Por: Ozias Alves Jr. | 12/12/2017

Urda Alice Klueger

E-mail: urdaaliceklueger@gmail.com

Faz dois dias que me encontrei com a minha Infância no Bairro Itoupava Seca, perto da Eletro-Aço, e eu ia em pé na garupa da bicicleta do meu pai! Como numa voragem, o coração me carregou no Tempo e retrocedeu até a época em que quem vivera aquilo fora eu, e embora quem fosse em pé na garupa da bicicleta de um pai de uns trinta e poucos anos fosse um garoto de uns dez, espadaúdo para a idade, bem alimentado e com o cabelo loiro espetado à escovinha, de repente era eu quem estava ali, e era mesmo meu pai, que também teria, na época, uns trinta e tantos anos.

Então, de repente, era como estar dentro de um filme real, a infância me cercando em girândolas, e eu, menina já de escola andando em pé no bagageiro da bicicleta do meu pai, segurando nele com toda aquela total confiança que crianças pequenas tem nos pais, os pés metidos em calçados “Sete Vidas”, os vestidinhos coloridos que minha mãe costurava voando ao vento, o cabelo curto cortado pelo barbeiro Schoenfelder, pois ninguém confiava que criança assim arteira como eu conseguisse manter em ordem cabelos compridos, e como eu queria ter as longas tranças da minha prima Lori Passold!

Andar em pé no bagageiro da bicicleta do meu pai era o meu orgulho, a minha marca, já que nenhuma outra criança andava assim! Ficava cheia de pose, arriscando passos de trapézio, sem o menor medo de cair. Aquele bagageiro de bicicleta era como se fosse um palco onde eu podia viver todas as fantasias, e respirando profundamente eu as vivia na imaginação, e penso que, naquela Blumenau da década de 1960, com seus 60.000 habitantes e suas ruas sem calçamento, não havia quem não prestasse atenção naquela menina corajosa que não temia andar em pé no bagageiro da bicicleta do seu pai!

Mais cedo ou mais tarde, naqueles tempos, alguém sempre acabava dizendo, quando me conhecia comportadamente ao lado da minha mãe, vindo da missa: “Ah! Mas esta é aquela menina que anda em pé na bicicleta!” – e eu fazia de conta que não, mas inchava de orgulho, por estar sendo reconhecida pela minha marca pessoal e por ter tanta coragem!

E então, nas segundas-feiras, que era o dia de folga do meu pai, andávamos por aí tudo, desde a buscar tangerinas no Garcia Alto até a ir comer algum maravilhoso doce com nata batida na Confeitaria Söcher, na cidade (ah! Até hoje chamamos o centro de Blumenau de cidade, como o fazíamos no passado, fazendo com que os novos moradores achem engraçado!), e para ir-se à cidade, era necessário calçar-se os sapatos brancos de Nugget e as meiazinhas coloridas, deixar de lado os “Sete vidas”! Nossa Rua XV já era calçada de paralelepípedos (guardei um lá em casa, quando fizeram o novo calçamento), e por aquela pista tão moderna meu pai disparava de bicicleta e o vento zunia nos meus ouvidos, enquanto, de pé, me apoiava com toda a confiança nos ombros dele!

Então, faz dois dias, encontrei-me com a minha infância na rua de asfalto lá perto da Eletro Aço! Aquele menino e o pai dele eram como eu e o meu pai, e apressei o carro, no movimento congestionado, para ver direito como era aquele pai, pois talvez fosse o meu! O menino eu via bem, e é claro que devíamos ter coisas em comum, e assim pelas costas aquele pai tinha a vitalidade e a idade que o meu teria quando eu era criança – mas o trânsito não me deixou emparelhar com aquela bicicleta que, em conluio com o Tempo, fizera com que eu fosse como que abduzida para o Passado! Acabei por ter que me contentar em me manter em harmonia com o fluxo de automóveis e ver a bicicleta com a minha infância disparar lá para a frente, quando a sinaleira fechou. Não consegui ver o rosto daquele ciclista que talvez fosse o meu pai!

Ficou a força das lembranças, no entanto, e toda a torrente de emoções que veio com elas! Como os canais de comunicação com o Tempo e o Espaço ficam livres e cheios de sensibilidade quando a gente é feliz!

Blumenau, 22 de julho de 2006.

 

Urda Alice Klueger

Escritora