Os xoklengs (bugres) eram vistos como „selvagens desalmados“, que não tinham piedade de atacar, nem respeito à vida humana. Matá-los suscinta o mesmo sentimento que temos com relação a ratos, baratas e cobras.

Os brancos não viam os índios como homens que estavam defendendo a própria terra e o sustento de suas famílias. Simplesmente eram vistos como um „Obstáculo ao Progresso“.

O antropólogo Silvio Coelho dos Santos fez um levantamento em jornais da época. Entre os jornais em lingua alemã como o „Kolonie Zeitung“, defendia-se abertamente o extermínio dos índios. Claro. Os colonos alemães, leitores dessas publicações e que viviam nas colônias situadas no interior das matas, eram os mais suscetíveis aos ataques dos índios bugres.

Já nos jornais brasileiros, a opinião era outra: a favor de uma solução pacífica para salvar os índios.

Enquanto isso, os ânimos inflamavam-se. Não podia haver roubo, assalto ou ataque a fazenda. Para os civilizados, era obra dos índios.

Mas nem tudo era por causa dos índios. Ladrões e assaltantes brancos aproveitaram para atacar e a culpa geralmente caía aos índios.

Teve aqueles que aproveitaram a ocasião para espalhar boatos sobre a presença de índios na região para que o pânico levasse colonos a abandonarem a terra ou vendê-las a preços mais baixos.

Cerimônia religiosa dos xokleng. Foto da década de 1930. (Foto Museu de Ibirama)

CLÃ EXTERMINADO

Em 1925, um dos três clãs xokleng do estado de Santa Catarina já estava completamente exterminado. Eram os angying, que viviam no sul de Santa Catarina.

Em 1949, conforme já citado antes, foram encontrados três índios- dois idosos e um jovem, em Orleans, cidade do sul de Santa Catarina. Segundo um antropólogo chamado Flávio Wiik, tratava-se dos últimos sobreviventes do clã angying[4].

Índios xokleng. Foto da década de 1920. (Foto Museu de Ibirama)

Camrém, o chefe xokleng com quem Eduardo Hoerhann contatou. (Foto Museu de Ibirama)

FOME E INANIÇÃO 

Em 1914, houve o primeiro contato entre os xokleng e o SNI (Serviço Nacional do Índio). Mas havia outros grupos que viviam na mata e eram atacados pelos bugreiros.

A medida que o século avançava, o número de „brancos“ multiplicou-se e a floresta foi desaparecendo ao ritmo de milhares de machados. Resultado: os índios que viviam da caça, pesca e coleta de frutos, raízes, mel e pequenos insetos começaram a passar fome e, quando não eram os bugreiros que os atacavam, eram os colonos que já traziam seus rifles a tiracolo.

A fome levou os índios a invadirem fazendas em busca de comida e ferro. Sim, ferro para fazer armas com as quais caçavam e se defendiam. Aliás, eles conseguiam fazer sofisticadas pontas de flecha em ferro.

À medida em que a „civilização“ avançava, a floresta ia sendo derrubada e cidade e estradas surgiam.  Os madeireiros extraíam madeiras, os caçadores dizimavam a caça e os colonos extraíam os palmitos, uma espécie de palmeira de cujo talo, extremamente delicioso, era extraído, como também outros alimentos.

A questão eram: até quando os índios poderiam viver na floresta que estava sendo simplesmente exterminada?

No final da década de 1940, foi encontrado um grupo de xokleng arredios que ainda viviam sabe-se lá como no que restou das matas.

Em 1968, em São Bonifácio, foi visto o último índio xokleng selvagem que ainda vivia- sabe-se lá como- pelas matas já degradadas de Santa Catarina.

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A POLÊMICA: EXTERMINAR OU NÃO OS ÍNDIOS

Em Florianópolis, em 1906 surgiu a Liga Patriótica para a Catequese dos Índios cujo presidente de honra era o Governador do Estado de Santa Catarina. A liga, diante de tantas notícias de extermínio dos índios bugres, com cestas de orelhas dos selvagens como „comprovante“, pensou: os índios precisam ser salvos, mas como?

Interessante. O governador do estado defendia a ideia de salvar os índios. Três ou quatro décadas antes, era o próprio governador quem pagava os honorários dos bugreiros.

Como defender os índios dos bugreiros? Pela catequese. A experiência foi um fracasso.

Era 1908. O tcheco Albert Vojtech Frič (1882-1944) denuniou no XVIº Congresso Internacional de Americanistas, em Viena, Áustria, o extermínio dos índios xokleng pelos bugreiros. Essa denúncia acabou dando origem a protestos formais endereçados ao governo brasileiro.

Por outro lado, no mesmo ano de 1908, Von Ihering publicou artigo defendendo abertamente o extermínio dos índios bugres num dos maiores jornais do Brasil, o „Estado de São Paulo“.

Sílvio de Almeida protestou em artigo publicado na edição do mesmo jornal em 12 de outubro de 1908. Ele defendeu que os índios mereciam a misericórdia de serem salvos.

Vale lembrar que o Brasil já era uma República. O imperador Dom Pedro II (1825-1891) foi deposto em 15 de novembro de 1889.

Os republicanos eram positivistas e tinham visão diferente de como lidar com os índios: o auxílio e a integração dos mesmos à sociedade nacional.

Nos jornais, os favoráveis ao extermínio dos índios e os favoráveis à proteção dos mesmos degladiavam-se.

O jornal em língua alemã editado em Blumenau, Der Urwaldsbote, defendia a continuação da ação dos bugreiros até o extermínio total dessa raça, alegando que, enquanto visse, os colonos estava à mercê do Bugergefahr, o “perigo dos bugres”.

Entra em cena um militar, Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), que percorreu o interior do Brasil para abertura de redes telegráficas, contatou com uma infinidade de tribos indígenas selvagens e defendeu que o estado tinha de integrá-los e defendê-los.

Em resumo: em 7 de setembro de 1910, surgiu o Serviço de Proteção aos Índios e localização de Trabalhadores Nacionais“. instituição que visava defender os índios. A inspiração para a criação dessa instituição foi de Cândido Rondon.

Eduardo Hoerhann, diretor da terra indígena xokleng entre 1914 a 1954. (Foto Museu de Ibirama)

 

1914: PACIFICAÇÃO

O lema inspirado em Rondon: „Morrer se necessário for, matar nunca.“ Mesmo sendo atacados pelos índios, os agentes do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) não poderiam atirar nos índios, em hipótese alguma.

Um sertanista do SPI, Fioravante Esperança, instalou um posto de atração de índios em 1911 ou 1912, em algum ponto do interior de Santa Catarina.

Ele acabou morto pelos índios, mas com o revólver intacto, sem ter atirado uma única bala em sua defesa. Morreu seguindo o lema do SPI.

O início foi difícil. Não se conhecia a língua dos bugres. As crianças e mulheres capturadas pelos bugreiros, quando não morriam cedo, pouca informação forneciam.

 

Índios vítimas dos bugreiros. Foto de 1905. (Acervo Arquivo Público de Blumenau)

 

Rio Platte, afluente do rio Itajaí Açú, o principal do vale que leva seu nome e onde ficam a colônia alemã Blumenau e o porto de Itajaí, era uma região percorrida pelos xokleng. Por isso, um grupo do SPI instalou-se na região. Abriram uma clareira na mata, hastearam uma bandeira do Brasil e um gramofone com o hino nacional. O objetivo era atrair os índios.

Aí entra em cena Eduardo de Lima e Silva Hoerhan. Nascido em 1897 em Petrópolis, cidade do estado do Rio de Janeiro, sudeste do Brasil, Eduardo é filho de Miguel Hörhann, Capitão Tenente do Exércitio Austríaco e instrutor de artilharia, que imigrou para o Brasil, e de Carolina de Lima e Silva Aveline, de origem aristocrática do Rio de Janeiro. Era sobrinha-bisneta de Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), o „Duque de Caxias“, o patrono do Exército Brasileiro.

Eduardo ingressou no SPI em 1912, aos 15 anos de idade, como fotógrafo[5]. Era 1913. Hoerhan encontrava-se em Santa Catarina na missão para „pacificar“ os índios xokleng.

A clareira nas proximidades do rio Platte era um ponto de atração dos índios. Tinha uma torre de vigia. Havia uma plantação para alimentar os funcionários e os índios kaingang do Paraná para ali.

Por que Kaingang?

 

A DESCOBERTA DA LÍNGUA XOKLENG

Hugo Gensch, médico. (Foto: Arquivo Publico de Blumenau)

Em 1908, um médico alemão residente em Blumenau chamado Hugo Gensch, hoje nome de rua naquela cidade, publicou um pequeno artigo sobre como criou uma índia xokleng. Ele a adotou. Era uma cativa dos bugreiros de um ataque ocorrido por volta de 1905. Hugo a chamou de Maria.

Este artigo foi intitulado Die Erziehung eines Indianerkindes (trad.: A educação de uma menina indígena) e acabou apresentado no XVIº Congresso de Americanistas Internacionais, realizado em Viena, Áustria, em 1908, ocasião, conforme relatado antes aqui neste livro, houve a denúncia do genocídio dos índios xokleng em Santa Catarina.

Maria, que aprendeu a falar alemão e francês, lembrava-se das palavras xokleng. Então Gensch publicou o léxico e as palavras eram bem semelhantes à língua kaingang. Sim, o xokleng é um „dialeto kaingang“, concluíram.

O já citado Hoerhan, do Serviço de Proteção aos Índios, teve acesso a esse léxico e decorou o vocabulário. Seria importante. Hoerhan tinha estudado um pouco de kaingang com os índios dessa etnia.

Esse léxico de Hugo Gensch iria ajudar Hoerhan na pacificação dos xoklengs.

 

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A PACIFICAÇÃO

 

Era uma segunda-feira, 21 de setembro de 1914. Hoerhan  encontrava-se no posto do rio Platte quando houve o contato com os índios xokleng.

Os detalhes sobre esse dia importante para o SPI foram contatos por José Deeke, testemunha dos fatos relatados.

Quando avistou os índios, Eduardo aproximou-se deles. Aliás, ele teve muita coragem, pois os xokleng são muito desconfiados e, ao menor passo, atiram flechas.

Mas Hoerhan passou a falar algumas palavras em kaingang misturado com o vocabulário xokleng aprendido do artigo do já citado do médico Hugo Gensch.

Eduardo repetia a frase ao mesmo tempo em que se aproximava. Foi então que um índio de grande estatura perguntou:

Hôliké (Como é que é? Repita!!!)

Eduardo entendeu . Passou a repetir com a melhor pronuncia possível.

Os índios passaram a falar baixinho entre si e fizeram o gesto para que Eduardo aproximasse. O funcionário do SPI obedeceu.

No entanto, um dos índios disse batendo na coxa esquerda:

Ti-púuu. Ti-púuu.

Hoerhan entendeu. “Ti” é o artigo e “púuu” é o som de um tiro. Eduardo estava com um facão. Como o facão é de metal, os índios pensaram que era uma arma de fogo.

Eduardo tirou o facão e segurou-o na ponta da lâmica dizendo:

Kôniáhama, tipúuu tom. (é um facão, não uma arma de fogo).

Então ele completou:

Amonem, Amonem. Tchóro (Trad.: quero vos dar).

Foi então que ele tirou a roupa e foi pelado em direção aos índios para que estes não pensassem que ele tinha alguma arma escondida dentro da roupa.

Houve momentos de tensão, pois um dos índios estava desconfiado de Eduardo. Estava quase atirando a flecha, quando um deles o impediu e permitiu que Eduardo se aproximasse.

Assim foi feito o primeiro contato amistoso entre os „brancos“ e os xokleng.

 

DIFICULDADES DOS PRIMEIROS TEMPOS DE PACIFICAÇÃO

 

Xoklengs contactados por Eduardo Hoerhan. (Foto: Acervo Silvio Coelho dos Santos)

 

E o início do convívio dos índios dentro da reserva indígena foi difícil. Hoerhan queria salvá-los dos bugreiros. O grupo contatado era apenas um, entre os vários que percorriam as florestas do interior de Santa Catarina.

Os índios pacificados por Hoerhan sabiam que ali estavam seguros das atrocidades cometidas pelos bugreiros.

Uma das primeiras dificuldades foi a mudança da dieta alimentar. Aqueles índios nômades não estavam acostumados a comer feijão, farinha de mandioca, arroz e carne seca. Eles não eram agricultores, mas sim caçadores coletores. Consumiam carne fresca de caça. A carne seca de boi era-lhes desagradável. Aliás, não conheciam o sal.

Tiveram de se tornar agricultores, se não quisessem morrer de fome na aldeia ou sair de lá e ter o azar de encontrar bugreiros na floresta.

 

ATÉ QUANDO OS BUGREIROS ATUARAM?

Até quando Martinho atuou matando os índios? Entre 1923 a 1928, ele era capataz do mato contratado por um agrimensor que fazia a metragem de terras agrícolas do interior de Santa Catarina. Acredita-se que ele continuou na atividade de matar índios até o início da década de 1930. Vale relembrar que ele faleceu em 1936 vítima de tifo.

Se no século XIX, os bugreiros eram pagos pelo governo do Estado de Santa Catarina por cada par de orelha cortada,  na segunda década do século XX, há havia o SPI e os índios eram protegidos.

No entanto, a matança continuou na clandestinidade.

 

ENCONTRO DE HOERHAN E MARTINHO BUGREIRO 

Era 1916 e a região era Papanduvas, norte de Santa Catarina. Índios bugres haviam matado bois de uma fazenda local.

O dono da propriedade enviou duas cartas. Uma endereçada a Eduardo Hoerhan informando sobre os prejuízos; outra para o temível Martinho Bugreiro.

Rafael Casanova de Lima e Silva Hoerhan é autor da dissertação de mestrado em História defendida em 2012 na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) intitulada „O Serviço de Proteção aos Índios e a Desintegração Cultural dos Xokleng (1927-1954).

Descendente de Eduardo Hoerhan, Rafael conta que Eduardo Hoerhan teve um encontro com o famoso Martinho Bugreiro, num bar no interior de Papanduvas, bem ao estilo dos velhos filmes de „faroeste“.

Hoerhan chegou a cavalo, desceu e ficou ao lado do animal. Martinho saiu do bar e ficou ao lado do seu cavalo, a uns oito metros de Hoerhan.

Este último tomou a palavra dizendo que o SPI (Serviço de Proteção aos Índios) iria pagar o fazendeiro dono dos bois mortos pelos índios.

Hoerhan acrescentou: „Martinho, uma coisa vou te pedir. Não mate mais índios porque o governo já proibiu esta matança. Tu bem sabes disso.“

Então Eduardo continuou: „Mas se tu matares só mais um índio e eu souber, venho a tua procura e sabes que eu te encontro. Podes pensar o que vai acontecer? Vou te buscar nem que seja no inferno. Acho que estás bem avisado.[6]

 

A 2ª TRAGÉDIA: A GRIPE 

Era 1918 e o diretor da Reserva Indigena dos índios xokleng, Eduardo Hoerhan, foi à cidade de Ibirama junto com 200 índios. O objetivo era recepcionar o governo do Estado, ocasião na qual Eduardo iria pedir ajuda financeira para a Reserva Indígena.

O governo brasileiro criou o SPI, mas não enviava dinheiro suficiente para a manutenção das reservas. O diretor Hoerhan prometia ajuda aos índios, mas no fim ele ficava por mentiroso, pois nunca havia dinheiro para comprar maquinário e outros itens necessários para o dia-a-dia da reserva.

Era a primeira vez que os índios, pacificados havia quatro anos, iriam visitar uma cidade dos „brancos“, no caso Ibirama.

A visita dos índios atiçou a curiosidade de moradores de várias cidades do vale do Itajaí. Com o objetivo de ver o governador, eles vieram a Ibirama também para ver os „terríveis bugres“ bem de perto, face a face, aqueles selvagens que trouxeram outrora tanto pânico.

Foi o início de uma segunda tragédia desses índios. Se não bastasse o governador não ter vindo, como também o dinheiro que tanto Hoerhan estava precisando, os índios contraíram „kozurro“ (gripe), doença que não conheciam.

Resultado: boa parte do grupo contatado por Hoerhan acabou morrendo ao longo dos anos seguintes, miseravelmente dessa doença.

 

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MARIA GENSCH/ KORIKRÃ

Essa visita de 1918 teve uma curiosidade: a visita de uma índia capturada chamada Korikrã com seus pais biológicos, após 13 anos de separação.

A história, que dá um filme, começou em 1905 quando a índia Korikrã foi capturada por Martinho Bugreiro. Sabe-se que ela tinha por volta de 13 anos de idade. Como é que se chegou a esta conclusão? É que três meses depois de ter sido adotada, pouco depois do terrível ataque dos bugreiros, a menina teve sua primeira menstruação.

 

Dr. Gensh ao lado de jovem Maria e Família. (Foto: Acervo Prof. Sílvio Coelho dos Santos)Do massacre, Maria lembrou-se da cena terrível que assistiu: o bugreiro degolou sua mãe na sua frente. O pai dela conseguiu puxá-la e gritou: „Corra! Corra“.

E os dois correram com todas as forças pela mata para se salvarem.

Mas Maria não foi longe. Os bugreiros a pegaram. Levada para Blumenau junto com outras crianças e mulheres capturadas, a menina foi levada para o Colégio das Irmãs da Divina Providência, onde foram batizados, ritual cristão que não entenderam.

 

Ano de 1905. Mulher e crianças xokleng capturadas pelos bugreiros e levadas a Blumenau. (Foto Acervo Gilberto Gerlach)

 

Ela acabou entregue ao médico Hugo Gensch, que a criou como filha e recebeu o nome „cristão“ de Maria.

Korikrã, o que não poderia ser diferente, era uma criança melancólica, conforme relatou Gensch:

 

Quando ela já sabia se manifestar em alemão, disse ela repetidas vezes para a minha senhora: mamãe, vocês não devem supor que eu vim com gosto para junto de vocês. Não! Mas vocês todos são bons para comigo. Jamais, entretanto, eu poderia esquecer o que me aconteceu, e durante a noite vem sempre a minha mãe, de pescoço cortado, e mostra-me o meu irmãozinho, que foi retalhado em pedaços. Vem também o meu irmão Junvégma cantar para mim. De manhã, entretanto, quando eu acordo, eles não estão mais, e eu não tenho mais a ninguém, só a vocês.[7]

 

Da experiência de criar uma índia como filha adotiva, Hugo publicou a já citada monografia „Die Erziehung eines Indianerkindes, Praktischer Beitrag zur Lösung der südamerikanischen Indianerfrage „(Berlim, 1908).

A menina foi aos poucos aprendendo a falar alemão e os costumes „brancos“. Contou Gensch:

Admiramos, desde o início, o asseio corporal da menina. De manhã ela lava-se muito bem limpando os dentes tão intensivamente com água, usando os dois dedos indicadores, que podia ter servido de exemplo a muita gente “civilizada”. De igual limpeza ela usava para as refeições. Embora só usasse as mãos para levar as comidas à boca, ela teve o máximo de cuidado para não sujar o vestidinho. Logo mais pode minha senhora verificar, também, o pudor feminino, durante o trocar de roupa, quando costumava ficar na posição de Vênus de Medicci[8].”

Era ideia corrente que a menina, por ser índia selvagem, poderia matar os pais na calada da noite. Já a própria Korikrã pensava piamente que eram seus pais adotivos que poderiam fazer isso com ela.

Mas ao longo do tempo, Korikrã adaptou-se. Maria, que aprendeu o alemão, teria também aprendido francês, segundo afirmou Hoerhan, em entrevista ao antropólago Darcy Ribeiro (1922-1997).

E por falar em aprendizado de idiomas, a índia, apesar de ter aprendido o alemão, língua corrente de Blumenau na época, tinha frases e expressões „engraçados“.

Ao invés de „cadeira“ ou „escada“, ela dizia: „senta aqui“ e “venha para cima”. E se algum homem branco tivesse um nariz avermelhado, ela dizia: „nariz-acende-fogo[9]“.

Ela tinha frases como „“eu tenho zangado”, “a Joana tem bonito”, “o Gustavo tem aborrecido”. A índia adotada referia-se aos homens como “ekelkerls”, cujo sentido é “nojentões”. Certamente deve-se ao trauma do ataque dos bugreiros.

No início arredia a revelar sua língua tribal, Maria ensinou ao seu pai adotivo inúmeras palavras e frases em língua xokleng.

Neste artigo, Gensch publicou um léxico da língua xokleng, inclusive a letra de algumas músicas. Tratava-se do primeiro registro do idioma xokleng, o que antes ninguém havia.

Em 1918, Hugo Gensch, quando soube que o governador do Estado iria encontar-se com os índios xokleng em Ibirama, resolveu levar Maria para tentar reencontrar sua família. Ibirama fica a 40 quilômetros de Blumenau.

 

Maria Korikrã já adulta, mais ou menos na época em que teve contato com seu pai biológico em Ibirama. (Foto: Acervo Prof. Sílvio Coelho dos Santos)

 

E Maria veio ao encontro bem vestida com um bonito chapéu. Os índios a viram e seu pai biológico, o cacique, aproximou-se.

Maria perguntou quem eram aqueles e Eduardo Hoerhan disse-lhe que se tratava do pai biológico dela.

Os índios apalparam-na, desarrumando o cabelo dela, tirando-lhe o chapéu. Maria ficou com medo principalmente quando os índios levaram sua saia para saber se ela tinha certo sinal na perna, resultado de uma queda que ela teve na infância.

Kó, kó (Aqui, aqui), gritaram quando encontram o dito sinal. Era ela, era a Korikrã.

O pai lhe perguntou:

  • Você não me reconhece? Eu sou seu pai.

Maria não respondia. Estava com medo e asco ao mesmo tempo.

O velho índio dá um safanão:

  • Eu estou vendo, você tem nojo de mim, tem nojo de toda a sua gente.

Depois de tantos anos de separação, pai e filha eram completos estranhos entre si. E assim o encontro foi uma total decepção familiar.

Segundo Hoerhan, testemunha desse episódio, Maria Gensch morreu em 1936, por volta dos  42 anos de idade vítima de tuberculose.

Maria foi um dos raros casos de crianças xokleng que conseguiram sobreviver e chegar à idade adulta. Geralmente as crianças capturadas não viviam muito tempo.

 

Médico Hugo Gensch, esposa e a filha adotiva Maria, que nunca se casou e viveu com os pais adotivos. (Foto: Arquivo Histórico de Blumenau)

 

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DIMINUIÇÃO DO GRUPO

 

A tragédia foi tão grande que Hoerhan escreveu, conforme registrou o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), que mais tarde tornou-se ministro e senador: „Se pudesse prever que iria vê-los morrer tão miseravelmente, os teria deixado na mata, onde ao menos morriam mais felizes e defendendo-se de armas na mão contra os bugreiros que os assaltavam“.

Se não bastasse as mortes em si, a gripe também sinalizou o fim de uma tradição entre os xokleng: a cerimônia de furação dos lábios dos meninos (glokózyn) para a colocação do „botoque“, símbolo do homem adulto, e a cremação dos mortos.

Hoerhan proibiu essas cerimônias para que os índios não se aglomerassem e, assim, o vírus da gripe espalhasse mais ainda na reserva.

Os índios acreditavam que o sal usado na comida dos brancos, a que eles passaram a ingerir, tinha algo a ver com a epidemia.

Em 1914, o grupo „pacificado“ por Hoerhan era integrado por 400 indivíduos. Em 1932, por causa das mortes provocadas pela gripe e outras doenças contra a quais os indígenas não tinham imunidade, o número de índios havia diminuído para apenas 106 indivíduos.

Este último número foi informado pelo antropólogo norte-americano, Jules Henry (1904-1969), o primeiro a iniciar pesquisa com este grupo de indíos, estudo este que resultou no livro “Jungle People: a Kaingang tribe of the highlands of Brazil” (1941).

Vale lembrar que Jules pensava tratar de um grupo kaingang e assim os chamou em seu livro sobre a pesquisa.

 

COLAPSO DA CULTURA XOKLENG

 

Antes nômades, os xokleng tiveram de tornar-se agricultores e, quando não dava a colheta, tinham de implorar ajuda junto à administração do SPI.

Cerimônias tradicionais acabaram desaparecendo. Os xokleng pararam de usar botoques de madeira nos lábios, sua marca característica.

Os índios não conheciam o álcool. Na década de 1920, devido ao contato com colonos brancos dentro ou nos limites da reserva, passaram a consumir bebidas e isso trouxe uma tremenda dor de cabeça à administração da reserva indígena. Muitos índios tornaram-se alcoólatras.

Hoerhan não queira que eles tivessem contato com dinheiro. Foi em vão. Quando descobriram o álcool e outros produtos que poderiam ser adquiridos com dinheiro, os índios faziam de tudo para arranjar algum.

O antropólogo Darcy Ribeiro verificou que as mulheres xokleng passaram a sofrer as dores do parto. Antes, quando viviam livres na floresta caçando e vivendo da coleta de frutos e raízes, as mulheres dessa tribo não sofriam tanto com as dores do parto e tinham os filhos de forma mais rústica. Agora na reserva, isso mudou completamente.

Até o sexo mudou. Quando as mulheres xokleng viviam na mata, elas não engravidavam tanto. Geralmente só tinham outro filho quando o anterior encontrava-se com três ou quatro anos de idade.

Vivendo na reserva, passaram a engravidar com mais frequência, inclusive com o registro de adolescentes dando a luz aos 12 ou 13 anos.

Os xokleng eram um grupo onde havia todos os tipos de casamento. Um homem com várias esposas ou mulher com vários maridos, monogamismo, poligamismo etc.

Quando passaram a viver na reserva, passaram a ter relações sexuais com homens brancos. Resultado: o aparecimento de doenças venéreas, antes desconhecidas pelo grupo.

 

ASCENÇÃO E QUEDA DE HOERHAN

 

Não era fácil a vida de Hoerhan na administração da reserva indígena dos índios xokleng. Sempre havia falta de dinheiro. O SPI (Serviço de Proteção aos Índios).

Os índios faziam pedidos- queriam umas ferramentas aqui, outras ali, mantimentos acolá, mas Hoerhan não tinha como atendê-los. Volta e meia era chamado de „mentiroso“ ou  „ladrão“.

Em 1954, após 40 anos de trabalho ininterrupto na reserva, Hoerhan foi destituído do cargo de diretor. Acabou acusado de ter participado da morte de um índio.

O índio em questão era conhecido como Lili Pripá, um kaingang, descendente dos índios dessa tribo trazidos em 1914 do Paraná na missão de contato com os xokleng.

Pripá era alcoólatra e teria dito que iria matar Hoerhan. Índios o mataram perto da casa de Hoerhan.

No início, Hoerhan foi demitido sem direito à aposentadoria. Ele teve de provar que não mandou matar o índio Pripá. Incomodou-se. Mas no final, foi absolvido do processo. O juiz entendeu que o réu não teve nada a ver com a morte do índio alcoólatra. Não passou de acidente. A surra estrapolou os limites.

Hoerhan ganhou o direito de ter aposentadoria para viver sua velhice com alguma dignidade. Devido aos 40 anos vivendo com os xokleng, Hoerhan acabou tendo um filho com uma índia chamada Nandjá Kangô. Dessa união, nasceu Adolfo Brasil Simas.

Hoerhan faleceu em 1976 em Ibirama, Santa Catarina.

 

ANTROPÓLOGOS

O antropólogo Sílvio Coelho dos Santos, o intelectual brasileiro que mais estudou os xokleng, iniciou as pesquisa com esses índios em maio de 1963, apesar de que observou que nunca aprendeu a língua dos mesmos. Infelizmente no Brasil não há manuais que ensinam línguas indígenas com CDs ou fitas cassetes.

Já entre os norte-americanos, os antropólogos Jules Henry e Gregory Urban (que assina como Greg Urban[10]) foram os que mais se dedicaram ao estudo dessa etnia indígena. Jules os estudou na década de 1930 e Urban nas décadas de 1970 e 1980.

 

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MEA CULPA

 

Hoerhan disse em 1963 ao pesquisador Sílvio Coelho dos Santos: „É um crime pacificar índios; tirá-los de seu habitat. Esses índios daqui (xokleng) eram homens puros; sãos. Hoje estão como o senhor está vendo, degradados“.

O então ex-chefe da Reserva Indígena referia-se ao alcoolismo e as perdas culturais dos índios. Nessa época, ele pensava que o ideal era ter deixado-os vivendo nas matas.

Mas espera aí. Os índios corriam o risco de serem atacados pelos bugreiros. Além do mais, o antigo modo de vida dos índios estava condenado. As florestas foram devastadas, a caça sumiu, os rios ficaram poluídos, cidades surgiram, o território foi todo ocupado por colonos, ou seja, viver da caça, coleta de frutos e de pesca simplesmente tornou-se impossível.

 

PROBLEMAS

Para entender o problema. O leitor poderá perguntar-se: é tão difícil assim a vida numa Reserva Indígena?

Na perspectiva do índio, viver da forma tradicional- da caça e coleta de frutos- era inviável. Apesar de que a reserva tinha boa área de floresta, esse território era incapaz de alimentar todos os índios.

Uma solução poderia ser procurar emprego nas cidades próximas à reserva. O problema é que os brancos têm indisfarçável preconceito contra os índios. Para os „civilizados“, os índios são „malandros“ que não trabalham direito.

Não conseguindo emprego no mundo „civilizado“, os índios precisavam ganhar dinheiro para sobreviver. O que fizeram? Pediam à administração da reserva, mas sempre havia o problema da falta de dinheiro. O SPI (Serviço de Proteção aos Índios) tinha pouca verba.

Na década de 1950, uma estrada foi aberta cortando a reserva e ligando-a às cidades mais próximas.

A estrada impulsionou o comércio de madeira e palmito, ou seja, os índios passaram a cortar árvores de sua reserva e extrair palmito (Euterpe edulis mart) para ganhar dinheiro, com o qual compravam espingardas, roupas, bicicletas, bijuterias e a danada da cachaça.

O problema é que esses recursos não tiveram vida longa. Logo acabaram e a crise instalou-se na reserva. Vale lembrar também que a reserva foi invadida em 1963 por 300 colonos, que literalmente saquearam madeiras da reserva dos índios.

 

FUNAI

Em 1967, o governo brasileiro extinguiu o SPI (Serviço de Proteção aos Índios). Motivo: uma série de escândalos de corrupção e denúncias de que a instituição estava usando índios como „mão de obra escrava“.

No lugar do SPI, foi fundada a Funai (Fundação Nacional do Índio), instituição que existe até hoje.

 

MUDANÇAS DE NOMES

A reserva indígenas onde vivem os índios xokleng era chamada de „Posto Indígena Duque de Caxias“, nome este em homenagem ao patrono do Exército Brasileiro, Duque de Caxias.

Depois passou a ser chamado „Posto Indígena Ibirama“ e mais tarde „Área Indígena Ibirama“. Já os índios chamam a reserva de „Terra Indígena Laklãnõ“.

 

3ª TRAGÉDIA: A BARRAGEM

Os índios xokleng não imaginaram que a construção de uma barragem iria provocar tantos problemas.

A região das cidades como Itajaí, Blumenau, Ibirama e Rio do Sul, incluíndo a terra indígena dos xokleng, está situada no „Vale do Itajaí“.

O nome vem do rio Itajaí Açu, que corta o vale e deságua no oceano atlântico, na cidade de Itajaí, onde situa-se o porto mais importante do estado de Santa Catarina.

Itajaí Açú é uma palavra do idioma indígena guarani e significa „O grande rio dos taiás“, em alusão a uma planta chamada „taiá“.

Este rio provoca grandes enchentes. Como hoje existem no vale uma infinidade de cidades e considerável população, as enchentes do rio Itajaí Açú tornaram-se calamidade pública.

O rio Platte, onde fica a reserva dos índios xokleng, é um afluente do rio Hercílio e este, por sua vez, deságua no Itajaí Açú.

O governo de Santa Catarina resolvou construir uma barragem no rio Platte. Objetivo: os engenheiros calcularam que a barragem no rio Platte poderia reter a água e fazer diminuir em dois metros o nível das enchentes que assolam Blumenau e outras cidades vizinhas.

As obras iniciaram em 1972 e foram concluídas em 1992. Ao todo, a barragem tem 400 metros de extensão, 270 de base, 10 metros de topo e 60 metros de altura. Tem capacidade de represar 387 milhões de metros cúbicos de água.

Os índios não se opuseram a obra, mas o problema foi que a barragem provocou forte impacto ambiental. Em primeiro lugar, a barragem acabou alagando 900 hectares de terras indígenas. Os índios tiveram de abandonar casas, plantações e pomares por causa do avanço das águas represadas.

As casas dos índios tiveram de ser reconstruídas em outras áreas da reserva indígena. Um parte da população indígena acabou indo embora da reserva e muitos tornaram-se favelados em Blumenau e em outras cidades do estado.

A barragem foi um absurdo, pois alterou tudo. Até mesmo diminuiu a quantidade de peixes nos rios Hercílio e Platte.

Por outro lado, quando o autor deste livro esteve visitando a reserva dos xokleng, os índios relataram que os rios represados pela „Barragem Norte“, nome dado à obra, trazem a poluíção de algumas cidades situadas mais adiante, já que tratamento de esgoto é raro no Brasil.

Em 1991, os xokleng invadiram a barragem exigindo que o governo do Estado de Santa Catarina pagasse indenizações pelas perdas de terras. O Governo concordou, mas não pagou.

Por outro lados, os índios reclamam que parte de suas terras foi invadida nos anos 1960 por colonos brancos.

Quando escrevia estas linhas, no fim de outubro de 2013, os índios xokleng, da aldeia Bugio, um das sete existentes na terra indígena, invadiram e expulsaram algumas famílias, inclusive destruído casas.

A justiça mandou que os índios saíssem das propriedades invadidas.

Até o presente momento, ainda não estão legalizados os 37 mil hectares que, segundo os índios, pertencem ao povo xokleng. Eles só têm posse oficial de 14 mil hectares.

Em resumo: os índios são discriminados. Poucos entre eles têm emprego. A barragem construída em suas terras e a poluição das cidades fora da reserva provocaram forte impacto ambiental.

A mata da reserva não dá mais caça e as árvores que poderiam ser cortadas para gerar dinheiro há muito haviam sido transformadas em toras.

As terras mais férteis foram tragadas pelas águas da barragem. As terras mais altas já não são boas para a atividade. Se em 1973 eles eram autosuficientes com a agricultura e vendiam o excedente; depois da barragem e da perda das melhores terras, houve acentuada queda da produção.

O governo do Estado prometeu reconstruir as casas e pontes. Não o fez integralmente.

E para finalizar, a terra que eles possuem oficial (14 mil hectares) é pouca para 2.400 índios. Por isso, eles querem recuperar os 37 mil hectares originais. Mas será que vão conseguir?

 

A HISTÓRIA QUE QUASE VIROU FOGUEIRA DE CHURRASCO 

O ano era 2001. Um jovem de 24 anos de idade chamado Rafael Hoerhan, na época recém formado no curso de História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com sede em Florianópolis, foi numa casa em São José, cidade vizinha a Biguaçu, onde o autor deste livro mora.

Seu tio-avô, dono do imóvel, acabara de alugar a casa. Como estava em Brasília na ocasião, pediu para seu jovem sobrinho neto, Rafael Hoerhan, que fosse na casa verificar como se encontrava e recepcionasse os inquilinos.

Quando lá chegou, Rafael verificou que os novos residentes estavam fazendo uma faxina e amontoaram um monte de papel velho, úmido, alguns já sujos de fezes de ratos e baratas, encontram num canto da residência. Os inquilinos resolveram fazer um churrasco e, para acender e manter a chama, usavam aquele papel velho.

Foi então que Rafael pegou um dos papeis e verificou que se tratava de documentos de seu bisavô Eduado Hoerhann (1896-1976) e pai de seu tio avô dono da mencionada casa de São José.

Eram cartas, memorandos, processos, enfim, documentos diversos que contavam a história dos índios xokleng, da reserva indígena de Ibirama, escritos antropológicos etc. Havia também correspondência de Hoerhan com Curt Nimuendajú, um austríaco que veio para o Brasil e dedicou a vida ao estudo dos índios brasileiros. Curt visitou centenas de tribos no Brasil inteiro e deixou uma verdadeira biblioteca de descrições antropológicas e linguísticas a respeito dos povos nativos brasileiros.

Também havia cartas do antropólogo norte-americano, Jules Henry, autor do já citado livro „Jungle People“, um precioso trabalho sobre os xokleng na década de 1930.

Rafael recolheu a papelada salvando-a do inevitável desaparecimento completo. O jovem descobriu que aquela documentação encontrava-se na antiga casa de Eduardo Hoerhan, na reserva de Ibirama, e sobreviveu (sabe-se lá como) a duas enchentes na década de 1980. Por isso, veio parar em São José.

Ao todo, eram 297 documentos, que somavam 500 folhas. A maioria era cartas. Eduardo, quando mandava correspondência, tinha o cuidado de mimeografar para guardar uma cópia em seu arquivo particular.

Como ele havia feito um curso de recuperação de documentos em Florença Itália, o jovem fez uma limpeza na papelada, organizou-a e encadernou.

Como Rafael procurava um tema para uma dissertação de mestrado em história, eis ali o tema. Entre 2003 e 2012, aquela papelada o serviço para formar-se no mestrado e no doutorado de história pela Universidade Federal de Santa Catarina.

O título da dissertação de mestrado foi “O Serviço de Proteção aos Índios e os Botocudo: a política indigenista através dos relatórios (1912-1926)”. Já a esse de doutorado teve o título de “O Serviço de Proteção aos Índios e a desintegração cultural dos Xokleng (1927–1954)”.

Em resumo: foi assim que a memória dos índios xokleng não virou chama de churrasco.

 

Rafael Casanova Lima e Silva Hoerhann. (Foto Ozias Alves Jr)

 

Foto tirada nos anos 1930. Habitação típica dos xokleng. (Foto Museu de Ibirama)

Anos 1960. Visita do professor Sílvio Coelho dos Santos (in memoriam) na terra indígena xokleng. (Foto Editora da UFSC)

Em 1999, foi publicado o primeiro livro em idioma xokleng. (Foto Reprodução Ozias Alves Jr)

Índios xokleng em 1928. (Foto Museu de Ibirama)

Foto tirada na década de 1930. Nessa época os índios xokleng já se vestiam como os brancos. (Foto Museu de Ibirama)

Eduardo Hoerhann (1896-1976) entre os índios xokleng. (Foto Museu de Ibirama)

Em 1954, Eduardo Hoerhann, então diretor da Terra Indígena Xokleng, foi preso acusado indiretamente da morte de um índio. Mais tarde foi absolvido por falta de provas. (Foto Museu de Ibirama)

Página do livro “Vãnhkala Jó Kabel”, o segundo publicado em idioma xokleng, com o relato dos índios dos acontecimentos de 22 de setembro de 1914. (Foto Reprodução)

Mulheres xokleng em 1928. (Foto Museu de Ibirama)

Mulheres xokleng na década de 1920. (Foto Museu de Ibirama)

Professor Sílvio Coelho dos Santos com um indígena em 1964. (Foto Editora da UFSC)

 

NOTAS: 

 

[1] SANTOS, Sílvio Coelho dos. “Índios e brancos no sul do Brasil: a dramática experiência Xokleng.” Florianópolis: Editora Edeme, 1973. Pág. 54.

 

[2] SANTOS, Sílvio Coelho dos. “Índios e brancos no sul do Brasil: a dramática experiência Xokleng.” Florianópolis: Editora Edeme, 1973. Pág. 87.

 

[3] SANTOS, Sílvio Coelho. “Os índios Xokleng: memória visual”. Florianópolis: UFSC; Itajaí: UNIVALI, 1997. Pág. 28.

 

[4] WEBER Kátia. Tornar-se professora xokleng/ laklãnõ: Escolarização, Ensino Superior e Identidade Étnica“. Dissertação de Mestrado. UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), page 37. 2007.

[5] “Os xokleng e a colonização do Vale do Itajaí: Análise de uma carta de Eduardo de Lima e Silva Hoerhann – encarregado do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Autora: Iraci Pereira Gomes. 2009.

 

[6] HOERHAN, Rafael Casanova de Lima e Silva Hoerhan. „O Serviço de Proteção aos Índios e a Desintegração Cultural dos Xokleng (1927-1954).“ Dissertação de Mestrado em História. UFSC. Florianópolis. 2012. Pág. 152.

[7] GENSCH, Hugo. „Die Erziehung eines Indianerkindes, Praktischer Beitrag zur Lösung der südamerikanischen Indianerfrage „(Berlim, 1908). Page 26.

 

[8] GENSCH, Hugo. „Die Erziehung eines Indianerkindes, Praktischer Beitrag zur Lösung der südamerikanischen Indianerfrage „(Berlim, 1908). Page 20.

[9] AREND, Silvia Maria Fávero. De Korikrã a Maria Gensch- A filiação adotiva como um projeto civilizador (Blumenau – 1905-1914). ANPUH – XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – João Pessoa, 2003. Page 05.

[10] Greg (Gregory) Urban est l´auteur des études comme A model of Shokleng social reality” (1978),  Interpretation of inter-cultural contact: the Shokleng and Brazilian

national society 1914-1916 (1985) et “Metaphysical community: the interplay of senses and intellect” (1996).

 

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